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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Meu Primeiro Beijo Lésbico-Hétero



O garçom passa e deixa uma uma garrafa de cerveja na mesa. Pego um copo e me sirvo. Alguns amigos se servem também e ficamos jogando conversa fora. Pego um copo de ponche. Deve ser ponche. Parece um suco de frutas, não sinto o gosto de álcool. É bom para matar a sede nessa noite tão quente.

 Nós vamos para a pista, dançar, ou no meu caso fazer de conta que danço. A maioria é gay. Um dos caras vem falar comigo:

 - Nossa, você é muito lindo!
 - Obrigado, bondade sua.
 Continuo ali. com um copo de cerveja em uma mão e, agora, um de Whisky na outra. Começo a conversar com uma menina, sobre coisas triviais. Seu nome é Mirian, a conheci há 2 dias. A pista esvazia um pouco no meio e ficamos nós dois ali. Eu a beijo. Foi bem legal. Ela vai ao banheiro, eu aproveito para ir também. No caminho uma garota me para:

 - Oi, tudo bem?
 - Tudo bem. Você é conhecida do pessoal aqui?
 - Conheço o dono da casa.
 - Qual seu nome?
 - Lilian, e o seu?
 - Billy, prazer.
  É uma mulher bem bonita. com um vestido justo, curto e prateado.
 - Posso te fazer uma pergunta?
 - Pergunte.
 - Você é gay?
 - Hahaha não, por que?
 - Ah, é porque você sabe se vestir bem, é bonito e tem um monte de gay aqui...
 - Mas não sou, não.

  Me aproximo mais, a seguro pela cintura e a puxo para perto de mim, suavemente.

 - Ei, você não estava ficando com uma menina?
 - Acho que sim.
 - E agora você quer ficar comigo?
 - Isso.
 - Mas não nos conhecemos direito ainda.
 - Então vamos resolver isso. Mas antes vou ao banheiro.

 No caminho encontro uma amiga.

 - Oi Carol. Fiquei com a Mirian.
 - Legal.
 - Mas chegou uma outra menina em mim. Acha que pode rolar algum mal entendido?
 - Não. Nada a ver. Ela gosta de meninas. Só fica com algum homem se for muito com a cara dele.
 - Ah, então beleza.

 Vou ao banheiro. Volto. Encontro a Lilian no jardim da casa. Nos sentamos em umas cadeiras que estavam por ali e ficamos conversando um tempo, nos conhecendo. Nos beijamos. Conversamos  mais um pouco. Tiramos uma foto juntos, com o meu celular.

 - Você não quer dar uma volta? Tomar um ar?

 Respondo:

 - Pode ser.

 Nos levantamos e saímos pelas ruas. Ela me conta de um relacionamento conturbado que estava tendo. Um cara a tinha trocado, nas palavras dela, por uma "velha, gorda e feia".

 - Mas não escolhemos esse tipo de coisa. Às vezes só gostamos, sem um motivo que faça sentido.
 - Você me acha bonita?
 - Muito bonita.

 De repente, ela acelera o passo e começa a gritar, no meio da rua:

 - Seu desgraçado! Filho da puta! Fica aí com essa gorda feia!

 Ela continua seu discurso, eloquentemente, com muito fôlego. Eu a seguro. A impeço de atravessar a rua e vou fazendo com que continue para o caminho que íamos anteriormente.

 Depois de um tempo ela se acalma. Nos sentamos nos degraus em frente à faixada de uma loja. Nos beijamos mais.

 - Que raiva desse cara! Eu estou aqui com você, o cara que vi na festa e queria ficar. Era para eu estar feliz aqui. E acabo vendo ele e me deixa desse jeito! Ah, quer saber? eu deveria é aproveitar que estou aqui com você.
 - Então vamos. Conhece algum lugar por aqui?
 - Essa cidade é minúscula. Tem só dois hoteis aqui, mas não sei se vai ter vagas, por causa do festival que está tendo.

Fomos aos dois hoteis. Os dois disseram estar lotados.

 - Olha, eu estou na casa de uma amiga. Não é longe daqui. Acho que não tem muito problema se formos para lá.
 - Onde fica?
 - Eu sei que primeiro temos que chegar na praça da cidade. Para que lado fica a praça?

 Ela me olha com cara de descrédito:

 - Você não sabe chegar em casa?!
 - Sei. Mas tenho que ir por passos (riso).
 - Tá. Vamos...

 Chegamos à praça.

 - E agora?
 - Agora precisamos achar a agência bancária.
 - Sério?! Você sabe mesmo aonde está indo?
 - É claro que sei. (Em teoria pelo menos. Na verdade eu estava torcendo para que eu estivesse certo).

 - Está aqui o banco.
 - É só andarmos duas ou três quadras em frente e chegamos. (talvez) .
 - Duas ou três quadras? Você está perdido...
 - Não estou, não. Vamos. Estamos quase chegando. (eu espero).

 Passadas as três quadras chegamos à rua certa. Que alívio... Ainda bem. Mas os problemas ainda não estão resolvidos. Ao chegarmos à casa, o portão está trancado com cadeado, e há uma cerca elétrica por cima dele. Ela cruza os braços e fica me olhando com uma cara que não sei definir bem, mas parece um pouco de desânimo e raiva.

 - Vou tentar pular.

 Ela não emite qualquer tipo de expressão. Pego um graveto do chão e atiro contra os fios da cerca elétrica: nada acontece. Subo no muro. Toco de leve e bem rápido na cerca, com a mão: nada acontece. Encosto mais algumas vezes para ter certeza. Parece desligada. Pulo por ela.

 - Vou procurar as chaves. Já volto.
 - Não vá me deixar aqui!

 Estou começando a ficar razoavelmente incomodado em ficar recebendo ordens. Procuro as chaves na parte de baixo do sobrado e não as encontro. Estou bem bêbado, acho que isso dificulta um pouco as coisas. Subo as escadas. Tento fazer silêncio para não acordar a mãe da Carol, que também estava ali, passando alguns dias. Entro no quarto que dormi nesses dois dias aqui. Procuro as chaves e novamente não encontro nada. Olho para o coxão no chão. Que cansaço. Que vontade de deitar. Será que a Lilian ficaria muito braba comigo? Afasto rapidamente a ideia da cabeça e volto para fora da casa. Lá, encontro mais dois amigos que também estavam dormindo na casa. Também não tinham as chaves.

 - Não encontrei as chaves.
 - Como assim? E agora?!
 - Você se importa muito em pular?

 Não me pareceu uma pergunta muito inteligente, mas não dizem que perguntar não ofende? Acho que esse ditado precisa ser revisto.

 - Você está brincando? É claro que eu não vou pular! vamos! Se vira! Você é um homem! Faça alguma coisa!

 Mais ordens. E de forma nada delicada. Isso está começando a, realmente, não ficar divertido.

 - Marisa... Marisa...

 Ela sai do quarto.

 - Oi. O que aconteceu?
 - Voltei antes e preciso das chaves para abrir o portão.
 - Como você entrou?
 - Pulando.
 - E a cerca?
 - Desligada.
 - Tem mais gente ali para entrar?
 - Sim.

 Ela me entrega as chaves. Vou ao portão e o destranco. Gean fala:

 - Billy, como você entrou?
 - Pulando.
 - Eu fui pular, encostei o rosto no fio e fui jogado para trás. Parece que levei um soco!
 - Sei lá... Vai ver alguém da casa da frente ligou agora. Mas por que você quis pular se eu já estava procurando a chave aqui?
 - Ah, de bêbado...

 Lilian entra, e caminha comigo em direção à casa.

 - Tomara que pelo menos faça valer a pena...

 Agora senti em mim um misto de raiva e vontade de rir. Achei algo um pouco cruel para se dizer. Vamos para o quarto.

Tiro sua roupa, a beijo. Vou descendo com minha língua por seu corpo até acabar em suas pernas.

Ela me diz depois de alguns minutos:
 - Nossa! Você faz isso muito bem?
 - Hahaha!  Sério? Acha, mesmo?
 - Eu não falaria se não achasse.

