domingo, 3 de julho de 2011

Drogar-se ou não drogar-se? Eis a questão:

Qual a motivação de alguém que luta uma batalha que o resultado já é bastante previsível? Mais: qual a motivação para CRIAR essa guerra e se esforçar tanto em sua manutenção diante não mais de previsões, mas de resultados concretos, de derrota após derrota? Não pode ser simples ignorância, é absurdo pensar que somos governados por pessoas sem o mínimo de pensamento lógico, que nossos representantes, em sua maioria, são tão incompetentes e ignóbeis quanto tentam manter a população que representam. Será que a imagem de que a população em sua coletividade é estúpida, força nossos líderes a se mostrarem estúpidos para serem aceitos como verdadeiro reflexo de seus eleitores e assim continuar no poder?

 Acho que não. É uma estranha e triste coincidência que grandes “mentes pensantes” de repente, quando chegam aos jogos políticos, tenham sua visão tão estreitada e capacidade de reflexão tão engessada.  Unindo meu otimismo com a vontade de não ser ingênuo em subestimar as pessoas, a conclusão é que há um motivo, e que seu objetivo é tão filantrópico quanto ingênuo.

 Então, vamos às teorias conspiratórias:

“A indústria Norte-americana do nylon (derivado do petróleo), teme a concorrência com o tecido de cânhamo: três vezes mais durável, dez vezes mais forte que o algodão, natural em contraposição ao nylon, ecológico, rende muito mais que o algodão, cresce mais rápido, é mais barato, produz muito em pequena propriedade, recebe melhor os pigmentos, um tecido que respira mais...
A Nylon Du Pont foi quem financiou a campanha de difamação da Cannabis, financiou parlamentares pra criarem Leis proibindo-a. O Sr. Lammont Du Pont financiou a cadeia de jornais de Bill Hearst, comprador dos químicos da industria Du Pont, para atingir a opinião pública.
Andrew Mellon, proprietário da petrolífera Gulf Oil, Secretário do Tesouro dos EUA, emprestou dinheiro à Du Pont pra comprar a General Motors e forçou o Congresso a aprovar Leis pra criminalizar a maconha e pra diminuir impostos às petrolíferas... Petróleo gerador do nylon.” (retirado de: http://eunamatrix.blogspot.com/2009/06/ignorancia-parte-2.html)

 Li outra matéria há alguns anos, dizendo que a proibição da maconha nos EUA foi uma forma de (legalmente) discriminar os mexicanos  que viviam no país (manter certo controle social) – que eram em sua maioria agricultores e tinham o hábito de fumar a planta –, além de alavancar a venda de jeans – em função de favores políticos -, já que a cannabis era uma comum matéria prima para a produção têxtil, tanto é que se especula que canvas - como são denominadas as telas para pintura em várias partes do mundo - seja uma corruptela da palavra cannabis, da qual as telas para pintura e velas de navios, por exemplo, eram confeccionadas antigamente.

 E uma das minhas preferidas: capitalismo. A política e os lucros obtidos com o tráfico de drogas possuem não só uma estreita, como também “amigável” relação: 1- alguns traficantes podem ter se tornado políticos ao longo do tempo; 2- alguns políticos podem ter ser se tornado traficantes ao longo do tempo. 3- traficantes e alguns políticos mantêm uma relação na qual ambos lucram.

 O tráfico de drogas existe com a força que tem hoje, por causa da campanha de guerra contra as drogas. Quanto mais dinheiro se investe em seu “combate”, mais investimento é feito também por parte dos traficantes na administração de seu tráfico, isso inclui refinamento nas operações, especialização nas várias áreas das quais o tráfico depende e a compra de armamento bélico, mercado que em boa parte é alimentado pelo tráfico, gerando um ciclo bastante cômodo. E mais dinheiro empregado pelo governo no combate às drogas significa menos dinheiro empregado em outras áreas, além de uma possibilidade a mais para oportunidades de desvio de dinheiro público. O usuário alimenta o tráfico? A proibição alimenta o tráfico. Um grande exemplo conhecido há muito é o da lei seca nos anos 1930 nos EUA, que tornou célebres e ricos muitos gângsteres da época - entre eles o mais conhecido deve ser Al Capone.

 A legalização ou descriminalização das drogas diminuiria drasticamente os lucros dos traficantes, que migrariam para outras atividades ilícitas: uma grande falácia. Os traficantes já usam o dinheiro obtido com o tráfico para financiar crimes em outras áreas, e muitas vezes outros tipos de crimes são cometidos em função do tráfico de drogas. Mesmo que houvesse um aumento na prática de alguns crimes, o dinheiro jogado fora no combate às drogas poderia ser empregado no combate a esses crimes, com mais foco e eficiência. Digo “dinheiro jogado fora”, porque se esses investimentos realmente trouxessem um resultado desfavorável aos traficantes, não veríamos o crescimento e o aperfeiçoamento do tráfico ao longo dos anos.

 O tráfico provavelmente continuaria existindo com a legalização das drogas, mas em uma escala muito menor, porque já não compensaria tanto investimento na atividade nem no combate a ela. Seria algo como o contrabando de bebidas, cigarros, e produtos falsificados, que são um problema por sua qualidade, mas principalmente para os cofres públicos que deixam de arrecadar milhões com essa prática. Isso me leva a conclusão de que se existe algo que o governo permite, alguma parte de bastante influência está ganhando com a atividade.

