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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pelo amor de Deus

 Eu andava perdido, sem objetivos ou aspirações. Os dias passavam  cinzentos por mim. Certa vez, andando pelas ruas sem destino definido, encontrei um templo. Era muito bonito, algumas torres se erguiam dele, até muito alto. Era alvo com detalhes em ouro e prata. Observei-o por bastante tempo, então fui até suas portas frontais. Lá encontrava-se um velho sentado em um banco de madeira. O velho usava roupas largas, uma blusa com um capuz longo sobre sua cabeça. Falei-lhe:
 - Olá. Tudo Bom?
 Ele acenou com a cabeça. Continuei:
 - Nunca tinha reparado nesse templo
 Apenas silêncio.
 - É muito bonito - Disse eu ao velho.
 Ele pareceu se esforçar para esboçar um sorriso.
 - Talvez eu volte outro dia.
 Em resposta o velho acenou com a cabeça mais uma vez e eu saí dali meio sem jeito.

  Nos próximos dias fui ganhando a confiança do homem. Sempre passava por ali e o cumprimentava. Ele sempre respondia com o seu peculiar e sutil movimento de cabeça. Em um desses dias as portas do templo estavam abertas de par em par. Aproximei-me da entrada, o velho homem não me dirigiu o olhar. Passei pelas portas e cheguei a um alto e amplo salão, suntuosamente decorado. Havia arabescos, pinturas do que pareciam espécies de divindades; algumas claras e iluminadas, outras obscuras entre sombras. Havia também algumas estátuas dando continuidade aos detalhes contrastantes do restante da decoração. Do outro lado desse salão, vi uma porta , a única passagem existente além da entrada principal. Fui até essa porta e acima dela notei o que parecia ser uma inscrição em símbolos totalmente desconhecidos para mim.

 Do outro lado, um senhor, muito parecido com o da entrada, disse-me:
 - Este é o início do labirinto para se chegar ao altar de Deus.
 - Labirinto? Mas por que um labirinto? Deus não deveria esta ao alcance de todos?
 - Ele está; ao alcance de todos que estão preparados; ao alcance de todos que fizeram por merecer tal encontro.
 - Como eu saberei se estou preparado?
 - Se você chegar até Deus, você está preparado. Não pŕecisa se preocupar em procurar o caminho de volta, pois o labirinto foi construído de tal forma que todos os caminhos que não forem corretos retornam ao início.

 Começo minha caminhada pelo labirinto. Ele é um pouco estreito, ao ponto de duas pessoas nao poderem andar lado a lado, mas onde uma pode andar confortavelmente. As paredes  são de rocha maciça e clara, com algumas tochas presas às paredes. Após mais ou menos 15 minutos, chego à entrada novamente, com o velho a minha frente. Saio do templo e vou para minha casa.

 Nos dias que se seguem, continuo minha peregrinação pelo labirinto. Alguns dias eu avançava mais, outros menos. Após alguns meses, percebi que o labirinto também estava dividido em alguns níveis. Não sei ao certo quanto eu precisava andar antes de chegar às escadas que desciam ao nível seguinte, mas a impressão, era de que quanto mais eu avançava, menor era o caminho a percorrer e mais complexo os caminhos do labirinto. Ao início de cada novo nível, aguardava uma figura de idade avançada, mas que era difícil dizer ao certo quantos anos tinha. Parecia-me que tais pessoas eram sacerdotes de algum tipo, e que quanto mais experientes eram, mais dentro do templo se encontravam. Esses conversavam comigo a respeito dos mistérios, compartilhavam algumas de suas experiências e, pelos corredores do labirinto, também havia alguns iniciados que também estavam em sua busca pessoal. Cada um seguia seu próprio caminho, pois foi-me revelado que a cada um é destinado seu próprio Deus.

 Cerca de 3 anos se passaram desde a primeira vez que cheguei ao templo. Muitas coisas aconteceram nesse tempo, mas finalmente chguei à entrada do altar de Deus. Apesar de tudo estar muito cuidado e ser de grande beleza, a princípio não era nada além de mais uma sala com suas decorações e um altar de onde se levantava uma estátua. Caminho até a estátua e a toco. Nesse instante a estátua se iluminou, tudo ao meu redor tornou-se brilhante até cergar-me por alguns segundos. Tornei-me pleno de felicidade, paz, amor. Passaram-se alguns segundos durante toda essa experiência, mas eu senti como se tivessem se passado horas. Não houve uma conversa com palavras, foi uma conversa de sensações, sentidos, sentimentos, um entendimento de coisas que transcendem o próprio entender - ao menos foi o que senti. Afastei minha mão da estátua, tudo voltara à austeridade anterior. Eu estava extasiado. Dirigi-me à saída do templo com a certeza de que agora tudo na minha vida seria diferente, seria perfeito.