Continuamos a diversão. Depois de um tempo deita do meu lado. Parece um pouco triste e começa a falar do seu findo relacionamento. Escorrem algumas lágrimas de seu rosto. Nisso, minha amiga bate na porta, precisa pegar algumas coisas ali. Abro a porta e Lilian se esconde sob os lençois para esconder as lágrimas. A Carol sai do quarto. Olha para Lilian, seco suas lágrimas e a puxo montada para cima de mim. Ela logo esquece seus problemas novamente

 Acho que valeu a pena para ela. Parece bem. O dia começa a amanhecer.

 - Preciso ir. Vou pegar um taxi.
 - Vou com você até acharmos algum.

 Levanto. não sei onde está minha camisa e meus sapatos. Visto apenas a calça. No caminho, alguns caras mexem com a gente na rua. Apenas ignoramos. Nos despedimos e ela entra no carro. Volto para a casa. Deito e durmo.

 Acordei por volta das 13 horas. Fui almoçar em um restaurante próximo. O dia passou calmo. À noite o pessoal decide se encontrar para beber. Saímos pelas ruas, bebendo vodca com refrigerante (tubão), tocando violão e cantando. Em certo ponto vou conversar com a Mirian. Ela me diz:

 - Você sumiu ontem. Não te vi mais.
 - É... fui dar uma volta. Posso  te beijar?
 - Olha, não me leve a mal, mas é que eu nem costumo ficar com meninos e hoje estou tranquila.
 - Ah, tudo bem. A Carol tinha me falado que você preferia meninas.
 - Mas foi super bom ontem. As vezes que beijei meninos não foram boas. Sempre foi áspero, estranho, não curti. E com você foi diferente. Foi muito bom... como se eu estivesse beijando uma menina.

 Fiquei na dúvida, mas isso parecia ser um elogio... eu acho... Ela continua:

 - Nossa! Acho que esse foi meu primeiro beijo lésbico Hétero.

 Ok... A noite continua.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Mais (Menos) Um Dia

 Olho para cima: as nuvens estão pesadas. Estão literalmente pesadas. Eu as sinto. Sinto pesarem em meus ombros, nos meus olhos, pressionando minhas costas, forçando minhas pernas.

 Algumas vezes passa por mim um pouco de ar gelado. É estranho. Esse ar amortece levemente minhas pantorrilhas, aquece um pouco minhas costas abaixo das escápulas (não sei porquê) e alfineta suavemente meu abdômen.


  1.  Minha visão está turva. Mal vejo as pessoas. Vejo vultos. Ouço suas vozes - não que as compreenda nitidamente mas percebo o burburinho, percebo que passam próximas a mim. Será que as pessoas me vêm? Espero que não. Sinto-me uma pedra: cinza, apática, dura. Rolando com várias toneladas morro abaixo, sem nada lhe podendo apresentar resistência.

 As vozes são cansativas: dão-me sono, assim como seus rostos – que eu nem consigo focalizar, vejo apenas esses borrões que poderiam muito bem ser apenas a luz passando pela névoa. O que são? Parece que percebo tudo por filtros, que tudo o que percebo não passa diretamente por meus sentidos, que essa percepção não é imediata: parece que enxergo através de um vidro, ouço sons que passam por telas de feltro e sinto o toque não das coisas em si, mas sim de uma grossa camada de poeira, impregnada. Insonso.

 Sinto algo desligado em mim. Ou que estou ligado no automático. Ou ambos. Meus olhos atravessam as coisas, minha fala sai inconscientemente, respondo genericamente, sem processamento de informação.

 O sorriso é a pior parte. Por faltar-me a arte da dissimulação o sorriso é nitidamente plástico, frio, como se fosse uma impressora matricial a sorrir para uma cadeira alaranjada.

 Fazia tempo que isso não acontecia tão forte. Acho que os golpes vão se acumulando até que os hematomas começam a abrir e vazar pus. Preciso de alívio. Preciso sentir meu estômago aquecer, meu olhos umedecerem, meus ombros relaxarem, e deixar de enxergar ouvir e tocar qualquer coisa. Porque nada importa.

 Caminhando é diferente: é muito pior. Sinto-me preso, oprimido. Nunca tive claustrofobia mas imagino que a sensação se assemelhe a que sinto agora.

 Na primeira dose parece que minha mente começa a se adequar a realidade - descer a seu nível – e assim as coisas parecem mais reconhecíveis, verossímeis, familiares. Mas minha respiração continua um pouco ofegante. Na segunda dose a respiração começa a acalmar também.

 Atravesso uma praça durante a madrugada. Estou conversando, distraído, desligado. Nunca faço isso. Grande burrice. Dois caras me abordam. Apareceram de repente, nem percebi que se aproximavam (muita burrice!). Estão com as mãos nos bolsos de suas jaquetas, fazendo menção de estarem armados. Penso nas minhas possibilidades.

 - Passa o celular e o dinheiro.
 - Cara, tô sem celular.

 Ele segura na alça da minha mochila e a solto em sua mão. Ela estava pesada, com um livro grande e dois litros de vodka. Aproveito esse momento para correr até o outro lado da rua. Pego o celular para que vejam que estou ligando para a polícia. Na verdade não estou. Não estou conseguindo desbloquear o celular. Vou caminhando para trás olhando na direção dos assaltantes, tentando ver se sacam alguma arma.

 Alguns metros depois consigo ligar para a polícia. Falta 20 minutos para o próximo ônibus. Pegarei o ônibus até o terminal e de lá pegarei um táxi até em casa. Chegando ao terminal não há um único táxi. Ligo para a rádio-táxi. A atendente me informa que a espera é de 10 à 15 minutos. Provavelmente demorará mais de 30 minutos. Vou caminhando até em casa: 40 minutos de caminhada. Deito atravessado na cama, do jeito que cheguei e desmaio.

 Pela manhã me sinto estranho, apático. Ficarei sozinho em casa esse fim de semana. Mando uma mensagem pelo telefone celular:

 - Oi. Como está?
 - Bem e você?
 - Bem também. E aí.. não está a fim de vir aqui em casa hoje à noite
 - Não.

 É... não estão sendo meus melhores dias.

 Sinto-me sereno. Estou sem minhas garrafas de vodka. Acho que já posso morrer.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Drunken Bike

 Era uma manhã quente e nenhuma nuvem à vista. Resolvemos dar uma volta, ir para algum lugar diferente. Eu e Leli fomos com o William no carro dele para uma cidade próxima, munidos de vodka, conhaque, refrigerante, suco, gelo e narguile. Era uma cidade pequena, nos afastamos do centro e acabamos em uma estrada de terra. Paramos em um local com gramado, alguns arbustros, poucas árvores; o outro lado da rua margeado por barrancos de terra vermelha.

 Ficamos embaixo de uma das árvores preparando as bebidas e o narguile. Conversamos, bebemos, fumamos, bebemos, tocamos violão e cantamos, bebemos. Depois de certo tempo nessa rotina, juntou-se a nós uma garota, conhecida do william: andressa - que já parecia meio alta quando chegou lá.

 Com Andressa veio outro cara que não me lembro o nome. Ele estava de bicleta e foi conversar com a Leli. Ele parecia estar dando em cima dela, mas ela como normalmente fazia, disse depois não ter percebido nada. Ela já tinha bebido bastante e, teve a brilhante idéia de andar com a bicleta de seu novo amigo. Ele pareceu meio preocupado, mas deixou. Ela foi em direção aos barrancos do outro lado da rua. Ela queria subir por eles com a bicicleta, a qualquer custo. Os barrancos eram razoavelmente íngrimes, 2 a 3 metros de altura mais ou menos, e a terra vermelha deslizava com muita facilidade.

 Na primeira tentativa o pneu dianteiro afundou em um pouco de terra que estava mais fofa, fazendo o guidom girar para a direita, desequilibrando Leli, que teve sua queda amortecida pelo seu rosto contra o chão. Ela levantou cambaleante, rosto sujo e arranhado e um pouco de sangue no lábio. O cara com ela a ajudou a levantar-se e tentou - sem sucesso - convencê-la a deixar a bicicleta.