 Muitos defendem que a maconha é uma porta de entrada para outras drogas. Isso é verdade, apenas porque o traficante que vende a maconha, também quer vendar a sua cocaína, o seu crack e qualquer outra coisa que lhe traga lucro. Apesar de não possuir vícios, sou um usuário esporádico de bebida alcoólica (como a coisa parece bem mais pesada posta dessa forma, não é?), sou a favor da descriminalização de quaisquer drogas, porque com controle sobre seu uso, o governo poderia aproximar as pessoas para um tratamento, ao invés de empurrá-las cada vez mais para perto dos traficantes. Além de que considero injusta essa proibição conveniente de drogas. Vamos proibir o uso das drogas? Então vamos definitivamente proibir o uso das drogas, aí podemos criar mais prisões e abarrotá-las ainda mais de gente. E você que sofre de enxaquecas, por exemplo, vai ser atirado atrás das grades se tomar alguma droga que alivie seu sofrimento e traga mais conforto e qualidade para sua vida.

 Dizer que o afrouxamento nas restrições às drogas influenciaria as pessoas em seu uso, é o mesmo que dizer que a liberação de drogas como bebidas alcoólicas, tabaco e café, por exemplo, incentiva as pessoas ao uso dos mesmos. É muito mais uma questão de informação e formação sócio-cultural do que qualquer outro fator que leva ao uso ou não-uso dessas substâncias.

 O foco de qualquer sociedade que aspira progresso deve ser a educação, a real conscientização do que é e do que deixa de ser, não uma oposição baseada no que alguns interessados simplesmente desejam que se acredite porque lhes é conveniente. É importante esclarecer as coisas, nunca mentir ou manipular dados. Maconha não mata, mas pode viciar, assim como o chocolate – substância psicoativa mais consumida no mundo -, ou o álcool – mas esse podendo levar à morte inclusive por intoxicação.

 Talvez se discuta tanto hoje em dia sobre a liberação da maconha, em boa parte pela pressão da indústria que visa lucros, na produção têxtil, de combustíveis, medicamentos e outros produtos industrializados que podem ser obtidos por meio da planta. E tudo isso com menor custo e maiores benefícios, já que o cultivo da cannabis ativa não necessita de agrotóxicos, cresce à grande velocidade, e toda a planta, desde suas sementes, pode ser aproveitada. Lucros que os governos não querem deixar de ganhar. Apesar de ser por motivos pouco nobres, espero que essa discussão, no final contribua para o amadurecimento da sociedade, mesmo que esse não seja o foco principal.

 Não apoio o uso de drogas, sou contra quaisquer vícios, mas antes, sou a favor da coerência e contra preconceitos em geral. Não sou viciado em qualquer droga, estou ciente dos males que causam, no entanto estou ciente dos males que causam o seu combate e dos benefícios que elas trazem em determinados usos. Um mundo sem drogas NUNCA existiu e nunca vai existir. Você, viciado em aspirinas ou descongestionantes nasais é um “drogado”, dependente de substâncias que trazem riscos à sua saúde sim, mas você é um usuário de drogas legais. Por isso você é menos “drogado”? Não, apenas as drogas são diferentes (para quem se interessa pelo assunto, sendo contra ou a favor, sugiro que assista ao documentário quebrando o tabu, atualmente nos cinemas).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Cuidado com os sentimentos

 Sim, é necessário cuidado com os sentimentos. Alguns significados de cuidar: cogitar; pensar; meditar; refletir; interessar-se por; interessar-se com; reparar. As pessoas costumam usar essa palavra como um sinal de perigo, para manter distância. O medo é prejudicial, como já disse mestre Yoda: “O medo é o caminho para o lado negro. O medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento”.

 Deixando o mestre jedi um pouco de lado, o medo nos impede de viver plenamente, existir é fácil, viver é bem mais complicado. Viver te faz correr riscos, você pode se machucar, mas quem quer viver enclausurado numa bolha? A questão é se vale a pena viver algo. Tudo vale à pena se a alma... Não! Ridículo! Ter o mínimo de bom-senso é necessário: têm coisas que realmente não valem à pena, todo mundo deve ter um repertório com alguns exemplos próprios, mesmo assim insistem em usar esses versos para justificar erros ou fingir um não-arrependimento – muitas vezes por antecipação. Com esses momentos que sentimos que algo não valeu à pena, o importante é aprender com a experiência, não errar novamente, o que não significa não arriscar, e sim calcular melhor os riscos. Essa é uma dica para administrar qualquer situação: riscos calculados.

 Só se vive uma vez – para os que crêem em outras vidas: só se vive uma vida de cada vez. Então faça essa vez valer à pena. Tem medo de morrer de amor? Mas quem vive para sempre? O que você deve perguntar-se é se vale à pena. Para isso é importante ter cuidado. Você gosta de alguém? Esse alguém te faz bem? Cuide desse sentimento. Esse alguém gosta de você? Cuide do sentimento dessa pessoa também. Pense a respeito, reflita, interesse-se. Isso não quer dizer manter distância, na verdade é aproximar-se, prestando a atenção necessária, e o quanto de atenção você vai dispensar acho que depende do quanto você se preocupa em “viver” esse momento.

 E como não sentir medo? É natural sentir medo, o que não devemos deixar, é que ele nos domine. Considero o medo intimamente ligado à confiança, se você confia, o medo não te atingirá. Se você não confia, isso se transformará em medo, e com medo tendemos a fazer coisas algumas vezes muito mais estúpidas do que com sua ausência. A maior confiança deve ser em você mesmo, e se essa confiança te levar a caminhos tortuosos, enquanto você tiver a consciência tranquila, sabendo que suas atitudes foram de acordo com o que você considera correto, que você agiu da forma que melhor pôde e, com outras pessoas, da forma como gostaria que agissem com você, pode ter certeza que se algo foi perdido nesse caminho escolhido, não foi importante, ou teve apenas a importância que deveria ter por determinado tempo, e agora sua vida pode seguir melhor. Sem olhar pra trás com nostalgia ou ressentimento, para quando olhar para o futuro não ter medo. E poder viver plenamente essa vida única, essa única vez.