 No dia seguinte retornei ao templo. segui instintivamente o caminho que levava a Deus. Chegando lá, contemplei sua imagem, prolongando o momento, aproveitando os instantes que antecediam o momento em que eu entraria em comunhão com Ele. Então um leve brilho emanou da estátua, e uma voz ressou direto na minha cabeça, no meu corpo:
 - Volte! Você não deve procurar-me novamente. O que aconteceu ontem, aconteceu, e está feito, e é isso.
 - Por quê!? O que eu fiz? Por que me abandona?
 - Você possui outros deuses, outras crenças e agora deve voltar para seu amor por essas divindades.
 - Mas minha dedicação é a você. Há anos. Renuncio a tudo e qualquer coisa por ti.
 - Não acredito em você. Então agora parte. E você não voltará a me encontrar.
 Fico desconsolado e saio completamente atordoado, sem entender os planos de Deus.

 Passaram-se dois anos desde o meu último encontro com Deus. Continuei a andar por seus labirintos, sem nunca mais poder encontrá-lo, assim como Ele havia me dito. Acabei por me filiar a uma outra ordem, porque era o que havia para mim, minha vida precisava serguir e, alguns dias após minha graduação nessa ordem, andando pelos labirintos do antigo templo, inadvertidamente chego novamente ao altar de Deus. Não entendo bem o porquê, sei apenas que aconteceu e, quando toquei com meu pé o chão de sua câmara, a luz da estátua me tomou, fui em sua direçao e a toquei, e de repente o chão sumiu, bem como as paredes, a câmara toda e o próprio tempo. Dessa vez passaram-se horas, mas para mim foi como se tivesse passado toda uma vida. Novamente não houve palavras, e não haveria palavras suficientes para descrever tal "diálogo". Não foi como o primeiro encontro, foi absurdo, foi tudo o que poderia ser e o que não poderia também. Abro os olhos, estou no chão. A estátua ainda brilha, e sua voz irradia através de sua luz para dentro de mim:
 - Aconteceu o que teve de acontecer, e você agora deve partir.
 - Não quero partir! Quero sua paz sempre comigo!
 - De que maneira? Você tem outro Deus, com o qual você é comungado, para a vida toda.
 - Tu não crês em mim? Ainda não? Eu digo que renuncio a tudo, à toda essa vida perdida e vazia, na qual eu tento inutilmente, há anos, preencher o vazio que tu deixastes. E ainda assim, não é o suficiente? nunca será?
 - Não sei. Não está em meus planos. Faço com que as coisas sejam do modo como acho corretas. Digo o que acho que deve ser dito. E faço o que acho que devo fazer. Talvez não seja realmente o melhor. Mas é o que acho mais coreto. Eu sou um Deus de compaixão, eu sinto a culpa das almas sofridas e acolho suas dores. Você, apesar de sua dor, não precisa de mim. Adeus.

 Uma forte luz me faz fechar os olhos, quando os abro, a minha frente está a passagem do labirinto que dá para o salão de entrada do templo. Saio. Vou para minha casa pensando a respeito de tudo o que aconteceu por todo esse tempo. Não entendo os planos de Deus, mas aguardo sua luz novamente. Aguardo o dia em que sua luz brilhará para sempre em mim e quando minha intenções parecerão verdadeiras aos seus olhos. Continuo andando por seus labirintos, tentando encontrá-lo. Acho injustas suas dúvidas sobre mim, mas nada posso fazer além de continuar andando e procurando. Uma vez, um oráculo do templo me disse que apesar de meu futuro ser incerto, ele me via encontrando Deus e nele permanecendo. Me pergunto: estarei vivo até lá?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Recanto das Letras

http://www.recantodasletras.com.br/autores/sandman

terça-feira, 30 de agosto de 2011

(in)evitável?