 As tentativas continuaram; os tombos também. Nós gritávamos, entre um trago e outro, para que ela parasse. Ela não parava, e seu estado estava cada vez pior. Quando já parecia quase esgotada subiu mais vez na bicicleta, tomou impulso, e correu, subiu quase tudo (quase); quando a roda da frente ultrapassou os 2 metros à sua frente, a bicleta girou para a esquerda e ambas (bicicleta e leli) caíram rolando.

 Leli, deitada de bruços, levantou a cabeça em meio ao pó e sofregamente começou a se arrastar em direção à estrada de chão. Ela estava coberta de vermelho, a  calça com vários rasgos, na camiseta também havia um furo ou outro; seus cotovelos, joelhos e ombros estavam todos ralados e com sangue. Ela conseguiu se levantar (ou o mais próximo disso) e,  com a altivez que talvez tivesse um zumbi depois de pasar por umas boas, ela parou, aguardando um carro que se aproximava. Ela começou a acenar com o braço menos machucado para que o carro parasse para levá-la a algum médico - william e eu não estávamos em condições de dirigir. O carro diminuiu a velocidade, mas não o suficiente, acertou-lhe em cheio, mas não muito forte. Após cair no chão, Leli ajoelhou-se, com uma cara que misturava expressões de indignação, surpresa, riso, raiva e mais alguma coisa que não pude identificar. Ela olhou ao redor, olhou para nós e disse com essa mistura de expressões em meio ao que pareciam ser risos:
 - Ele me atropelou! Vocês viram?! Eu não acrredito! Olha o meu estado! E ele me atropelou!

 O carro, com o parachoque na altura mais ou menos da testa de Leli, acelerou um pouco encostando nela. Mas ela consegiu afastar-se um pouco a tempo de avitar o choque em sua cabeça, acertando-lhe apenas o ombro, de leve. O motorista estava com uma cara de quem espera o sinal de transito abrir, parecia um pouco entediado, um esboço de sorriso no canto do rosto, ou apenas tédio. Ela gritou ao motorista:
 - Tá bom! Tá bom! Já entendi! Já tô saindo.
 E arrastou-se até onde estávamos.
 O motorista olhou para o lado, ela saiu da pista, ele balançou a cabeça - o aparente sorriso no canto da boca pareceu evidenciar-se um pouco - e seguiu viagem.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Recanto das Letras

http://www.recantodasletras.com.br/autores/sandman

Artista da Sede

 Eu gostava muito de Arte, pricipalmente pinturas. Gostava de apreciar sua forma, estrutura, cor, conceito... Eu andava por alguns museus e vernisages passando um bom tempo com essas obras enquanto bebia, comia e... bebia.

 Certa vez me falaram de um quadro novo em nosso meio. Me disseram que era muito interessante, que tinha qualidade. Eu contei que ja tinha passado rapidamente por essa pintura e não tinha gostado muito, a princípio. Mas me propus a voltar a olhá-la com mais atenção.

 Fiquei ali, em sua frente, por alguns minutos. Tentava buscar seu sentido, mas tudo nela parecia tentar causar um pouco de aversão; não chegava a parecer agressiva, mas era quase antipática; com certeza queria repulsar quem parava à sua frente. Saí daquela sala um pouco frustado. Não sei explicar direito, mas não me sentia muito bem.

 No entanto, em minhas idas e vindas de obra em obra, passava por aquela pintura, que apesar de tudo, chamava certa atenção. Em um desses dias, quando o salão estava sendo fechado, dei uma última olhada para o lado de dentro, pelo vidro da porta, e vi a pintura brilhar. Não parecia reflexo da luz, parecia que... ela simplesmente brilhou... em minha direção. No dia seguinte lá estava eu: olhando, procurando não sei bem o quê. De repente, uma listra de tinta no canto inferior esquerdo da pintura intensificou sua cor e voltou ao normal. Nesse instante, pareceu-me que um véu foi retirado da frente do quadro e várias linhas e cores passaram a conversar entre si. Comecei a entender, e a obra começou a conversar comigo. Percebi de onde vinha a impressão de repulsão (proposital), as linhas sobrespostas em meio às sombras, em um limite entre tristeza, desepero e raiva. E eu dizia "Te entendo completamente!",  e a obra me dizia "Nossa! Você me entende completamente". E eu vi, depois de certo tempo, que não era apenas tristeza; também havia movimento e cores mais alegres disfarçadas entre pseudo-olhos esfumaçados. Ora as cores pareciam avermelhadas, ora douradas, ora alaranjadas e até chegavam a tons terrosos. Os dias foram passando e a cada conversa eu aprendia mais. Percebi até a delicadeza na fina camada de gesso branco espalhado em determinadas regiões. Por último, percebi um pedaço estreito de renda cobrindo a lateral direita da tela. Era difícil perceber em meio àquela composição toda, mas depois de tanto tempo eu via sensualidade ali e, reparando bem, via-se que acabava por recobrir o quadro todo.

 No dia seguinte à apreensão do quadro, senti que a pintura me chamava, baixinho. Retirei a tela, a enrolei e levei comigo. Saí pela noite com ela embaixo do braço. Encontrei um pessoal conhecido com quem fiquei bebendo vinho por algumas horas. A pintura estava ali ao lado, aberta. Conversávamos, conversávamos com ela também. Quando acabou nosso dinheiro, cochilei encostado à uma parede, com a tela entre a parede e eu. Após umas 2 horas começou a amanhecer, levantei e estendi minha mão em direçao à obra. Ela pareceu se afastar e disse "Não... isso tudo foi um engano", eu disse "Como engano? Eu não te entendo completamente? Nós não conversamos e desvendamos caminhos toruosos da Arte?" e a pintura disse "Não. Você na realidade só acha que entende. E o que você achou que eu disse, na verdade você também entendeu errado. Eu vou com ele", e apontou. Eu vi um cara que era uma mistura de hippie, morador de rua, louco e um quê de filósofo (o "quê" de filósofo devia ser o cabelo ou algo assim), que passou a noite bebendo e conversando conosco. Não parecia ser má pessoa, não mesmo, mas estava bem longe de ser um genial expoente da Arte.
 Fiquei razoavelmente chocado com a inesperada situação. Virei-me e fui para casa. Passei o mês todo tentando entender o que aconteceu, qual era o problema, mas não via resposta. Por fim, já esgotado de tanto andar em círculos, mudei o veio artístico: passei um tempo com a música. Foram alguns dias divertidos, novos, empolgantes. Tudo bem que a música era um meio bem mais democrático e concorrido, e a sua apreciação era de certa forma menos íntima e exclusiva,  mas era "o que tinha pra hoje".

 Então, encontro novamente a tela de antes. Encostada em uma árvore, ao lado da "mistura de hippie, morador de rua, louco e um quê de filósofo". Ela me diz "Eu sabia que você não sabia nada desta Arte. Ainda bem que eu não caí na sua. Agora eu estaria jogada em algum canto escuro e úmido enquanto você ficaria por aí às voltas com a música".