Mas se lhe faltou um pouco de virtuosismo ou coragem nesses momentos de viver, talvez o resultado seja pelo menos em parte, um pouco do que você semeou. Aí talvez seja bom repensar um pouco suas atitudes, porque mais fácil é você mudar a você mesmo do que mudar o resto do mundo. Como já disse (aparentemente) Paulo Roberto Gaefke, num poema atribuído (indevidamente) a Carlos Drummond de Andrade: “o que importa é que sempre é possível e necessário "Recomeçar".” – mesmo com as críticas ao texto depois que descobrem que a autoria não é de Drummond, acho grande a beleza dessa frase, e que é auto-ajuda apenas para quem acha que precisa de tal coisa ou para os pseudo-críticos de plantão, que adoram alfinetar a esmo. Para mim é um belo ponto de vista.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Eu faço meu destino! Faço?

 Há muitos anos já, eu pensei sobre o destino e o quanto nós controlamos a vida que vivemos. Não tenho certeza, mas talvez a minha percepção a respeito disso tenha surgido através do conhecimento da 3ª lei de Newton: “toda ação provoca uma reação de igual intensidade, mesma direção e em sentido contrário”. É claro que essa lei não se aplica exatamente dessa forma nas relações sociais humanas, mas uma coisa é fato: toda ação – seja qual for sua natureza - gera uma reação. Mesmo a opção de ficar parado, não se manifestar diante de algum acontecimento, é uma ação. Você realizou a ação de permanecer no mesmo lugar, ou de não responder ou, seja lá qual seja a situação, você agiu. A total inércia, o completo fazer nada levado ao pé da letra, é algo impossível de por em prática.

 Assim, pensei que se pudermos determinar as variáveis existentes no momento de determinada ação, podemos prever a reação. Isso é o mesmo que prever o futuro, é dizer que tudo o que acontece, acontece porque deveria acontecer. Essa idéia parece assustadora para muitas pessoas, de considerar que talvez suas escolhas, decisões, não seja bem “suas”, mas simplesmente fatos que aconteceriam em função de determinadas situações. Um exemplo: um assaltante aponta uma arma pra você. Qual sua reação? As possibilidades são quase infinitas: você pode dar um soco, um chute, chorar, correr, ficar parado olhando para o assaltante, desmaiar, etc.. Mas se nós pudéssemos determinar como toda essa informação – o assaltante lhe apontando a arma – é processada por seu cérebro, levando em consideração as variáveis externas, obviamente poderíamos saber qual seria sua reação. O problema é que na prática isso parece impossível, porque um computador, para fazer uma análise dessas teria de levar em conta muitas, mas muitas variáveis: por exemplo, sua trajetória de vida até aquele momento, tudo o que se passou e tornou você a pessoa que você é hoje; teria que saber como se dá a transmissão de informações em seu organismo, a quantidade de substâncias liberadas em determinada situação e suas consequências para seu organismo especificamente, e as especificidades genéticas herdadas de seus pais; além dos fatores externos como iluminação, vento, temperatura, som no ambiente etc.. E se houvesse como determinar e analisar todas essas informações, para realizar a mesma experiência no minuto seguinte, as variáveis teriam de ser todas alteradas, pois tudo estaria um minuto diferente.


 Mas essas coisas nao passavam de meros achismos, então busquei referências a respeito, que pudessem sustentar minha argumentação.

 “Um experimento relacionado realizado posteriormente por Alvaro Pascual-Leone envolveu pedir a pessoas que escolhessem ao acaso qual mão mover. Ele descobriu que estimulando diferentes hemisférios do cérebro usando campos magnéticos é possível influenciar fortemente a mão que a pessoa escolhe. Normalmente destros escolhem mover a mão direita 60% das vezes, por exemplo, mas quando o hemisfério direito é estimulado eles escolhem sua mão esquerda 80% das vezes. O hemisfério direito do cérebro é responsável pelo lado esquerdo do corpo, e o hemisfério esquerdo pelo direito. Apesar da influência externa sobre sua tomada de decisão, as pessoas continuam a relatar que acreditam que sua escolha da mão foi feita livremente.” (Retirado da Wikipédia).

 Com uma simples variação, pode-se obter 80% de chances de certeza sobre uma ação humana, regida por sua “própria vontade”, seu “livre-arbítrio”.

 "os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar" (Spinoza, Ética, apêndice do livro 1).

 E praticamente sintetizando meu pensamento, cito Laplace:

 “Nós podemos tomar o estado presente do universo como o efeito do seu passado e a causa do seu futuro. Um intelecto que, em dado momento, conhecesse todas as forças que dirigem a natureza e todas as posições de todos os itens dos quais a natureza é composta, se este intelecto também fosse vasto o suficiente para analisar essas informações, compreenderia numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do menor átomo; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, seria presente perante seus olhos” (citação na introdução do Essai philosophique sur les probabilités 1814)

 A teoria do caos defende a aparente aleatoriedade de certos eventos. Como exemplo, a alegoria do efeito borboleta (parte da teoria do caos): o bater de asas de uma borboleta pode ser responsável pela formação de um furacão do outro lado do planeta. Essa aparente aleatoriedade se dá pela impossibilidade de calcular todas as variáveis possíveis para determinado evento sem limites rigidamente definidos para que aconteça. Seria um argumento contra o determinismo, porém, a atual incapacidade de cálculo, não anula a possibilidade de sua existência.