 *Nota: não é meu costume explicar o que meu dedo aponta, no entanto considero necessário algum esclarecimento: a ausência de nomes no texto, se deve à impressão que tenho do quanto esse assunto é comum - o que não tira sua importância. Nas palavras de Clarice Lispector: "Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho... o de mais nada fazer."
 Me incomoda de certa maneira a narração no final de cada parte do conto, pois acho que tira um pouco da liberdade de quem lê. No entanto sinto que o texto pedia tal narração.
 Se você evitou alguma das etapas abaixo, ou não pôde evitar mas superou: parabéns! Se não: boa sorte :)



 - Por que você tá quieto?
 - Queria te falar uma coisa... Importante.
 - Então fale.
 - Já faz quatro meses que estamos juntos, nos vemos quase todos os dias, fazemos tantas coisas juntos... Fica comigo.
 - rs Mas eu fico com você.
 - Só comigo. Larga ele. Ele nem gosta de você. E você também não gosta. Vocês ficam aí se traindo e se enganando...
 - Claro que não. Ele não me trai, e nós nos gostamos sim.
 - Então por que você está esse tempo todo comigo?
 - Porque eu gosto de você também.
 - É... Você gosta de mim quando ele te faz falta. Na ausência dele é que se mostra o seu “gostar” de mim.
 - Não fala assim, eu amo você. De verdade.
 - Assim como você amou os outros antes de mim? Assim como você vai amar outros depois?! Eu cansei! Fica comigo ou vamos terminar isso agora.
 - Ai, você sabe que eu não vou terminar com meu namorado.
 O jovem com semblante pesado deixa a menina para trás. Ela o observa, com um pouco de lágrima nos olhos. Vai para a casa de seu namorado.

 Entra na casa, vai até a sala, seu namorado está assistindo televisão, um jogo de futebol. Ela chega por trás e o abraça, tenta beijar sua boca, mas alcança apenas o rosto. O namorado simula o ato de beijar, porém sem tirar os olhos do jogo e mal virando o rosto. Ela parece frustrada, senta-se no sofá ao lado da poltrona dele.
 - Tá tendo uma peça bem legal no teatro hoje. Vamo vê?
 - Ah não... To cansado, você sabe que eu fiquei a semana toda fora, trabalhando, cheguei agora e to querendo descansar.
 - Você já parou pra pensar quanto tempo faz que você só fica descansando?! Talvez você esteja cansado é de mim! É sempre a mesma coisa! Que saco!
 - Que saco você! Agora tenho que fazer tuas vontades, e justo hoje que ta tendo o jogo.
 Ela sobe as escadas da casa, vai para o quarto, chora. No escurecer que chega aos poucos, ela fica olhando para a janela, mas sem prestar atenção em nada específico, apenas pensa em porque as coisas complicam tanto pra ela, e adormece, sem se dar conta, ou, mais especificamente, se esforçando em não se dar conta, de que o medo que ela sente é o que realmente a tortura e o que a faz tomar decisões erradas, uma após outra.

 Acorda uma hora depois, sentindo seu peito apertado, pega o celular e manda uma mensagem para seu “amigo”: “Gostaria que você me entendesse. As coisas não são simples pra mim. Tanta coisa acontecendo... Você me faz muito bem. Amo muito você! Pra sempre! Espero que você ainda queira me ver. Mas se não quiser tudo bem. Eu vou entender. Bjos!
 Pouco depois seu celular dá um bip: “Você se esforça em complicar as coisas. Você deve sentir algum prazer em sofrer. E em me ver sofrer também. Mas acho que não consigo mais ficar sem você. Te espero amanha. Bj!".
 E em seu quarto, onde estudava para a prova de física do seguinte, ele sofre, porque espera força de alguém que possui muita fraqueza, e cria expectativas sobre o que não deveria, pois o esforço é apenas seu, da outra parte há apenas comodidade.

***

 O rapaz se levanta, veste a cueca e as calças.
 - Você já vai? Assim?
 - Tenho que ir. Você sabe.
 - vou sentir tanta saudade.
 - Não devia. Já te avisei que você não devia levar muito a sério essa história.
 A garota fica com um pouco de lágrima nos olhos.
 - Por que você me trata assim? Só queria ficar bem com você.
 - Eu também. E estou muito bem assim. Não vem arrumar encrenca não. Por que você não fica com aquele carinha que ta sempre atrás de você?
 - Eu não gosto dele pra isso.
 - Mas ele gosta de você. Você devia aproveitar a oportunidade de ficar com alguém que gosta de você de verdade, porque comigo não vai rolar nada além disso aqui não.
 - Às vezes parece que você só quer me magoar.
 - Não é verdade. To é pensando no que é melhor pra mim.
 Ele termina de se vestir, da um tchau, assim como quem se despede de alguém em uma entrevista de emprego, pega seu carro e vai para casa.