 Pasmo novamente. Vou embora. Quem vai entender a Arte? Quem sabe um dia a Arte me entenda.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Julgado

 Abro meus olhos devagar, com um pouco de dificuldade. A luz do sol me ofusca, aos poucos vou percebendo a cor purpúrea do céu. Nesse mesmo instante sinto uma dor do lado esquerdo da minha cabeça, que está no chão, dor que vai se irradiando levemente. O calor do sol pela manhã é agradável. Levanto-me um pouco desequilibrado, olho ao redor: estou no centro da cidade, mais especificamente encostado na parede externa de uma biblioteca. Ainda há pouco movimento de pessoas nas ruas, passando por mim sem me notar. Deve ser bem cedo, vejo as horas e o dia da semana no celular: 08:10hs,  domingo, o que também justifica o pouco trânsito de pessoas.
 Sinto sede, começo a caminhar, seria bom tomar uma cerveja agora. Vou ao banco retirar algum dinheiro. Entro, e vou em direção ao caixa eletrônico, porém, antes de chegar a ele, sou abordado por um homem. Ele é alto, usa roupa social e tem um ar variando entre o sério e severo.
 - Billy Gandolfi ?
 - Sim?
 - Você foi convocado a depor hoje à tarde. Compareça neste endereço no horário marcado. Compareça! E não se atrase!
 O homem se vira e sai. Olho o cartão, o endereço não é muito longe de onde estou: uns 30 minutos de caminhada. Não sei do que se trata, então começo a tentar lembrar o que aconteceu na noite anterior. Lembro que fui a uma festa com alguns amigos, no apartamento de alguém que eu não conhecia. Depois de algumas horas resolvemos sair comprar mais bebida e ficamos andando e bebendo pela rua. Depois disso, eu acordo nessa manha de domingo.
 Saio do banco e continuo meu caminho para o bar. Nos semáforos há alguns malabaristas trabalhando, em meio às buzinas de alguns carros que disputam seu lugar nas ruas com alguns cavalos e seus respectivos montadores. Pego um jornal pelo caminho, distribuído gratuitamente. A matéria principal fala como alguns estudos científicos associam o aumento do efeito estufa ao contínuo aumento do uso de cavalos no trânsito, além do aumento de acidentes, principalmente nas estradas, pelo depósito de dejetos animais em grande volume em alguns pontos, que acabam por tornar as pistas escorregadias e mais perigosas. É algo a se pensar, realmente faz sentido os argumentos apresentados na matéria, mas em contrapartida, um dos principais patrocinadores do jornal é a maior indústria de automóveis no país.
 Chego ao bar. O ucraniano no caixa me atende. É um homem aparentando seus 50 anos de idade, aspecto meio sujo, meio maltrapilho, carrancudo, como se implorasse para que o próximo dia não chegasse. Peço um pão e um bolinho de carne. Ele grita alguma coisa que eu não entendo – provavelmente na língua de seu país de origem - para uma menina que deve ser sua filha. Ela traz o pão aberto, coloco o bolinho dentro, dou uma mordida e peço um café. Como e bebo, estava bom.
 - Me vê um chineque, uma dose de conhaque e uma cerveja?
 Agradeço, pago e saio do bar, me sentindo bem melhor. O peso nos meus olhos e o leve cansaço que eu sentia diminuíram bastante. Mas de alguma forma ainda me sinto um pouco estranho, como se estivesse faltando alguma coisa em algum lugar e eu não sei bem o que é. Olho para o céu, que já esta com seu alaranjado característico e um esverdeado bem próximo do horizonte, que se consegue ver de vez em quando, em alguns pontos mais altos da cidade. Está quase na hora do meu “depoimento”, seja lá o que isso queira dizer. Vou até o endereço indicado no cartão: um prédio antigo, com 3 andares, ocupando meia quadra; paredes que devem ter sido brancas algum dia, mas agora estão sujas e em muitos pontos, principalmente nos cantos e nos detalhes arquitetônicos, enegrecidas e com aparência úmida. De duas janelas no 2º andar, duas vizinhas conversam com voz alta e estridente. Na entrada há uma porta dupla, alta e de madeira gasta, com a pintura verde claro quase toda descascada. Passando pela porta há um corredor estreito e escuro que dá para duas escadas: uma subindo, à esquerda; e a outra descendo, à direita. As paredes do corredor estão quase completamente pretas, emboloradas e parecem escorrer umidade de algum ponto. Pego a escada da esquerda. Do alto da escada vejo que estou em uma passarela que circunda um pátio interno, que dá a impressão do prédio ter sido um antigo colégio.
 Continuo subindo as escadas, pelo caminho vejo algumas crianças brincando. Algumas rolam pelo chão brincando com seus porcos de estimação. No último andar sigo pela passarela até chegar a um portão de ferro, passo por ele, ando por um pequeno corredor que dobra a direita e tem duas portas de cada lado e uma à frente. Entro na porta que está à frente, lá dentro há um homem sentado atrás de uma mesa, escrevendo alguma coisa em uma máquina de escrever. Ele usa óculos de grau pequenos e redondos, tem cabelos com aparência oleosa, lisos, finos e ralos sobre sua cabeça. Na mesa há um cinzeiro com algumas bitucas de cigarro, de uma delas ainda sai um pouco de fumaça. Aguardo em frente à mesa, ele continua escrevendo por mais alguns segundos, pára e me olha com indiferença:
 - Pois não?
 - Fui chamado a depor.
 Entrego-lhe o cartão. O homem o examina com o mesmo interesse com o qual me atendeu.
 - Pode seguir em frente.
 Sigo em frente. A sala toda cheira a algo bem velho. Aquele cheiro da umidade junto ao cigarro, aos móveis de madeira, ao sofá de tecido empoeirado em um dos cantos, a fraca luz alaranjada vinda de um único foco e a luz e o ar do dia que mal entrava pela única e pequena janela da sala: o cheiro parecia vir direto para o cérebro através dos poros. Abro a porta seguinte. É uma sala ampla e bem iluminada pelo que parece ser a luz do dia vinda pelo teto de vidro jateado. O tempo parece ter mudado, porque a luz vem clara e acinzentada. Parece uma espécie de tribunal, no estilo daqueles de filmes americanos, mas com poucas pessoas assistindo, algumas parecem levemente alcoolizadas. O homem no alto do tribunal fala com voz alta e autoritária:
 - Billy Gandolfi, você foi chamado aqui diante desse tribunal para responder pelo crime de assassinato.
 - Assassinato?! Mas eu...
 - Silêncio! Responda apenas quando lhe for pedido que o faça! Como você se declara?
 - Inocente! Na verdade eu nem sei de que assassinado o senhor...
 - Silêncio! Não o alertarei novamente. E dirija-se a mim como meritíssimo! Diante das provas apresentadas aqui, o senhor está impedido de sair do Estado até o fim das investigações. Aguarde ser chamado nas próximas semanas ou meses. Pode se retirar.
 - Mas merit...
 - Está dispensado - por hora! - senhor. Ou eu terei que pedir que o acompanhem?
 Viro-me e saio. Ao sair, reparo que na ante-sala há algumas galinhas que eu não havia notado antes. Elas ciscam o carpete e andam pelos cantos. Ao sair do prédio vejo que o céu está nublado, mas ainda claro. Encontro um amigo meu andando pela calçada. Ele vem falar comigo:
 - E ae Billy! Que cê tava fazendo aí?
 - Fui convocado a depor.
 - Sobre o que?
 - Não sei.
 - Como assim? você foi chamado pra depor e não sabe sobre o que?!
 - Ah, é alguma coisa sobre assassinato.
 - O que que você tem a ver com isso?
 - Não sei.
 - Humm... vamo chegar lá no bar na frente da facul. A galera vai lá hoje.
 - Beleza.
  Afastamos-nos do prédio antigo. Dou uma olhada para trás. Em uma das janelas do 1º andar, o homem alto que me encontrou no banco nos observa, com a mesma expressão variando entre sério e severo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pirataria existencial

 Nesse barco desancorado, onde os ventos e as marés levam. Vivendo assim, como um pirata que vive quase sem saques, sem mesmo grande prazer na navegaçao. Momentos bons? Sim, nas loucuras comedidas, na sutilieza desvairada. Mas normalmente nos excessos. Neles o sangue corre nas veias e as ondas arrebentam com força. Aí acaba o cansaço das tardes mornas, preguiçosas, da comodidade estúpida e forçada garganta abaixo.
 Sim! Vivas ao excesso!
 Quando se faz necessário, a força também se faz, mas ela flui com facilidade, natural e, visceral. E o objetivo é só manter o nível, pelo máximo de tempo que puder, até seu corpo cair inerte no chão, na madeira cheirando a mofo, enquanto o mar te leva, com o sol quente te fazendo escorrer entre os vãos sob seus pés.
 Sim! Vivas ao excesso!
 Vivo a vida como quem vive um jogo, sem save ou load. Nem sempre da certo, mas, sem a pressão no peito, o queimar no estômago, o estrangular da garganta, quem te garante que se está vivo. Viver sem se importar com o amanha? Não. Mas sim, viver se importando em viver. Tranformar o balanço nauseante que te mantém dócil em energia para saltar dessa prisão quase sem grades. Mas isso é comigo. Ah, o ócio... Quem disse que não mata? Em certas mãos, realmente pode ser algo perigoso.
 Sim! Vivas ao excesso!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