 Os cristãos que talvez queiram defender o “livre-arbítrio” têm um dilema a resolver: como há livre-arbítrio se Deus é onisciente? Tanto é que algumas igrejas defendem um “meio-livre-arbítrio”, onde Deus tem seu plano, mas é escolha do homem segui-lo ou não. É incoerente, porque se ele é onisciente ele sabe qual será a escolha. E outras igrejas dizem que Deus já tem determinado os que serão ou não salvos. Alguns também defendem que Deus sendo onipotente, pode também querer decidir não saber o que irá acontecer. Usando como exemplo Cristo, que era Deus e ainda assim ignorante do futuro. Bom, Deus escolher pela ignorância dos fatos, não os torna imprevisíveis, e considero um jeito bastante sádico de ver Deus: um diretor que após ter produzido todo o filme, decide apagar sua memória simplesmente para poder melhor apreciar o entretenimento que criou.

 E qual o problema então? Parece-me que as pessoas que defendem a capacidade de fazer seu destino se sentem desestimuladas diante dessa perspectiva, e pensam que é uma desculpa para deterministas tirarem a responsabilidade de seus ombros. Não vejo problema numa vida determinista, porque pelo menos por enquanto, todos vão viver suas vidas sem saber do dia de amanhã. Isso não é tirar a responsabilidade, as leis humanas continuam agindo sobre as pessoas. O que fica em dúvida é a existência de uma verdadeira moral. Moralmente as pessoas não seriam condenáveis, já que seus atos são produto inevitável de determinados acontecimentos, o que por sua vez não os deixa livre de uma punição por esses atos, que apesar de “inevitáveis”, foram cometidos por eles.

 Viva e deixe viver! Realmente é estranho pensar que tudo acontece exatamente do jeito que deve acontecer, mas por tudo que eu disse acima, considero um pensamento bastante lógico. Se faz sentido, por que não aceitar? Por simples fé de que não é assim? A fé pode ser usada em ambos os lados, o que eu acho que deixa o determinismo em vantagem. Enfim, penso assim porque faz sentido, e isso não tira a beleza de viver, é apenas uma beleza diferente. Com os olhos voltados a uma perspectiva de que as coisas não são ao acaso, o que aponta para um propósito (que esteja claro: eu não afirmo que haja realmente tal propósito). Existe mesmo? Qual? De quem? Essas sim são questões polêmicas.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Você vê?

 Algumas belezas não são para todos os olhos. Algumas coisas têm sua beleza no aroma, na textura, no modo como as folhas das árvores caem sobre si com o vento. E outras, ainda, têm de ser abertas, descascadas, e podem ser realmente apreciadas apenas se devoradas, sem medos, preconceitos ou pudores. Há poesia nos cantos mais escuros e improváveis. Você vê?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O que te segura

 - Não vou poder sair nesse fim de semana. Tenho duas provas na segunda-feira e nem comecei a estudar ainda. To quase entrando em desespero com essa falta de tempo.

 - Por que você se desespera? Qual é sua âncora? O que te faz permanecer no mundo? Quem ou o que segura a linha que mantém seu corpo preso à vida?

 - O que você quer dizer?

 - Acho que todo mundo precisa de algo assim, para manter seus pés no chão, ou pelo menos te segurar um pouco para não se perder. E quando você se percebe quase solto, com a impressão de que a linha que te segura é extremamente fina, e que você não tem ainda certeza absoluta do quão forte são as mãos que a seguram? Ou que você não tem muita noção do próprio peso que pode ter nessas mãos?

 - Acho que todos criam suas linhas, consciente ou inconscientemente. Você não tem uma?

 - Sim. Mas é bem desagradável acordar quase todos os dias, sentindo que a linha pode arrebentar a qualquer momento, que os elos da âncora possam se romper e te deixar à deriva. Porque aí basta um sopro, uma brisa um pouco mais forte, uma onda um pouco mais violenta, pra te levar pra longe, para a exosfera e além. Lembro-me de certo dia:

 - Eu saí do quarto, cheio de gente jogando videogame. Passei pelo corredor, fui até a janela da sala e fiquei olhando por ela. Eu achava linda aquela vista. Os holofotes iluminando o prédio em frente, de cima a baixo. O céu todo negro, o asfalto e as arvores na calçada sendo iluminados pela luz branca que vinha das lâmpadas dos postes. A brisa refrescante entrando pela janela. E aquele sentimento de saudade e nostalgia em mim, que eu nem sei direito do que era. Ela se aproximou e se encostou ao meu lado. Eu, com os braços cruzados sobre a janela, segurei sua mão, que também estava sobre a janela e cruzada sobre seu braço. Ela disse: “O que foi? Por que você está assim?”. Eu respondi: “Você sabe por quê. Ah, nada.” A verdade é que ela era minha âncora no momento. Percebe que situação de desespero? Se ancorar em algo que não foi, não é e nunca será seu? Eu sabia que não era o primeiro, e que também não seria o último. Ouvi alguém se aproximando e me afastei dela e da janela, e fui em direção a cozinha. Era o namorado dela, que a abraçou, e depois eu já estava colocando conhaque no meu copo.

 Continuo:

 - Sinto cansaço, de tudo. Não sou contra a filosofia de que a vida é um grande ciclo. Mas o meu parece tão repetitivo nesse aspecto, de perder o objetivo. Meu objetivo de certa forma nunca é um fim, é sempre o meio. O objetivo torna-se sua própria manutenção. Um ciclo – esse sim – que eu acho que não deveria terminar tantas vezes, porque começá-lo de novo, de novo e de novo, é um grande pé no saco.

 - E você se sente começando de novo?

 - Sinto. Mas sabe aquela impressão de ato final? Então. É assim que sinto. Sinto-me sem mais linhas ou elos reservas. Tudo se desvanecendo e eu junto com esse tudo. Só resta essa linha, que eu não consigo ver a espessura, mas a vejo brilhar bastante, mesmo olhando de longe. E estou me agarrando a ela, aos poucos, mas cada vez mais forte, e puxando meus pés de volta ao chão.