 Em casa, liga a televisão e senta-se no sofá. Está passando uma partida de futebol, do seu time, mas ele mal percebe isso, pensa na frustração que vive, lembra com saudade de sua ex-namorada, que o deixou porque descobriu que ele a traíra. Na verdade sua ausência em casa aumentou depois que começou a namorar novamente, agora com a garota que mora com ele. Ele tenta se convencer que isso é o melhor para eles, mas pensa com irritação na hora que ela vai chegar, e nos momentos que ela irá querer passar com ele, enquanto ele só quer ficar ali. De repente é envolto num abraço que vem por suas costas. Ele cumprimenta a namorada, ou não. Não tem muita certeza. Ela quer ir ao teatro com ele, ele só quer “paz”. Discutem e ela sobe as escadas em direção ao quarto. A porta bate.
 “Que saco! Vontade de ter ficado mais tempo fora mesmo. Eu podia ter arrumado outra cidade pra ficar mais um ou dois dias antes de voltar”
 E assim ele fica se torturando, forçando uma situação incômoda, porque por certo tempo, em certa época lutou para ficar com a mulher que tem hoje, mas na verdade era apenas pra tentar fugir de seu outro amor, que talvez pela impossibilidade de voltar a tê-lo, fica a pensar que seria a sua pílula da felicidade, no entanto não pode deixar escapar a vida “perfeita” que busca ter agora.

***

 A porta do quarto se abre, a garota está acordada há algum tempo. Seu namorado se senta ao seu lado.
 - Me desculpa. É que to cheio de problemas com o trabalho. Tá meio atrasado. E a viajem foi longa, cansativa...
 - Tudo bem. Deixe.
 - Einh... Quer sair ainda?
 - Não. Não vai dar tempo. Eu tinha que me arrumar ainda.
 - Vamo jantar em algum lugar. Esquecer essa discussão. Eu te amo e quero ficar com você.
 Ela se arruma. Eles vão a um restaurante. Lá, comem e se descontraem. O celular dela da um “bip”, ela olha: “To morrendo de saudads! Durma bem. Até amanhã.”
 - Quem é?
 - Ninguém. Propaganda só.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Autopiedade

 À tarde, o vento sopra cada vez mais forte. O céu escurece, como nos dias em que parece que a noite se apressa em chegar. É inverno e as árvores são distantes umas das outras. O pequeno pássaro aninha-se, solitário, tentando se proteger do frio. A noite cai em definitivo e o breu toma conta da paisagem. O pássaro nada sente, além do frio, do balançar dos galhos, da árvore, do frio. A tempestade aumenta, galhos se quebram e o pequeno ninho, do pequeno pássaro, voa com o vento. Desprevenido e confuso o pássaro tenta equilibra-se no ar, mas ele nada sente, além do vento revirando seu corpo e seu corpo batendo com violência em uma árvore, para em seguida bater com violência no chão. Seu corpo dói, suas penas estão encharcadas, seu corpo é pressionado pelo vento contra o vão ao pé da arvore. E então ele adormece, porque nada sente.

 Na manha seguinte, a geada no solo abraça o pequeno pássaro, seu corpo inerte. E os pequeninos cristais de gelo começam a se desmanchar quando os raios de sol começam a tocá-los. Passam-se horas e o pássaro desperta. Vagarosamente levanta, tenta mover as asas e pia, porque nada sente. Quando seu corpo recupera o calor e ele consegue voar, junta gravetos pela mata e constrói seu ninho, galho após galho e aninha-se ao entardecer. Adormece, sem nada sentir.

 O vento da tempestade arrastou o pássaro para muito longe de seu antigo ninho. Quando amanhece ele pia e se prepara para voar. Abre suas asas e lança vôo. Por entre as arvores de casca seca ele procura algum fruto. A fome aperta seu estômago e o impele a voar, incessantemente. E é o que ele faz, porque nada sente. Até que aparece à sua frente uma frondosa árvore, cheia de viço, cor. De seus galhos pendem frutos que brilham e os olhos do pequeno pássaro, que nada sente, até começam a brilhar. Ele pousa em um dos galhos e se farta daquele fruto enquanto o cinza das outras arvores enche-se de cinza, o ar da manhã enche-se de aroma e o pequeno coração do pássaro enche-se de calor. Quando se dá conta – pela primeira vez em toda sua existência ele se dá conta -, ele sente. E sente a alegria de seu corpo aquecido ao sol, do vento passando por suas penas, do seu próprio piar saindo de seu bico. E ele voa feliz e sentindo, até chegar ao seu recém construído ninho. Que agora é seu recém destruído ninho. Ele não entende. O ninho não existe mais, só os galhos que o compunham, espalhados pelo chão. O pequeno pássaro não entende, mas sente. Lembra-se da noite tempestuosa. Agora ele sente o frio, sente a dor em seu corpo, sente os inúmeros vôos em busca dos galhos certos para o novo ninho e, quando percebe as nuvens se fecharem, sente medo.

