quarta-feira, 18 de maio de 2011

O último cheiro de uma noite

 Depois de uns vinte minutos chegamos ao bar. Sei quanto tempo demorou pela experiência no trajeto, porque não me lembro de nada o que aconteceu enquanto caminhamos, nem de quantas caipirinhas, cervejas e o que mais quer que tenha passado por nossas mãos na festa em que estávamos havia alguns minutos. O que lembro, é que estava sentado à mesa, a Leni à minha frente. Pedimos uma cerveja. A mais barata como sempre.
 - Piá! Vamo pegá uma parada.
 - Ta afim de outra?
 - Sim.
 - Mas agora acho que não vai ter. Já são umas 03h30min.
 - Eu guardei um pouco da outra na minha bolsa. Eu achei que talvez fosse dá vontade mais tarde.
 - Sério?! Então passa aqui.
 É incrível como a mente de um bêbado funciona. Ela pensou que um pouquinho de pó que havia sobrado, poderia ser guardado solto em sua bolsa, e depois bastava pegar, sabe-se lá como. A mente ébria é muito pragmática: “Preocupe-se com o depois, depois”. Apesar de que sóbrios muitos de nós também somos assim. Talvez a bebida só torne a preocupação ainda mais imediata, ou melhor, tira a preocupação de seja lá o que for. A falta de preocupação é bem fácil de notar nesse caso pela minha próxima atitude: virei a bolsa dela sobre a mesa e comecei a bater e agitar para juntar o que conseguisse. Nisso, chega o garçom com a cerveja, olha para nós dois. Eu fico meio debruçado sobre a mesa tentando parecer natural - algo difícil se você estiver imaginando a cena como estou tentando descrever-, ele deixa a cerveja e sai.
 Arrumo duas carreirinhas. Cheiramos. Sinto o pó passando pelas narinas e uma parte chegando até a garganta. Gosto um pouco amargo, não muito. A língua amortece. Logo vem a sensação de bem estar, empolgação, mente e corpo a mil! O bar estava com um bom número de pessoas. Estávamos em uma mesa mais ao fundo, mas ainda assim, com um bom número de pessoas em volta, em um bar que não era muito grande. E isso foi algo que só depois passamos a avaliar.
 - Será que alguém percebeu algo?
 - Ah, não sei. Só porque você estava batendo na minha bolsa e espalhando tudo em cima da mesa na frente do garçom e depois agente cheirou aqui mesmo?
 Demos muitas gargalhadas. Bebemos mais um pouco e fomos embora. Até que foi uma noite agradável. Sim. Foi.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Animais: Se você ama uns, por que come outros? (Imaginei algumas respostas)


R: A sociedade é muito puritana para certos níveis de promiscuidade.
R: Eu não como tudo o que amo, nem amo tudo o que como.
R: Na china, por exemplo, não é bem assim.
R: Amo???
R: Isso aí! O negocio é comer geral.
R: Na verdade eu não curto zoofilia.
R: Meu amor e meu paladar não estão tão intimamente ligados.

Pensou em mais alguma? rs

Shitman (parodiando Sandman)

Escondo-me à sombra da tua bunda nua
Vou até o fundo da tua mente desperta
Você ouvindo, ou não, eu penso, falo
Mesmo que seja entre suas pernas abertas

Cachaça, vodka, conhaque, rabo-de-galo
Até cerveja às vezes desce bem
Pra me sentir vivo e de pescoço livre,
Enveneno-me até que ameaço num vai-e-vem

Avalio bem as consequências de meus atos
Após vomitar minh`alma, aberta e exposta no chão
E me ver naquele reflexo na companhia da podridão

Para espantar teu calor, não fique acanhado
Ligue o ventilador, que eu atiro a merda
Eu sou a sombra que oculta e a luz que cega

Sandman

Eu sou a sombra que oculta e a luz que cega
Tenho à mão a faca cega que sangra fácil
Com essa mão trêmula que deixa tácito
O antagonismo que em mim perpétua

Gosto dos venenos de sabor simples
Do sabor das sensações mais complexas
Das noites nas ruas movimentadas e estas
Outras tranquilas, repletas de sentidos ímpares

Por tortas ruas e escuros redutos por vezes rastejo
Por vezes as luzes e sons me trazem a alegria
É óbvio o paradoxo que nestes versos queria

Mas não me importa a obviedade com que aproveito
Essa descrição curta de musicalidade certa:
Sou a sombra que oculta e a luz que cega