"Sonhos" de uma noite de inverno

 Desço na rodoviária da cidade, o tempo não parece muito bom, um pouco de garoa e uma brisa fria. Faz tempo que não venho à praia, tudo bem que não deve ser tão divertida com esse inverno e sozinho, mas a solidão e o frio eu posso resolver fácil com a necessária quantidade de bebida. Sigo pela estrada que vai até o centro, onde mais à noite terá alguns shows. Nada muito empolgante, mas é alguma coisa. Vou para o mercadinho mais próximo e compro uma garrafa de gim barato, abro e dou um trago. As ruas ainda estão vazias, exceto pelo espaço coberto onde acontecerão os shows, que no momento está repleto de senhoras de meia idade jogando bingo, e crianças correndo até serem bruscamente paradas por agarrões firmes em seus cabelos por seus pais. Anjinhos. Vou em direção à praia, passo por lojas, lanchonetes e barzinhos fechados, uma caminhada de uns quinze minutos. A garoa pára, chego à praia, vou caminhando pela areia até chegar a uma formação rochosa com a qual o mar se choca, sento e fico bebendo enquanto vejo as ondas se quebrarem. Estou com um pouco de sono, deito sobre as pedras, o vento diminui. Algumas pessoas passam por mim, sem dar muita atenção, parece uma família de turistas aproveitando sua casa de praia, ou sem muito dinheiro pra ir pra um lugar mais quente.


 Desperto, pego meu celular para ver as horas: 17h17min. Ainda tenho dois terços da garrafa cheios, me levanto e vou para um barzinho pelo qual passei antes e estava aberto, onde a porção de batatas fritas parecia grande, barata e calórica, perfeita para me preparar para o resto da noite. No bar, como as fritas e observo o movimento aumentando na rua, viro um martelinho de cachaça e em seguida um copo de chope. Pronto! Vamos à “festa”. A música já começou a tocar, não sei como defini-la com certeza, é algo entre sertanejo, pop, e funk carioca. Agora a música esta lenta, um pouco a frente há três policiais encostados em uma viatura. Um jovem caminha na direção deles, um pouco atrás uma garota o filma com um celular. Ele está a um passo dos policiais, quando a música muda de ritmo para uma batida funk, o rapaz começa a dançar, rebolando e mexendo os braços ao ritmo da batida enquanto vai descendo até o chão. A música volta ao ritmo lento e ele se levanta, com um ar calmo dá as costas aos guardas e caminha em direção a uma pequena rua ao lado da viatura. Um dos policiais tira seu cassetete e tenta golpear o “dançarino”, este ao perceber a movimentação corre e escapa do golpe, mas em seguida o policial acerta um chute de raspão no pé do fugitivo, que cambaleia e vai correndo tentando recobrar o equilíbrio. Um dos outros policiais corre em “auxilio” do colega, quando os dois primeiros adentram a pequena rua a última coisa que vejo é o cassetete acertando as costas do rapaz, que se retorce e desaparece com os guardas a lhe seguir. A garota que filmava tudo acompanhou a ação a uma distância segura, os dois policiais voltam do beco, parecendo ter perdido sua presa, vêem a garota que ainda os filma, esta se vira e corre em direção ao espaço coberto, agora já lotado de todo tipo de pessoas. Provavelmente esse vídeo terá uma boa quantidade de acessos na internet.


 Encosto-me em um canto, longe do palco e sem tanto tumulto, não é o tipo de música que eu faço questão de ouvir, na realidade dificilmente eu estaria aqui se não estivesse acompanhado. Tomo mais um gole de minha companhia. Noto que uma garota olha bastante para mim, está sozinha, estico a garrafa em sua direção, num gesto para oferecer-lhe. Para minha surpresa ela vem até mim, pega a garrafa e da um longo gole. Amor à primeira vista! Ou mais ou menos isso. Não fiquei surpreendido pela atitude em si, mas sim pela pessoa que aceitou minha gentileza. Traços delicados, cabelo cuidado, maquiagem bem feita, mini-saia roxa com uma meia-calça grossa por baixo, ar agradável. Gostei.
- Ola. Não achei que você fosse aceitar o gole.
- Porque não? Meninas não podem beber?
- Podem. Mas não achei que você era dessas que bebem gim puro direto da garrafa rs.
- Você sempre julga as pessoas pela aparência?
- Nunca. Por isso te ofereci :).
- Você não parece o tipo de pessoa que gosta dessas músicas.
- É. Não gosto. Você quer ficar vendo as bandas?
- Não. Vamos dar uma volta.
- Qual o seu nome?
- Natalia. E o seu?
- Billy
Conversamos até chegar ao atracadouro, pouca luz, poucas pessoas passeando por ali. Eu a seguro e a beijo. Ela corresponde. Seguro sua nuca com firmeza, vou escorregando a mão por suas costas, quando minha mão chega próxima de sua bunda ela a pega e sobe um pouco, para sua cintura. Sentamos em um banco e terminamos a garrafa enquanto nos conhecemos melhor. Ela está sozinha na cidade, esperando duas amigas que chegam no dia seguinte, está hospedada na casa de uma delas. Fico olhando seus olhos, há algo muito singular em sua beleza, me aproximo e beijo novamente. Minha mão segura uma de suas coxas, vou subindo vagarosamente até passar do limite da sua saia. Ela me pára mais uma vez.
- Calma. Acho que era bom eu te contar uma coisa.
Ela levanta e caminha até uma parede próxima, eu a sigo, Ela se encosta.
- Teu namorado ta por aí.
- Não tenho namorado. Você vai embora quando?
- Amanha de manhã.
- Então é melhor eu falar agora mesmo. É que eu não sou o tipo de mulher que você ta pensando.
- Como assim? Você é uma garota de programa? Tudo bem por mim rs.
- Não. Na verdade eu não sou totalmente uma mulher.
- Tá me zoando né?!
- É sério.
Eu agarro sua coxa com força, ela está cabisbaixa e não se move, subo minha mão até sua virilha e ela continua inerte. Então sinto uma sensação nada agradável: um considerável “volume” entre suas pernas.
- Filha da puta!
Agarro seu pescoço e a forço contra a parede.
- O que que você tá pensando?! Se eu gostasse de homem eu teria procurado um!
Enquanto seguro seu pescoço com a mão esquerda, levanto a direita, pronta para acertar-lhe um soco, estou possesso e ela está ciente da cólera em meus olhos, começa a choramingar
- Eu devia te socar! Ou te dar uns tapas!... ou...
Olho pra ela, agora com mais frustração do que raiva.
... um puxão de cabelo... ou alguma coisa assim...
Empurro sua cabeça contra a parede e a largo.
- Vo sair fora. Fica longe de mim.
Viro-me, dou um passo, paro e olho para ela mais uma vez.
- Quantos centímetros o teu tem?
- Quatorze.
- Hum... Pelo menos isso... O meu é maior.
Viro-me novamente e saio, sem olhar para trás, frustrado, mas me sentido um pouco menos ridículo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Amizades e amizades