 Agora, ao pequeno pássaro só resta o desanimo e o passar das horas quando olha para onde deveria estar seu ninho. Ele se lembra da árvore, do fruto. Começa seu vôo até aquele maldito lugar, que lhe deu tanta felicidade, porque agora o que ele queria era a alegria daquela manha, ou o não-sentir de sua antiga vida. Ao aproximar-se do local percebe fogo na árvore frondosa e nas árvores secas ao redor dela. Pequenas gotas de chuva começam a cair, já é tarde. E cada pequenina gota o pássaro sente. Sente cada segundo da noite anterior e do gelo quase partindo suas pequenas garras pela manhã. E sente também todas as outras tempestades pelas quais passou, algumas piores e mais crueis. Então ele voa para o alto e, em seguida, mergulha em direção a árvore incandescente. E se enterra na brasa vermelha que se tornou o tronco da árvore. Ele arde, ele sente. Sente o calor, uma alegria triste, uma tristeza feliz. Deseja que o fogo não o abandone. Deseja que o fogo o segure firme em seus braços. O pequeno pássaro não pia, apenas aguarda parar de sentir, de tanto que sentiu. Porque em um dia ele sentiu o suficiente por sua vida inteira. Naquele dia sua vida inteira ele sentiu. Por ser apenas um pássaro, que acabara de começar a sentir, não entendia as coisas, apenas as sentia, e a última coisa que sentiu foi: “maldito o dia em que comecei a sentir”.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Uma questão de oportunidade (O inferno existe? - parte II)