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O cavalheirismo do cafajeste; a canalhice do homem sincero

  Você já parou pra pensar que o cafajeste é o verdadeiro cavalheiro? E aquele cara sincero que sempre te diz toda a verdade é um canalha? Provavelmente essa troca de valores não seja proposital, mas na prática é mais ou menos isso o que acontece mesmo. Explico: o cafajeste mente o quanto achar necessário para manter a aparência que quiser ou alcançar seus objetivos. Nesse processo, relacionando-se com mulheres, faz com que cada uma se sinta especial, única, independente de quantas mulheres tenha. A mulher sofre, fica insegura, porque sabe que o cara é cafajeste. Lá no fundo sabe. Mas ao mesmo tempo acredita que deve ser paranoia, porque ele é super atencioso, a faz sentir tão bem e não teria coragem de brincar com os sentimentos alheios. Mesmo quando ele deixa transparecer que não tem um relacionamento sério, e que há outras mulheres em sua vida, ele diz o que cada uma quer e precisa ouvir para que sinta que com ela vai ser diferente.
  O homem sincero? No máximo omite e se você lhe perguntar se ele omite algo, te responderá que sim. Caso tenha outras mulheres, não esconderá. Deixará claro o que quer ou não de você. Se você for especial, ele dirá que você é. Se você for alguém que ele gosta, mas não quer um relacionamento com mais comprometimento, te dirá também. E qual o problema? A mulher se relaciona com ele se quiser, não é? Ninguém a obriga a ficar com alguém. O problema é quando esse homem sincero é um cara legal, gente boa, alguém com quem você quer se relacionar, ou acaba se tornando esse alguém.
  O cafajeste, no egoísmo de ter o que quer, acaba por ser cuidadoso com as outras pessoas. Sua falsidade preserva as mulheres, numa proteção construída com mentiras e ilusões, mas ainda assim, proteção. Parece horrível; e é. Mas quando se descobre as mentiras do cafajeste, a culpa é toda dele. A mulher é a vítima, enganada, usada e tem todo o direito de mostrar a esse homem o desprezo que tem por essa pessoa sem escrúpulos que ele é; e esse homem, culpado dessas mentiras, pode até continuar tentando mentir mais e mais, mas será sempre o vilão e a mulher levada pelas mentiras (ou que se deixa levar) será sempre a vítima.
  A sinceridade é uma virtude, mas uma virtude cruel. Ela retira o peso da responsabilidade. O homem que usa da sinceridade deixa com a mulher a decisão de continuar ou não, seja no tipo de relacionamento que for. Se ela decide, a culpa pelas consequências é dela, risco conhecido e assumido. Percebe a canalhice? A mulher não pode acusá-lo de mentir ou enganar. Ela não é vítima. É conivente. Deu certo? Que bom pra você :) Não deu? Paciência :/ A sinceridade, na tentativa de precaver o próximo, protege na verdade esse homem sincero.
  O cavalheiro protege a mulher, a deixa confortável, auxilia, assume riscos para protegê-la. E isso é o que o cafajestismo faz. A sinceridade é cruel. Eu? Pensando em tudo o que escrevi, não sou cavalheiro não. Tento ser o melhor possível. E é isso.