 - Isso não é egoísta? Usar alguém assim como ancora? Jogar todo esse peso sobre alguém? Você mesmo deveria se sustentar.

 - Mas sou assim, e não é injusto, é uma troca. Proteção em troca de proteção, apoio em troca de apoio. Pois enquanto eu conseguir me manter de pé, farei sempre o possível por quem me segura, carregaria seu peso sobre minhas costas todos os dias que preciso fosse. Mas meu próprio peso, sozinho, infelizmente não consigo levar. Vai ver, eu realmente existo pra proteger, então esse deve ser o egoísmo mais altruísta que existe.

 - Acho que você tem problema.

 - Pode ser.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Amizades e amizades

 Entramos na loja de conveniências do posto de gasolina. A idéia era comprar uma garrafa de vinho para cada um, estávamos em cinco pessoas ali. Logo depois de nós, entrou uma guria e dois caras, todos com jeito de “mano” – mano e minas costuma ser o termo usado pra definir determinado estereótipo de alguns garotos e garotas, que normalmente inclui gostar de rap, usar roupas largas, bonés colocados de maneira excêntrica sobre a cabeça, as meninas com tranças e faixas no cabelo, um jeito de andar esquisito, como se tivesse com algum problema de postura e algum outro problema nas pernas, e um conjunto de gírias bastante peculiares. Começam a olhar as bebidas e eu percebo que um deles pega uma garrafa pequena de uísque e a coloca sob a blusa. Nesse momento meus amigos estão pegando as garrafas de vinho e levando ao balcão onde havia apenas um atendente. Fico indignado com a situação: “não vou deixar esses manos saírem daqui de boa com esse uísque enquanto nós estamos pagando pelo nosso vinho.” Fui até onde eles estavam. À medida que eu me aproximava, eles se afastavam da prateleira pelo outro lado. Quando cheguei na frente do uísque peguei uma garrafinha e coloquei sob a blusa também.
- O, Daniel! Passou o meu vinho aí já? Mas daquele outro, não esse de vocês. Depois agente acerta tudo.
- Ah! Que frescura Billy! Beleza.
Saímos da loja, eles vão para o carro do William. Eu passo pela janela do carona e jogo a garrafa no colo do Daniel.
- Da onde isso?
- Vamo sair fora.
Subo na moto e vamos para uma esquina próxima à casa de uma amiga beber nosso vinho – agora acompanhado de uísque.
- Ow! Não acredito que você pegou isso lá.
Eu explico toda a situação, que eu não poderia ficar de braços cruzados vendo os “manos” saindo com a bebida sem pagar enquanto nós, mesmo meio quebrados de grana, estávamos pagando.
 - Ah! Mas agora eu vo ficar louco Billy! Você sabe que eu não posso tomar uísque huahuahuahuahua.
William fala:
 - O Billy é foda! Huahuahuahua.
 E bebe um pouco do uísque, que foi aberto no carro mesmo. Juntam-se a nós, a Pauli – a amiga que morava na rua onde bebíamos - e o Leonardo – namorado dela -, e entregamos as garrafas de vinho que compramos para eles. Eu tive a infelicidade de escolher um vinho que não vinha com uma tampa fácil de abrir igual aos dos outros, o meu tinha uma rolha, e nós não tínhamos saca-rolhas. Tive que usar a velha técnica de prender a garrafa entre os pés, no chão, enquanto forçava a rolha para dentro da garrafa com a chave mais comprida que eu tinha, usando as mãos e apoiando o peso do corpo sobre elas. Tinha que ser rápido e com força - pra não machucar muito as mãos -, depois que a rolha entra, basta beber tomando cuidado para que a rolha não obstrua o gargalo da garrafa. Bebemos os vinhos. Depois de algum tempo de "treino", uma garrafa de vinho não é o suficiente para deixar uma pessoa totalmente feliz e nem por muito tempo, então preparamos um tubão:
 A definição que considero mais correta para “tubão”, é basicamente, qualquer bebida alcoólica misturada com qualquer refrigerante. A bebida alcoólica dever ser preferencialmente destilada e com mais de 30% de volume alcoólico, misturando-os numa proporção entre 70% e 40% de refrigerante – a variação fica a gosto e normalmente muda à medida em que se bebe. Essa é a receita clássica, mas há variações com bebidas mais fracas e suco substituindo o refrigerante, o que eu já classificaria como “suco gummy”. O nome “tubão”, imagino que tenha relação com a garrafa de dois litros de refrigerante usada em seu preparo. Quando há espaço suficiente na garrafa – o espaço algumas vezes é arrumado jogando fora uma quantidade do refrigerante, caso ninguém queira bebê-lo puro -, faz-se a mistura direto nela, assim fica o tubão preparado para beber direto no gargalo – os “manos” têm o costume de torcer e amassar a garrafa a medida em que ela vai esvaziando, não tenho certeza do porquê.
 Com uma garrafa de um litro de pinga e uma garrafa de refrigerante de dois litros sabor limão, preparamos o clássico drink em alguns copos descartáveis.
 Daniel visivelmente alterado - ja tinha acabado com a pequena garrafa de uísque quase sozinho:
 - Vamo beber lá na frente de casa!
 Eu peguei a minha moto e fui com a Carla, namorada do Daniel, na garupa. O Daniel e a Leni vão com o William no carro dele. A pauli vai no carro do Leonardo. Encostamos os carros e a moto próximos ao meio-fio, em frente à casa do Daniel. Preparamos mais alguns copos e ficamos conversando e bebendo.
A Leni, a Carla e o William estão na calçada em frente ao carro. Eu estou muito bêbado – assim como acho que estavam todos ali – entre o carro e a Carla, conversando com a Pauli. O Daniel conversa com o Leonardo, ambos sentados no meio fio, próximo à roda traseira do carro de Leonardo. A Pauli entra no carro do namorado pelo lado do motorista e liga o rádio. Eu abro a porta do carona e sento ao seu lado.
 Debruço-me sobre ela e a beijo.
 - Billy! Seu louco! O Leonardo ta aí fora.
 - Eu sei.
 E a beijo de novo. Nossos três amigos olham para dentro do carro parecendo um pouco surpresos, acho que não com o beijo, mas sim com o momento em que ele acontecia. Leonardo fala para Daniel:
 - O Daniel, você que é bem amigo do Billy, me responde uma coisa. Eu sei que ele e a Pauli são super amigos, tão sempre juntos, mas você não sabe se eles ficaram alguma vez? Sei lá... No tempo que eu e ela não tava namorando?
 Daniel percebeu os olhares estranhos voltados para o interior do carro e imagina o que está acontecendo ali. Ele olha para Leonardo e diz:
 - Ah, acho que nunca rolou nada não. Acho que eles só são bem amigos mesmo.
 A Pauli me empurra de vez para fora do carro, eu saio com meu copo vazio e me junto ao trio de amigos que estavam ali fora e encho mais um copo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Fazer o melhor impossível