 Ela estava linda, radiante, com seus cabelos ruivos balançando ao som da música. A forma que seu corpo se movia era alucinante. Marcos ficou praticamente a noite toda ao lado dela, tentando acompanhá-la. Até que ao final da festa, ela demonstrou que não ia rolar nada, então marcos ficou com a amiga da ruiva mesmo. Era ainda mais bonita, mas tinha namorado, o que fez marcos pensar que teria poucas chances. Algumas luzes acesas no salão de festas, luzes fracas, e uma música lenta tocando. Tudo perfeito. Ele a puxa para perto de si e a beija.
 - E seu namorado?
 - Terminamos há umas duas semanas mais ou menos.
 O tempo passa e ele se apaixona por ela, e ela por ele – pelo menos era o que ele achava. Passam-se 6 meses, e o relacionamento deles não evolui. Na realidade ela ainda ama o ex-namorado e ele não a deixa em paz, está sempre tentando permanecer próximo dela.
 Em uma tarde, Marcos e Cláudia estão andando por uma praça, de mãos dadas – o que era algo difícil de acontecer: estarem tão próximos e à vontade, sem se preocupar que outras pessoas pudessem vê-los juntos. Sentam-se em um banco e se beijam. Foi um dos melhores momentos que já teve com ela. À noite vão para a casa de Cláudia, deitam-se na cama e assistem a um filme. O filme acaba, a tv é desligada, as luzes já estão apagadas. Ele sobe sobre ela e a beija. De manha marcos exige uma posição definitiva de Cláudia. Ou ela realmente fica com ele ou eles não ficariam mais. No dia seguinte Cláudia reata o namoro com seu ex-namorado. Na realidade ela era fraca, covarde e insegura. Bastava que o cerco apertasse a sua volta para que ela pulasse fora.
 9 meses depois nasce a filha de Cláudia e Leonardo. Nem com os cabelos negros da mãe ou loiros do pai. Castanhos, escuros e lisos, coincidentemente muito parecidos com os de marcos.
 Dois anos mais tarde Marcos se casa com Rosa - amiga de infância - e têm um filho. Leonardo que durante esse tempo se tornou seu melhor amigo é o padrinho de casamento e também da criança. No começo foi difícil estar tão próximo do homem que lhe tirou a mulher que ele amara tanto, mas quanto mais o tempo passava, mais amigos ficavam, até se considerarem como verdadeiros irmãos. Marcos vai levando sua vida, abre em casa uma pequena assistência técnica para conserto de computadores. Mantém durante todo esse tempo uma amizade saudável com Cláudia. Mas em sua casa, depois de 5 anos as coisas não vão tão bem:
 - Nós precisamos de dinheiro! A prestação do carro está atrasada, e se não pagarmos o aluguel até amanhã você vai pagar a multa. Meu salário do hospital – onde rosa trabalhava como ajudante de serviços gerais – não vai dá pra pagar todas as contas!
 - Eu sei disso. Eu vou ter o dinheiro.
 - Onde você vai?
 - Beber!
 - Espera aí!
 Marcos sai. Vai até o bar na esquina da rua onde moravam e toma uma dose de cachaça acompanhada de uma garrafa de cerveja. Sente-se bem melhor. Seu celular toca:
 - Oi. Marcos?
 - Oi. Tudo bem Cláudia?
 - Tudo. Na verdade to com um problema no computador. Você tá muito ocupado pra vir aqui dá uma olhada?
 - Não, não. Já chego aí.
 Ele manda uma mensagem para o celular da esposa dizendo que vai à casa da amiga para ver o que há de errado com o computador.
 O computador está no quarto. Marcos procura o problema. Nada muito complicado, o serviço é rápido.
 - Onde está sua filha?
 - Foi te chamar na sua casa. Você não estava e ela pediu pra ficar lá brincando.
 Um pouco de silêncio. Ele senta na cama e olha pra baixo.
 - O que foi?
 - Nada não. Problemas em casa. Normal.
 - É assim pra todo mundo. Eu tenho que ficar dias às vezes sem ver o Leonardo. Faz 3 dias que ele saiu com o caminhão e só volta amanhã. Não é fácil.
 - É, bastante tempo pra um homem ficar longe de sua mulher – marcos mostra um sorriso malicioso.
 - Ai! Eu confio no meu marido. Sei que ele não me trairia.
 Marcos sabia que isso não era verdade. O amigo realmente amava muito a esposa, mas não passava sozinho todos os dias que estava longe de casa. A mulher vai em direção ao aparelho de som, próximo de marcos, e coloca um cd, que toca em um volume bem alto. Então Marcos se aproxima mais de Cláudia, ela se aproxima também. Quando percebem já estão nus e rolando pela cama, em êxtase. Até que a porta do quarto é bruscamente aberta. Marcos, que estava em cima da mulher é empurrado por ela, e salta para o lado da cama próximo à porta. Não sabe o que pensar ou o que dizer, e não tem tempo para isso: Leonardo acerta-lhe um chute no estômago. Marcos fica sem ar, abaixa a cabeça e recebe mais um chute, as paredes giram, a visão fica turva, ele apaga.
 - Se fosse qualquer outro, eu apenas deixaria ir embora. A culpada é a vagabunda! Ela me devia satisfações e respeito. Mas você! Eu confiava mais do que confio em mim mesmo!
 Marcos sente uma dor aguda e desperta totalmente. Fica apavorado com o que vê: seu pênis ensanguentado no chão. Seus gritos são sufocados pela fita ao redor de sua boca. Seus pés e mãos presos pelo mesmo tipo de fita adesiva e, pela fita dos braços, Marcos e Cláudia estão pendurados em ganchos chumbados à parede, em lados opostos, na área de serviço da casa. Ele queria ter a chance de explicar ao amigo o que aconteceu – Leonardo devia pensar que estava sendo traído durante todos aqueles anos, em que trabalhara tendo que viajar e ficar por muitas vezes vários dias longe de casa. Olhando para frente, vê Cláudia, e seu seio esquerdo sendo separado de seu corpo por uma faca ensanguentada. Em seguida ele vê o amigo ajoelhar-se:
 - Não se preocupem com a morte. Vocês provavelmente vão sobreviver a esses ferimentos, e vão lembrar pra sempre desse dia, e se arrependeram pelo resto de suas vidas! Eu posso até ir para o inferno, mas irei sabendo que vocês viverão com o castigo que merecem.
 Passam-se alguns minutos, marcos sente um constante latejar entre suas pernas, e um pouco de tontura. À sua frente, está Cláudia, com uma aparência exausta, com o rosto molhado de lágrimas e suor. A porta da área de serviço se abre. É Rosa. Um misto de desespero, vergonha, esperança, euforia, tomam conta de marcos. Rosa com um olhar perplexo observa a cena. Pega a faca do chão e vai na direção do marido, que agora se encontra apenas em desespero: “eu só quero a chance de me explicar! Não busco perdão. Eu mesmo enfio essa faca em meu peito! Só quero poder contar o que aconteceu! Sei o que as pessoas vão pensar, as conclusões que iram tirar, e não é verdade. Só quero que alguém saiba o que realmente aconteceu.” Mas as palavras ficam só em seu pensamento, pois a fita continua tapando sua boca. A faca passa em sua garganta, o sangue escorre, ele engasga, não consegue respirar, tudo fica escuro. E há tempo apenas para um último pensamento: “eu só queria poder explicar.”