sábado, 14 de maio de 2011

A vingança, algumas vezes, é um prato exótico

-Eu não consigo estabelecer um relacionamento com uma mulher que eu não consiga manter uma conversa no mínimo interessante.
Nisso, a Leni diz:
- Eu não acho importante conversar com a outra pessoa não. Na verdade acho que às vezes eu prefiro é que a pessoa nem converse comigo, mesmo!
Faz-se um breve silêncio e ela completa:
- Vai ver, é por causa do tipo dos caras que eu namorei.
Isso me lembra aquela frase: "Por favor! fica quietinho(a) pra eu gostar mais de você :)"
Enfim:
Eu e o Daniel não pudemos deixar de nos manifestar e dizer que havíamos pensado na mesma coisa. Alguns desses, nós também preferíamos que não falassem.
Eu olho pra Leni, e faço uma cara de indignado:
- Como assim não é importante conversar Leni?! Ou você conversa ou você faz sexo!
Eu estava sendo um pouco extremo, não penso que seja assim de verdade. Você também pode sair pra beber com a outra pessoa. E quem sabe, uma vez ou outra rola um programinha diferente.
Daniel, aos risos:
- Ta vendo Leni?! Por isso que ele é o Billy Transa! huahuahuahua!
- Billy Transa? Que história é essa?
- Ah, uma vez veio pra cá o Cana, amigo meu. Ele chamava o Billy, de Billy Transa. Porque...
Interrompo:
- Porque era uma época que eu estava ficando com algumas meninas, mas nada de absurdo, foi só uma serie de coincidências. Mas aos olhos do cara, que não me conhecia, deve ter parecido que eu era muito pegador, quando na verdade nem era tudo isso. Acho eu.
Daniel:
- Até hoje não me conformo da Pauli ter ficado com o Cana.
- Ah, mas ela tava magoadinha comigo. Foi à época que eu comecei a namorar e não fiquei mais com ela. Aí ela ficou chateada, carente...
- Billy! Não importa cara! Você pode tá se sentindo a pior pessoa do mundo, morrendo de raiva de seja lá quem for, mas você não fica com o Cana! Ela podia ter chegado em um monte de cara diferente e falado: “eu quero dá pra você. Vamos?”. E um monte de cara ía querer. Você simplesmente não fica com o Cana!
Será que era isso que eu gostava nela? A surpresa? Já que me surpreendeu algumas boas vezes. Vezes suficientes. Acho que não. Provavelmente isso era o que eu não gostava nela. Definitivamente a pauli não era muito feliz nas suas “surpresas”.
Leni:
- Uma vez eu também tava com raiva de um carinha e resolvi pegar alguém numa festa pra me sentir vingada. Pois é, não deu certo. Me arrependi um monte, porque o carinha que peguei era tão trash que ainda saí com a cara queimada huahuahuahua!

Um passo após outro

Os pés pareciam calçados em concreto. Deus! Como pesava cada passo! O corpo todo pesava. Os ombros, braços,até as pálpebras. Mas os pés! A caminhada era de dez minutos mais ou menos até o ônibus, e que tortura foi. E tudo conspirava contra a vontade de chegar ao destino. Tudo passava devagar: as nuvens, a grama, os muros, as pessoas, o tempo.
  A força de vontade foi grande. Aguentou toda uma tarde caminhando, fingindo, resolvendo o que era possível resolver. Mas ao final, cedeu a três goles. E que milagrosos goles! Ao final destes, só restava o peso da satisfação. Voltar para casa foi muito mais fácil.
  O dia foi terrível, um dos piores em bastante tempo. Mas jogado na poltrona, agradecendo por ainda estar com boa parte de sua sanidade mais ou menos intacta, um pensamento ainda não saía de sua cabeça: puta que o pariu! Como pesou cada passo!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Dádiva (ressaca moral)

 Uma qualidade? Pernicioso. Um rei Midas agraciado com o toque da degradação. Tudo o que toca torna-se obscuro, triste. Um desânimo de difícil compreensão, um mal estar que ao mesmo tempo é uma agradável companhia. Uma aventura ilógica.
 A pessoa tocada torna-se um pouco daquilo que ele mesmo é. Na verdade há uma troca. Fica um pouco com cada um, porém, a troca é justa? Vale à pena? Tudo vale à pena quando... Quando você não se importa com mais nada. Quando o número de mortos e feridos são apenas números, inexpressivos, para quem arrisca tudo.
 No sangue corre álcool, na saliva ebriedade. Assim fica fácil imaginar o que pode vir de um beijo. Normalmente: “nunca fiz isso antes”, “nunca fiquei assim”, “meu deus! O que aconteceu ontem?!” o suor só pode ser alucinógeno, não há explicação razoável.
 Pelo olhar espalha luxúria, vício e inconsequência. E tudo isso parece atraente. Quem em sã consciência se atrai por isso?! Porque não é um alguém qualquer. Sua mente deve ter potencial, estar à altura da loucura, merecê-la. Talvez aí mesmo esteja a resposta: quem em sã consciência. Deve haver um véu cobrindo de belo o que na realidade é oco e ao mesmo tempo denso como chumbo. Provavelmente da vaidade, um dos melhores pecados. Por si só, é bastante inofensivo, e ainda tem sua elegância, um ótimo pecado.
 E qual a pior parte? Há uma pior? A mais triste é que dói, por si mesmo e pelos outros, mesmo quando espera que o toque degradante torne-se o toque gelado. Mas realmente há dores necessárias, e algumas pessoas praticamente imploram por elas. E por haver bondade em seu coração distorcido, permite a dor. Algumas vezes da posse, outras da perda.
 Até quando? Quando vem Baco? Ou alguém que suporta o toque, e do caos possa fazer que surja renovação?