 Entramos na loja de conveniências do posto de gasolina. A idéia era comprar uma garrafa de vinho para cada um, estávamos em cinco pessoas ali. Logo depois de nós, entrou uma guria e dois caras, todos com jeito de “mano” – mano e minas costuma ser o termo usado pra definir determinado estereótipo de alguns garotos e garotas, que normalmente inclui gostar de rap, usar roupas largas, bonés colocados de maneira excêntrica sobre a cabeça, as meninas com tranças e faixas no cabelo, um jeito de andar esquisito, como se tivesse com algum problema de postura e algum outro problema nas pernas, e um conjunto de gírias bastante peculiares. Começam a olhar as bebidas e eu percebo que um deles pega uma garrafa pequena de uísque e a coloca sob a blusa. Nesse momento meus amigos estão pegando as garrafas de vinho e levando ao balcão onde havia apenas um atendente. Fico indignado com a situação: “não vou deixar esses manos saírem daqui de boa com esse uísque enquanto nós estamos pagando pelo nosso vinho.” Fui até onde eles estavam. À medida que eu me aproximava, eles se afastavam da prateleira pelo outro lado. Quando cheguei na frente do uísque peguei uma garrafinha e coloquei sob a blusa também.
- O, Daniel! Passou o meu vinho aí já? Mas daquele outro, não esse de vocês. Depois agente acerta tudo.
- Ah! Que frescura Billy! Beleza.
Saímos da loja, eles vão para o carro do William. Eu passo pela janela do carona e jogo a garrafa no colo do Daniel.
- Da onde isso?
- Vamo sair fora.
Subo na moto e vamos para uma esquina próxima à casa de uma amiga beber nosso vinho – agora acompanhado de uísque.
- Ow! Não acredito que você pegou isso lá.
Eu explico toda a situação, que eu não poderia ficar de braços cruzados vendo os “manos” saindo com a bebida sem pagar enquanto nós, mesmo meio quebrados de grana, estávamos pagando.
 - Ah! Mas agora eu vo ficar louco Billy! Você sabe que eu não posso tomar uísque huahuahuahuahua.
William fala:
 - O Billy é foda! Huahuahuahua.
 E bebe um pouco do uísque, que foi aberto no carro mesmo. Juntam-se a nós, a Pauli – a amiga que morava na rua onde bebíamos - e o Leonardo – namorado dela -, e entregamos as garrafas de vinho que compramos para eles. Eu tive a infelicidade de escolher um vinho que não vinha com uma tampa fácil de abrir igual aos dos outros, o meu tinha uma rolha, e nós não tínhamos saca-rolhas. Tive que usar a velha técnica de prender a garrafa entre os pés, no chão, enquanto forçava a rolha para dentro da garrafa com a chave mais comprida que eu tinha, usando as mãos e apoiando o peso do corpo sobre elas. Tinha que ser rápido e com força - pra não machucar muito as mãos -, depois que a rolha entra, basta beber tomando cuidado para que a rolha não obstrua o gargalo da garrafa. Bebemos os vinhos. Depois de algum tempo de "treino", uma garrafa de vinho não é o suficiente para deixar uma pessoa totalmente feliz e nem por muito tempo, então preparamos um tubão:
 A definição que considero mais correta para “tubão”, é basicamente, qualquer bebida alcoólica misturada com qualquer refrigerante. A bebida alcoólica dever ser preferencialmente destilada e com mais de 30% de volume alcoólico, misturando-os numa proporção entre 70% e 40% de refrigerante – a variação fica a gosto e normalmente muda à medida em que se bebe. Essa é a receita clássica, mas há variações com bebidas mais fracas e suco substituindo o refrigerante, o que eu já classificaria como “suco gummy”. O nome “tubão”, imagino que tenha relação com a garrafa de dois litros de refrigerante usada em seu preparo. Quando há espaço suficiente na garrafa – o espaço algumas vezes é arrumado jogando fora uma quantidade do refrigerante, caso ninguém queira bebê-lo puro -, faz-se a mistura direto nela, assim fica o tubão preparado para beber direto no gargalo – os “manos” têm o costume de torcer e amassar a garrafa a medida em que ela vai esvaziando, não tenho certeza do porquê.
 Com uma garrafa de um litro de pinga e uma garrafa de refrigerante de dois litros sabor limão, preparamos o clássico drink em alguns copos descartáveis.
 Daniel visivelmente alterado - ja tinha acabado com a pequena garrafa de uísque quase sozinho:
 - Vamo beber lá na frente de casa!
 Eu peguei a minha moto e fui com a Carla, namorada do Daniel, na garupa. O Daniel e a Leni vão com o William no carro dele. A pauli vai no carro do Leonardo. Encostamos os carros e a moto próximos ao meio-fio, em frente à casa do Daniel. Preparamos mais alguns copos e ficamos conversando e bebendo.
A Leni, a Carla e o William estão na calçada em frente ao carro. Eu estou muito bêbado – assim como acho que estavam todos ali – entre o carro e a Carla, conversando com a Pauli. O Daniel conversa com o Leonardo, ambos sentados no meio fio, próximo à roda traseira do carro de Leonardo. A Pauli entra no carro do namorado pelo lado do motorista e liga o rádio. Eu abro a porta do carona e sento ao seu lado.
 Debruço-me sobre ela e a beijo.
 - Billy! Seu louco! O Leonardo ta aí fora.
 - Eu sei.
 E a beijo de novo. Nossos três amigos olham para dentro do carro parecendo um pouco surpresos, acho que não com o beijo, mas sim com o momento em que ele acontecia. Leonardo fala para Daniel:
 - O Daniel, você que é bem amigo do Billy, me responde uma coisa. Eu sei que ele e a Pauli são super amigos, tão sempre juntos, mas você não sabe se eles ficaram alguma vez? Sei lá... No tempo que eu e ela não tava namorando?
 Daniel percebeu os olhares estranhos voltados para o interior do carro e imagina o que está acontecendo ali. Ele olha para Leonardo e diz:
 - Ah, acho que nunca rolou nada não. Acho que eles só são bem amigos mesmo.
 A Pauli me empurra de vez para fora do carro, eu saio com meu copo vazio e me junto ao trio de amigos que estavam ali fora e encho mais um copo.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Como conhecer alguém de verdade

 - Você conhece bem o Billy, né?
 - Sim. Há muito tempo.
 - Quem é o Billy de verdade?
 - Ele é como uma máscara, mas não para iludir. Pelo menos não com o intuito de se aproveitar e parecer o que não é. É a porção mais dura de um rosto. É a máscara para a proteção. É quem aguenta as pancadas.
 - E quem ele mascara?
 - A Vontade, o desejo. Ela é quem manda. E faz o que quer, como quer e no momento em que quer. É impulsiva, quase, quase sem freios. É quem sai à noite, é a sede, é quem se embriaga, é a paixão, é o olhar lascivo. Billy é quem não sente. É a superficialidade, a armadura, o elmo. Ele é quem vai à frente, é as pernas em movimento, é a garganta sendo molhada, é a embriaguês, é a volúpia, é a língua.
 - Mas por que a Vontade precisa ser protegida? Se ela é a sequência de ações, o dinamismo, o agora? Por que proteger o que é inconsequente?
 - Porque é a segunda camada apenas. Percebe os cortes e vê o sangue escorrer. Sabe que a perna está quebrada e se a fratura está exposta.
 - Quem realmente sente?
 - A parte mais vulnerável. Que fica mais tempo escondida, não por fraqueza – sua força na verdade é a mais contundente -, mas por sua falta de resistência. É a parte mais bondosa e ao mesmo tempo a mais maldosa. É a vontade de proteger os outros, o altruísmo. E isso a torna ingênua - que é uma forma elegante de chamar alguém de tolo, ignorante. E a maldade reside na ignorância. A própria ignorância é a maldade em uma forma pura e bruta. E essa parte, que pode talhar mais forte, é também quem realmente sente os cortes. É quem admira o frio noturno, é quem dá de beber, é quem fica vendo tudo girar por detrás das janelas, é o amor, é a empatia.
 - Então Billy é oco?
 - Não. Ele apenas protege, ou tenta - da maneira que melhor pode – proteger seu conteúdo. Ele dá com a cara no meio-fio, levanta com a testa aberta, leva à boca a garrafa de pinga que não deixou cair, dá uns goles e vai em frente, para onde a Vontade o levar. Ele é a parte lapidada da alma. Ou melhor, é a não-alma. É a casca dura da barata mais resistente. É quem sobrevive depois que tudo morreu.
 - Mas como assim? Ele não deveria ser a proteção? Impedir os ferimentos e a morte?
 - Sim. Mas tem suas falhas de defesa. Na realidade, a Vontade, em alguns momentos, afasta Billy. E a parte mais fraca e mais forte, vê e permite ser vista fora das janelas. E é aí que algumas vezes ela morre. A Vontade morre menos, segue mancando e moribunda até se recuperar, enquanto a parte que realmente sente não volta à vida. E nessas horas, Billy não pára. Está lá, com um sorriso sarcástico no rosto, uma garrafa de bebida em uma mão, e uma mulher na outra. Atirado em algum canto, e seguindo em frente, para a próxima garrafa. Para a próxima oportunidade de morrer.
 - Ele vai agüentar pra sempre?
 - Acho que o suficiente.
 - Para que?
 - Para a Vontade se acalmar. Quando ele não precisar impedi-la de se matar. Quando o Tolo provar que sua loucura não é tolice. Que é apenas uma ótica que não conseguiu provar empiricamente sua eficiência. Se ela existir, o tempo suficiente para a paz. Billy é quem você conhece quando você sabe o que ele não é.

domingo, 22 de maio de 2011

Planos? Não, mesmo!