 Escolhi este título, pelas impossibilidades a que nos impomos algumas vezes – sem nos darmos conta dessa situação. Até onde pode aguentar um ser humano? Até onde lhe é possível. Todos nós temos um limite do que e quanto podemos suportar, física e metafisicamente falando. Cada um tem sua própria “cruz” a carregar, mas comparações entre uma pessoa e outra - levando apenas isso em consideração -, são absurdas, porque assim como diferem as “cruzes” em peso e tamanho, diferem também em força os ombros que as carregam.

 As pessoas cobram constantemente e desmedidamente, a si mesmas e a outras pessoas, sem parar pra pensar nos pormenores. Porque o importante é agir e ter sempre mais, seja do que for. A condição humana de certo modo parece que se resume a uma incontrolável, sádica e constante competição – mesmo que seja uma competição contra si mesmo, uma autoflagelação. Eu penso o quanto esse excesso de cobrança pode ser prejudicial. Precisamos ter metas, objetivos, e fazer o possível para alcançá-los. Mas o “possível” para uma pessoa não é necessariamente o “possível” para outra. A verdade é que sempre haverá alguém melhor ou mais forte – e isso é algo bastante difícil para uma pessoa orgulhosa admitir -, o que parece exceção a essa afirmação é marketing.

 Lembro-me de um trecho de “os sofrimentos do jovem Werther” de Joahan Wolfgang Von Goethe, em que Werther discute com Alberto sobre o suicídio. Alberto diz que é uma fraqueza, porque é muito mais fácil acabar com a vida do que suportá-la. O argumento já começa falho, pois levando em consideração o que afirmei anteriormente, há “vidas” e “vidas”. Werther rebate comparando o desespero do suicídio a uma doença mortal, que ataca, ao invés do corpo, o espírito. E que condenar uma pessoa por sucumbir a uma doença que seu corpo não pode suportar é uma idéia absurda, e assim também o é com o espírito. Mas o ponto para o qual quero chamar atenção aqui não é o suicídio, é o limite.

 As pessoas se culpam – e a outras pessoas também – por não conseguirem determinado bem – material ou não. Culpam-se por dizerem algo que acham que não deveriam ter dito. Culpam-se por fazerem algo que acham que não deveriam ter feito. Condenam a si e a outros constantemente. O que realmente deveria importar é se você fez tudo o que lhe foi possível fazer, para determinada situação em determinado momento. Como você pode condenar alguém por não fazer algo que não lhe era possível fazer? Eu comparo esta situação a um balde sendo cheio de água – acho que muitas vezes essas analogias são disparates, como costuma acontecer bastante em alguns “provérbios chineses”, mas neste caso acho que a analogia funciona bem -, em um certo momento esse balde vai transbordar, e você vai culpar o balde por não suportar toda a água que foi jogada sobre ele? O balde suportou o quanto lhe foi possível.

 O importante é fazer o melhor que se pode fazer. Nessa questão, o melhor torna-se um tanto subjetivo, porque depende de fatores como noção de certo e errado, moral, ética, etc.. Mas VOCÊ sabe – ou deveria começar a perceber – que faz o melhor que pode. Quem perde pelo simples prazer de perder? O melhor que podemos fazer nem sempre é o melhor que achamos que poderia ser feito, mas é sensato lamentar-se por isso? E como saber o que é possível? Bom, isso me lembra La Place, Newton e Hawking. E fica para outro texto, sobre possibilidades.

 Fazer o que se considera correto, sem culpa, e não conflitando seus ideais e interesses, acho um bom modo de se fazer o melhor possível. Seu balde transbordou? É a natureza das coisas. Aceite o que for inevitável, e faça o melhor que lhe for possível fazer.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

D. H. Lawrence, Charles Bukowski, Ernest Cline

 Apesar desse blog se destinar a textos de minha autoria, considero válido postar aqui algumas grandes influências para o meu conto: “Autopiedade”. O título e o personagem, foram claramente uma referência ao excelente e breve poema de D. H. Lawrence, que reproduzo abaixo:


Self Pity

I never saw a wild thing
sorry for itself.
A small bird will drop frozen dead from a bough
without ever having felt sorry for itself.


(tradução)
Autopiedade

Eu nunca vi uma coisa selvagem
sentir pena de si mesmo.
Um pequeno pássaro cairá morto de um galho, congelado,
sem nunca ter sentido pena de si mesmo.