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O inferno existe?

 Leonardo dirige o caminhão da empresa pela estrada tranquila. Avista no acostamento um jovem casal pedindo carona. Ele pára e aguarda, enquanto os dois correm em direção ao caminhão.
 - Muito obrigado por parar.
 - De nada. Subam. Agente não pára o caminhão pra qualquer um na estrada. É muito perigoso. Mas vocês não são bandidos, né? Pelo menos não tem cara rs.
 - Não. Não somos não rs.
 O caminho é longo. O caminhoneiro conta o quanto gosta do seu trabalho, que apesar de tudo paga um salário razoável. Conta com orgulho dos cursos de especialização que fez para manter-se atualizado no mercado de trabalho. Fala também do quanto é difícil ficar longe da mulher e da filha de 7 anos, algumas vezes por dias.
 - Casei muito cedo. Engravidei minha mulher quando agente tinha 17 anos.
 O rapaz responde:
 - Cedo mesmo. Mas você se dá bem com a família dela?
 - No começo era foda. O pai dela não queria que agente ficasse junto de jeito nenhum. Mas hoje nos damos super bem. Vamos pescar junto. Hoje ele é meu amigão.
 Conversam sobre mais algumas banalidades, ao som de alguma música estilo dance, poperô. Mas apesar de todas as dificuldades, ele fala sobre como é feliz, sobre como ama sua mulher e filha, e que especialmente hoje, está muito feliz porque vai conseguir chegar à sua casa um dia antes do que esperava.
 Depois de alguns quilômetros, os jovens descem, vão pegar uma estrada diferente. Agradecem e seguem seu caminho para uma próxima carona. Leonardo vai em frente, escutando sua música, olhando a paisagem, às vezes inóspita, às vezes com fábricas, às vezes com casas.
 Deixa o caminhão na empresa, e pega seu carro. Chega em casa perto das 19h:00min. Com seu controle remoto ergue o portão da garagem, entra com o carro, desce o portão e sai do carro. Abre a porta que dá para a cozinha, ouve uma música alta vindo do quarto. O tipo de música que ele gosta de ouvir, provavelmente sua mulher ouvindo algum cd seu. Leonardo passa pela cozinha e atravessa o pequeno corredor. Passando pelo banheiro, a próxima porta é a de sua filha. Ela não está. Ele pensa: "provavelmente está no quarto com a mãe ou na casa dos avós". A porta do lado oposto é a do seu quarto. Que sorriso de satisfação em seu rosto. Louco para agarrar sua mulher, que não via há 3 dias. Abre a porta do quarto. Ela está lá, deitada nua sobre a cama, os cabelos negros soltos sobre o travesseiro, seu seio direito à mostra, sua perna direita, torneada, pra fora do lençol, e o melhor amigo de Leonardo, nu sobre ela.
 Ela empurra o homem para longe e fica ajoelhada sobre a cama cobrindo-se com o lençol. O homem salta para o lado direito da cama, próximo à porta e fica encostado ao criado-mudo com um olhar de assombro nos olhos. Recebe um chute no estômago e se abaixa de dor, então mais um chute, dessa vez na cabeça, que bate contra a parede. Cai desacordado no chão. A mulher faz menção de se mover na direção do marido, que ergue as costas do punho fechado na direção do queixo da mulher, que tomba também desacordada sobre a cama.
 Leonardo puxa sua caixa de ferramentas que está sob a cama, retira dois grandes rolos de fita adesiva e prende os braços e pernas da mulher e do ex-amigo. Arrasta-os para fora do quarto, passa pelo corredor, pela cozinha, e chega à área de serviço, que fica do lado oposto à garagem. Retira as cordas - usadas para pendurar as roupas - que atravessam o cômodo, dos ganchos chumbados às paredes, e pendura os dois corpos inertes em cada um dos ganchos, pelas fitas que prendem seus braços.
 Marcos, o amigo, começa a despertar, um pouco zonzo, visão embaçada, ouve uma voz familiar dizendo:
 - Se fosse qualquer outro, eu apenas deixaria ir embora. A culpada é a vagabunda! Ela me devia satisfações e respeito. Mas você! Eu confiava mais do que confio em mim mesmo!
 Marcos sente uma dor aguda e um pouco de sangue jorra. Ele agora desperta totalmente e solta gritos abafados pela fita em volta de sua boca. Seu rosto se desfigura retorcendo mais de pavor do que dor. Seu pênis está à sua frente, no chão ensanguentado.
 Leonardo vai agora na direção da mulher que está do outro lado. Pega a faca ensanguentada e passa sob o seio farto da esposa, que acorda e se debate. Mais uma passada, gritos sufocados pela fita adesiva, o suor instantaneamente brota na testa da mulher. Uma terceira passada, e o seio esquerdo está no chão.
 Em meio às lágrimas:
 - Não se preocupem com a morte. Vocês provavelmente vão sobreviver a esses ferimentos, e vão lembrar pra sempre desse dia, e se arrependeram pelo resto de suas vidas! Eu posso até ir para o inferno, mas irei sabendo que vocês viverão com o castigo que merecem.
 Com a mesma faca ele faz um corte em seu pulso esquerdo e um no direito. O sangue vaza, a visão começa a embaçar, pontos pretos, e ele cai.
 Leonardo começa a abrir os olhos, uma luz muito clara o impede de ver direito. Pensa: “foi tudo um sonho?” Olha para os lados: macas, cortinas verdes, pessoas andando apressadas em trajes brancos. Está em um hospital. Ao seu lado um policial.
 - O que eu estou fazendo aqui?
 - Seu doente! Se recuperando para apodrecer na cadeia.
 - Mas eu deveria estar morto.
 - Concordo. Mas não está.
 - O que aconteceu?
  - O que concluímos, foi que Rosa, a mulher de marcos, foi ver porque o marido estava demorando tanto em sua casa. Ele tinha ido até lá sob o pretexto de arrumar alguma coisa no computador de Cláudia. Procurou pela casa toda até que os encontrou. Ela entendeu tudo na hora, talvez até o porquê da filha de sua amiga ter cabelos e olhos tão parecidos com o de seu próprio marido. Viu a faca no chão, pegou-a, enquanto o marido se debatia cortou-lhe o pescoço, em seguida foi a vez da mulher. Largou a faca e foi até sua casa que ficava ao lado, pegou a arma do marido, foi ao quarto do filho e deu um tiro em sua cabeça, então um na cabeça da filha de 7 anos do casal de amigos que estava dormindo ali, e um tiro na própria cabeça. Os vizinhos ouviram os tiros e chamaram a polícia. Quando chegamos à sua casa, seus sinais vitais estavam fracos, mas era o único que permanecera vivo. E agora você está aqui. O corte no seu pulso direito foi bem profundo e acabou ferindo bastante os tendões da sua mão. Provavelmente você não possa dirigir um caminhão outra vez. Mas para onde você vai dificilmente você precisará dirigir.
 Leonardo pensa: “Sim. Com certeza o inferno existe :/”

sábado, 14 de maio de 2011

Um passo após outro

Os pés pareciam calçados em concreto. Deus! Como pesava cada passo! O corpo todo pesava. Os ombros, braços,até as pálpebras. Mas os pés! A caminhada era de dez minutos mais ou menos até o ônibus, e que tortura foi. E tudo conspirava contra a vontade de chegar ao destino. Tudo passava devagar: as nuvens, a grama, os muros, as pessoas, o tempo.
  A força de vontade foi grande. Aguentou toda uma tarde caminhando, fingindo, resolvendo o que era possível resolver. Mas ao final, cedeu a três goles. E que milagrosos goles! Ao final destes, só restava o peso da satisfação. Voltar para casa foi muito mais fácil.
  O dia foi terrível, um dos piores em bastante tempo. Mas jogado na poltrona, agradecendo por ainda estar com boa parte de sua sanidade mais ou menos intacta, um pensamento ainda não saía de sua cabeça: puta que o pariu! Como pesou cada passo!