    Desço do taxi e olho ao redor. Ele está lá, entre algumas pessoas. Há muitas outras por perto, algumas muito estranhas. Legal... Um lugar estranho cheio de gente estranha. Mas ele está aqui. E tem bebida. Tudo bem então. Perfeito! Não precisa muito mais.
    Aproximo-me, mas não tenho certeza de como cumprimentá-lo. Ele também não parece ter muita certeza. Eu e o Billy não nos conhecemos há muito tempo e saímos três vezes apenas. Damos um beijo no canto da boca. Sou apresentada a algumas pessoas.
    - O que você quer beber?
    - Tanto faz. O que vocês estiverem tomando.
    - Cerveja. Mas eu vou pegar outra coisa. Vodka com refrigerante sabor citrus?
    - Ah, não sei, tanto faz. Pode ser cerveja mesmo.
    - Não. Espere aí que vou pegar pra você.
    Ele sabe que não sou muito fã de cerveja. Ele vai até o balcão enquanto converso um pouco com seus amigos. Nada de mais, conversa trivial. Acho que não querem que eu me sinta muito deslocada. Ele volta com o copo. Bebo. Bebo rápido.
    - Tá bom? Não tá muito forte?
    - Não. Tá bom assim.
    O copo acaba rápido. Acho que estou um pouco nervosa. Ele volta com mais meio copo de vodka pra ser misturado com o refrigerante. Esse também acaba rápido.
    -É, você tava com sede einh rs. Vou pegar mais um. E um só pra mim rs.
    -Eu vou lá com você.
    Vamos ao balcão do bar. Eu peço uma dose de rum sabor maçã. Ele pede mais uma de vodka. O garçom pergunta:
    Bastante gelo?
    - Ele responde:
    - Bastante vodka rs
    - A quantidade de vodka vai ser a mesma
    Ele pergunta ao dono do bar:
    - Não dá pra substituir o gelo por vodka?
    O cara apenas ri. Eu digo:
    - É, não custa perguntar né?rs
    Bebemos, conversamos, nos beijamos. Estou bem alegre. Passo minha mão entre as pernas dele, e ele entre as minhas. Ele fica excitado. As pessoas continuam a nossa volta, mas ninguém parece ligar muito para o que acontece por ali. Pegamos mais uma dose cada um, ou duas. Não tenho certeza. Chega um momento que fica difícil lembrar certos detalhes.
    - Você tá bebendo muito rápido. Vai passar mal.
    - Não. Eu to bem.
    Não estou bem. As coisas já estão girando. Eu me sento na muretinha ao nosso lado. Fico agachada, com a cabeça entre meus joelhos.
    - Tá. Então eu vo no banheiro.
    Ele sai e diz para o amigo dele:
    - Vo no banheiro. Cuida dela. Não deixa ela cair no chão rs.
    Olho para o chão. O chão parece olhar para mim, me chamar. Vomito. Sujo um pouco minha bota.
    Billy volta do banheiro:
    - Oh... Você passou mal rs. Eu disse que você tava bebendo muito rápido. Você tá tentando limpar sua bota com esse guardanapo? Não tá dando muito certo rs. Da onde você arrumou isso?
    - Não sei. Alguém me deu rs.
    Billy senta ao meu lado e fica ali abraçado comigo. Continua bebendo. Conversa um pouco com alguns amigos. Não tenho idéia de quanto tempo passou, mas fico um pouquinho melhor. Não muito, mas o suficiente para acariciá-lo por baixo da sua jaqueta e provocá-lo.
    - Ah, como você é malvada Luana! Sabe que daqui a pouco eu tenho que ir embora rs.
    - Então ta. Aí vamos embora. Cada um pra sua casa rs.
    Mas eu não paro. Estou mal, mas ainda consigo me divertir um pouco.
    - Nossa! Ou você confia muito em mim, ou não se importa muito com coisa alguma. – silêncio – Hum, acho que é a segunda opção mesmo rs. Tá tarde. Preciso ir embora. O que você quer?
    - Ir pra casa
    - Então levanta que eu te levo até o taxi.
    - Não. Espera mais um pouco.
    - Você não prefere ir pra um hotel comigo? Aí você dorme um pouco e quando estiver melhor você vai.
    - Não. Quero i pra casa.
    - Certeza?
    - Não rs.
    - Vem. Vamos pegar um taxi e vamos pro hotel.
    Atravessamos a rua pra chegar ao ponto de taxis. Fui literalmente escorada nele, andando um pouco em ziguezague, porque definitivamente, sóbrio ele também não estava. Ele diz que vai tentar convencer um taxista a me levar, e que ia me apresentar como sua namorada, pra facilitar a conversa.
    - Oi. Minha namorada não tá muito bem. Você podia levar...
    -Não!
     - Mas é aqui pertinho. Ela não ta conseguindo andar direito.
    - Nesse estado não tem como. Se ela vomitar no carro eu não posso mais trabalhar o resto da noite. Tenta com algum outro aí.
    O quarto taxista com quem o Billy conversou parece um pouco disposto a pensar na possibilidade de nos levar.
    - Por que os outros não quiseram levar ela?
    - Eles tão com medo que ela passe mal no carro. Mas ela não vai não. Só não tá muito bem.
    Nisso, ele aponta pra mim. Eu estou em pé, mas com a cabeça agachada entre os joelhos, o cabelo tocando o chão, e balançando um pouco para os lados. A imagem não devia passar exatamente a imagem que o Billy estava tentando passar para o taxista.
    - Luana! De pé! Vai! Cara de boa!rs
    Fico com o corpo ereto, tiro o cabelo do rosto e olho pra frente, pro vazio. O Billy olha pro taxista esperando sua aprovação. Parece um vendedor tentando convencer o cliente de que a mercadoria é confiável. Tanto é que ainda resolveu dar garantia:
    - Olha, é aqui pertinho e eu coloco a blusa dela e a minha jaqueta em volta. Não precisa se preocupar, porque ela não vai vomitar. Se por um acaso acontecer, não vai sujar em nada o carro. Mas ela vai ficar bem sim. Sério mesmo. Né Luana?
    Eu balanço a cabeça afirmativamente. Entramos no taxi. Coloco minha blusa sobre a boca. As janelas do carro estão bem abertas. O percurso não demora 5 minutos. Mas em momentos como esse, como demora. O tempo parece que pára. Parece que não chegamos nunca. Mas chegamos.
    - Viu? Falei que ía dá tudo certo. Ela nem passou mal.
    - É. Eu arrisquei né?
    O taxista vai embora e entramos no hotel. No balcão:
    - Estamos lotados. Tem que aguardar.
    - Quanto tempo?
    - Ah, uma meia hora mais ou menos.
    Vamos para a sala de espera. Tem mais um casal lá. Enquanto esperamos chegam mais três casais. É algo de certa forma constrangedor. Não muito. Mas você, ao lado de várias pessoas, todas esperando liberar um quarto pra que possam fazer sexo, e todas sabendo que estão ali só pra isso, não é uma situação totalmente confortável. Como as pessoas sabiam? Porque era o tipo de hotel que as pessoas vão pra isso, mas não chegava a ser um motel.
    - Ela ta embriagada? Ou só com sono?
    -Hum... Sono.
    - Certeza?
    - É sono
    - Ela não parece muito bem.
    - Tá cansada. É sono sim.
    - Vo precisar do r.g. dela.
    - Cadê teu r.g.?
    - Tá aí na minha bolsa.
    - Mas onde na bolsa.
    - Não sei.
    Eu não sabia de mais nada mesmo. E não fazia a mínima questão de saber. Queria apenas um canto para desmaiar. Ele revira a bolsa. Encontra meu estojo de maquiagem, brincos, preservativos, muitos preservativos, e depois de uns 10 minutos de muita busca, encontra minha carteira. Eu pego a carteira da mão dele e entrego o r.g.
    - Agora que eu achei a carteira não precisava mais de ajuda rs.
    Ele vai ao balcão fazer o check in.
    - Eu preciso do documento dela porque ela não parece muito bem. Uma vez veio um casal aqui, e tiveram que chamar uma ambulância porque a menina passou muito mal. A família dela não sabia do rapaz, não sabia que ela tava aqui. Foi o maior rolo. Aí agente precisa garantir que tá tudo certo.
    Pegamos o elevador. Chegamos ao quarto. Desabo sobre a cama. Ele tira a roupa e deita sobre mim. Tira minha roupa.
    -Nossa! Como você melhorou de repente!
    -Aham!
    Melhorei mesmo. Na verdade, acho que nunca estou ruim pra isso.
    Depois de algum tempo dormimos. Ele se meche um pouco durante a noite, poucas vezes, mas a cada vez meu corpo parece ganhar vida, um sonambulismo sexual. E digo só o corpo mesmo, porque minha consciência estava a anos-luz de distância. Ele se meche novamente e dessa vez acordo. Começo a me empolgar e o puxo pra cima de mim. Fazemos sexo de novo. Olho no relógio: 06h40min.
- Puta que o pariu! Tá certo isso?!
- Acho que tá. Meu celular tá despertando.
Eu não posso chegar em casa tarde - ou no caso cedo- assim. O mais tarde que costumo chegar é umas 2h da manha.
    - To fudida!
    - Sim huahuahuahuahua. Isso nunca aconteceu antes?
    - Não.
    - Hum, eu costumo ouvir bastante isso. Estranho rs.
    Descemos e chamo um taxi. O taxi demora uns 10min. Nesse tempo, Billy me conta sobre detalhes da noite anterior que eu não lembrava completamente. O taxi chega, nos despedimos e vou pra casa. Penso: “por favor! tem que dar tempo de eu chegar em casa antes que alguém acorde”. O taxi pára, saio, olho pra casa e a janela se abre:
    - Nossa! Acordou cedo pra ir comprar pão?
    Pois é... Quase deu certo rs. Nada como uma noite com muita bebida e sexo seguida de um pouco de adrenalina pela manhã pra começar bem o dia.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O último cheiro de uma noite