 Tradução retirada do livro “Tudo que vive é sagrado”, poemas de William Blake e D. H. Lawrence (traduzido por Mário Alves Coutinho). Editora Crisálida, 2001. Esse poema ficou bem famoso por aparecer no filme "até o limite da honra" (G.I. Jane) de 1997, com a Demi Moore. Inconscientemente, outro trabalho que talvez tenha contribuído para meu texto, foi o poema "bluebird" de Charles Bukowski:


Bluebird
Pássaro azul

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas sou mais forte que ele
there's a bluebird in my heart that, wants to get out
but I'm too tough for him

Eu falo "fica aí dentro,
eu não vou deixar ninguém te ver"
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see you

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
there's a bluebird in my heart that, wants to get out

mas eu taco uísque nele e respiro fumaça de cigarro
e as putas e os barmen e as caixas do mercado
nunca sabem que ele está aqui dentro
but I pur whiskey on him and inhale cigarette smoke
and the whores and the bartenders and the grocery clerks
never know that he's in there

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas sou mais forte que ele
there's a bluebird in my heart that, wants to get out
but I'm too tough for him

Eu falo "fique aí, você quer me pôr em apuros?"
"você quer estragar meus trabalhos?"
"você quer estragar as vendas dos meus livros na Europa?"
I say, stay down, do you want to mess me up?
you want to screw up the works?
you want to blow my book sales in Europe?

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
there's a bluebird in my heart that, wants to get out

mas eu sou mais esperto,
só deixo ele sair de noite, às vezes
quando todos estão dormindo
but I'm too clever,
I only let him out at night sometimes
when everybody's asleep

Eu falo "sei que você está aí, então não fique triste"
daí o ponho de volta, mas ele ainda canta um pouco aqui dentro,
Eu não o deixei morrer totalmente.
I say, I know that you're there, so don't be sad.
then I put him back, but he's singing a little in there
I haven't quite let him die.

e a gente dorme junto desse jeito
com nosso pacto secreto
e é bacana o suficiente para fazer um homem chorar
and we sleep together like that
with our secret pact
and it's nice enough to make a man weep

mas eu não choro, você chora?
but I don't weep, do you?


 Digo inconscientemente, porque só depois de ter escrito o texto, foi que me lembrei desse poema. E uma referência mais recente que penso valer a pena dar uma olhada, é o seguinte vídeo:



 Mais especificamente, a parte que diz que o ser humano é o único animal que sente a necessidade de ser feliz.

 O texto do vídeo é atribuído a Ernest Cline, geek que escreve alguns poemas, blogueiro etc., e é o principal roteirista do filme “Fanboys” - Quem curte “Star Wars” ou um bom filme deveria assistir. Aqui um ótimo texto escrito por ele – uma verdadeira obra-prima nerd :) :


"Autor de Pornôs Nerds"

Eu notei que não parece haver muitos filmes pornôs que são feitos para caras como eu.

Todos os filmes de putaria que eu vejo são mirados para machos-alfa-bebedores-de-cerveja-em-bares-de-esportes, caras que gostam de suas mulheres burras e submissas, caras que só gostam de meter com ninfetas monossilábicas famintas por pica, com peitos do tamanho de melões e três palavras no vocabulário.

Filmes adultos são povoados dessas mulheres feitas com lipoaspiração e injeções de colágeno, muitas que recorreram à cirurgia e auto-mutilação, numa tentativa de se parecer do jeito que lhe pediram para aparecer.

Essas não são mulheres. São objetos. E esses filmes não são eróticos, são patéticos. Essas coelhinhas-cabeças-ocas-trepadeiras não me atraem. Me enojam. E não é porque eu sou contra pornografia. Quero dizer, sou um homem. E homens precisam de pornô. É um fato: "Como um pastor precisa de dor, como uma agulha precisa de uma veia", homens precisam de pornô.

Mas eu não quero essa pornografia machona, misógina, que odeia as mulheres. Eu quero filmes pornôs que são feitos para caras como eu: caras que sabem que a coisa mais tesuda do mundo é uma mulher que é mais esperta que você.

Você pode comer todo o "time de cheerleaders", mas eu quero a garota com suéter e óculos de tartaruga, Betty Finnebowski, a sabichona. Oh, sim. Eu quero copiar a lição de Trigonometria dela, e então fazer um amor louco e apaixonado com ela, por horas e horas, até que ela relutantemente pede pra parar, porque não quer perder Battlestar Gallactica. "Summa cum Laude", meu bem! Isso é o que eu chamo de erótico.

Mas você acha esse tipo de mulher num filme adulto comum? Não. Por isso que eu vou começar a escrever e dirigir um Pornô Nerd. Eu serei a quintessência do Cinema Pornô Nerd. E as mulheres nos meus filmes serão do tipo que levarão os nerds como eu à loucura e ao desejo.

Estou falando sobre as garotas que costumavam foder com a "curva de aprendizado". As garotas do Clube de Latim e do Projeto de Extensão Universitária. Gatas com roupas estranhas, aparelhos nos dentes, quatro-olhos e que estão em primeiro lugar no ranking de notas da faculdade. Ratas de biblioteca, com Currículos LATTES e chips nos ombros.

Minhas estrelas pornôs virão em todos os tamanhos e estilos. Minhas estrelas pornôs estarão ocupadas demais trabalhando no TCC para ir à academia.

Em meus filmes pornôs, as garotas nem precisarão ficar peladas. Elas levarão os caras à sala de audiovisual e surrarão eles no xadrez, e então falarão por horas no Princípio da Inconstância de Heisenberg, e mesclando metáforas sociais nos filmes do Alien.

Compre ações em companhias de creme pra mãos, porque vai haver escassez no mercado...