 Depois de uns vinte minutos chegamos ao bar. Sei quanto tempo demorou pela experiência no trajeto, porque não me lembro de nada o que aconteceu enquanto caminhamos, nem de quantas caipirinhas, cervejas e o que mais quer que tenha passado por nossas mãos na festa em que estávamos havia alguns minutos. O que lembro, é que estava sentado à mesa, a Leni à minha frente. Pedimos uma cerveja. A mais barata como sempre.
 - Piá! Vamo pegá uma parada.
 - Ta afim de outra?
 - Sim.
 - Mas agora acho que não vai ter. Já são umas 03h30min.
 - Eu guardei um pouco da outra na minha bolsa. Eu achei que talvez fosse dá vontade mais tarde.
 - Sério?! Então passa aqui.
 É incrível como a mente de um bêbado funciona. Ela pensou que um pouquinho de pó que havia sobrado, poderia ser guardado solto em sua bolsa, e depois bastava pegar, sabe-se lá como. A mente ébria é muito pragmática: “Preocupe-se com o depois, depois”. Apesar de que sóbrios muitos de nós também somos assim. Talvez a bebida só torne a preocupação ainda mais imediata, ou melhor, tira a preocupação de seja lá o que for. A falta de preocupação é bem fácil de notar nesse caso pela minha próxima atitude: virei a bolsa dela sobre a mesa e comecei a bater e agitar para juntar o que conseguisse. Nisso, chega o garçom com a cerveja, olha para nós dois. Eu fico meio debruçado sobre a mesa tentando parecer natural - algo difícil se você estiver imaginando a cena como estou tentando descrever-, ele deixa a cerveja e sai.
 Arrumo duas carreirinhas. Cheiramos. Sinto o pó passando pelas narinas e uma parte chegando até a garganta. Gosto um pouco amargo, não muito. A língua amortece. Logo vem a sensação de bem estar, empolgação, mente e corpo a mil! O bar estava com um bom número de pessoas. Estávamos em uma mesa mais ao fundo, mas ainda assim, com um bom número de pessoas em volta, em um bar que não era muito grande. E isso foi algo que só depois passamos a avaliar.
 - Será que alguém percebeu algo?
 - Ah, não sei. Só porque você estava batendo na minha bolsa e espalhando tudo em cima da mesa na frente do garçom e depois agente cheirou aqui mesmo?
 Demos muitas gargalhadas. Bebemos mais um pouco e fomos embora. Até que foi uma noite agradável. Sim. Foi.

sábado, 14 de maio de 2011

A vingança, algumas vezes, é um prato exótico

-Eu não consigo estabelecer um relacionamento com uma mulher que eu não consiga manter uma conversa no mínimo interessante.
Nisso, a Leni diz:
- Eu não acho importante conversar com a outra pessoa não. Na verdade acho que às vezes eu prefiro é que a pessoa nem converse comigo, mesmo!
Faz-se um breve silêncio e ela completa:
- Vai ver, é por causa do tipo dos caras que eu namorei.
Isso me lembra aquela frase: "Por favor! fica quietinho(a) pra eu gostar mais de você :)"
Enfim:
Eu e o Daniel não pudemos deixar de nos manifestar e dizer que havíamos pensado na mesma coisa. Alguns desses, nós também preferíamos que não falassem.
Eu olho pra Leni, e faço uma cara de indignado:
- Como assim não é importante conversar Leni?! Ou você conversa ou você faz sexo!
Eu estava sendo um pouco extremo, não penso que seja assim de verdade. Você também pode sair pra beber com a outra pessoa. E quem sabe, uma vez ou outra rola um programinha diferente.
Daniel, aos risos:
- Ta vendo Leni?! Por isso que ele é o Billy Transa! huahuahuahua!
- Billy Transa? Que história é essa?
- Ah, uma vez veio pra cá o Cana, amigo meu. Ele chamava o Billy, de Billy Transa. Porque...
Interrompo:
- Porque era uma época que eu estava ficando com algumas meninas, mas nada de absurdo, foi só uma serie de coincidências. Mas aos olhos do cara, que não me conhecia, deve ter parecido que eu era muito pegador, quando na verdade nem era tudo isso. Acho eu.
Daniel:
- Até hoje não me conformo da Pauli ter ficado com o Cana.
- Ah, mas ela tava magoadinha comigo. Foi à época que eu comecei a namorar e não fiquei mais com ela. Aí ela ficou chateada, carente...
- Billy! Não importa cara! Você pode tá se sentindo a pior pessoa do mundo, morrendo de raiva de seja lá quem for, mas você não fica com o Cana! Ela podia ter chegado em um monte de cara diferente e falado: “eu quero dá pra você. Vamos?”. E um monte de cara ía querer. Você simplesmente não fica com o Cana!
Será que era isso que eu gostava nela? A surpresa? Já que me surpreendeu algumas boas vezes. Vezes suficientes. Acho que não. Provavelmente isso era o que eu não gostava nela. Definitivamente a pauli não era muito feliz nas suas “surpresas”.
Leni:
- Uma vez eu também tava com raiva de um carinha e resolvi pegar alguém numa festa pra me sentir vingada. Pois é, não deu certo. Me arrependi um monte, porque o carinha que peguei era tão trash que ainda saí com a cara queimada huahuahuahua!