E não estou falando só de pornô hétero. Não mesmo. Tem que haver filmes de putaria para meus irmõs nerds de todas as orientações sexuais. Filmes pornôs-gay-nerds como "Caverna do Drag-queen".

Essa idéia é uma mina de ouro. Eu farei milhões. Porque no país inteiro existem milhares de programadores e engenheiros mecatrônicos, e eles não possuem a satisfação que realmente precisam. E você pode ajudar...

Se você é uma mulher inteligente, interessada em entrar para a indústria do cinema adulto, e pode dizer o nome do planeta natal de Luke Skywalker, então você está dentro. Não importa se você acha que está acima do peso ou não é atraente. Não importa se acha que não é bonita. Você É bonita...

E eu farei de você UMA ESTRELA.
(retirado do site http://thecokeinc.blogspot.com/2008/03/autor-de-porn-nerd-de-ernest-cline.html )


 No momento, não tecerei maiores comentários sobre os escritos acima. Deixo que as poucas pessoas com um tempinho livre para dar uma passada aqui tirem suas conclusões.

Autopiedade

 À tarde, o vento sopra cada vez mais forte. O céu escurece, como nos dias em que parece que a noite se apressa em chegar. É inverno e as árvores são distantes umas das outras. O pequeno pássaro aninha-se, solitário, tentando se proteger do frio. A noite cai em definitivo e o breu toma conta da paisagem. O pássaro nada sente, além do frio, do balançar dos galhos, da árvore, do frio. A tempestade aumenta, galhos se quebram e o pequeno ninho, do pequeno pássaro, voa com o vento. Desprevenido e confuso o pássaro tenta equilibra-se no ar, mas ele nada sente, além do vento revirando seu corpo e seu corpo batendo com violência em uma árvore, para em seguida bater com violência no chão. Seu corpo dói, suas penas estão encharcadas, seu corpo é pressionado pelo vento contra o vão ao pé da arvore. E então ele adormece, porque nada sente.

 Na manha seguinte, a geada no solo abraça o pequeno pássaro, seu corpo inerte. E os pequeninos cristais de gelo começam a se desmanchar quando os raios de sol começam a tocá-los. Passam-se horas e o pássaro desperta. Vagarosamente levanta, tenta mover as asas e pia, porque nada sente. Quando seu corpo recupera o calor e ele consegue voar, junta gravetos pela mata e constrói seu ninho, galho após galho e aninha-se ao entardecer. Adormece, sem nada sentir.

 O vento da tempestade arrastou o pássaro para muito longe de seu antigo ninho. Quando amanhece ele pia e se prepara para voar. Abre suas asas e lança vôo. Por entre as arvores de casca seca ele procura algum fruto. A fome aperta seu estômago e o impele a voar, incessantemente. E é o que ele faz, porque nada sente. Até que aparece à sua frente uma frondosa árvore, cheia de viço, cor. De seus galhos pendem frutos que brilham e os olhos do pequeno pássaro, que nada sente, até começam a brilhar. Ele pousa em um dos galhos e se farta daquele fruto enquanto o cinza das outras arvores enche-se de cinza, o ar da manhã enche-se de aroma e o pequeno coração do pássaro enche-se de calor. Quando se dá conta – pela primeira vez em toda sua existência ele se dá conta -, ele sente. E sente a alegria de seu corpo aquecido ao sol, do vento passando por suas penas, do seu próprio piar saindo de seu bico. E ele voa feliz e sentindo, até chegar ao seu recém construído ninho. Que agora é seu recém destruído ninho. Ele não entende. O ninho não existe mais, só os galhos que o compunham, espalhados pelo chão. O pequeno pássaro não entende, mas sente. Lembra-se da noite tempestuosa. Agora ele sente o frio, sente a dor em seu corpo, sente os inúmeros vôos em busca dos galhos certos para o novo ninho e, quando percebe as nuvens se fecharem, sente medo.

 Agora, ao pequeno pássaro só resta o desanimo e o passar das horas quando olha para onde deveria estar seu ninho. Ele se lembra da árvore, do fruto. Começa seu vôo até aquele maldito lugar, que lhe deu tanta felicidade, porque agora o que ele queria era a alegria daquela manha, ou o não-sentir de sua antiga vida. Ao aproximar-se do local percebe fogo na árvore frondosa e nas árvores secas ao redor dela. Pequenas gotas de chuva começam a cair, já é tarde. E cada pequenina gota o pássaro sente. Sente cada segundo da noite anterior e do gelo quase partindo suas pequenas garras pela manhã. E sente também todas as outras tempestades pelas quais passou, algumas piores e mais crueis. Então ele voa para o alto e, em seguida, mergulha em direção a árvore incandescente. E se enterra na brasa vermelha que se tornou o tronco da árvore. Ele arde, ele sente. Sente o calor, uma alegria triste, uma tristeza feliz. Deseja que o fogo não o abandone. Deseja que o fogo o segure firme em seus braços. O pequeno pássaro não pia, apenas aguarda parar de sentir, de tanto que sentiu. Porque em um dia ele sentiu o suficiente por sua vida inteira. Naquele dia sua vida inteira ele sentiu. Por ser apenas um pássaro, que acabara de começar a sentir, não entendia as coisas, apenas as sentia, e a última coisa que sentiu foi: “maldito o dia em que comecei a sentir”.

sábado, 4 de junho de 2011

Romantismo virtual

 “Ela ainda não me respondeu se vamos nos encontrar amanhã. Vou mandar uma mensagem”
 - ow... vc nao disse se agente vai se v amanhã
 - depende a hra...q hras vai rolar?
 - disseram q se xegar antes das 21hs nao paga entrada. eu qero xegar as 18hs pq ateh 20:30 eh double drink huahuahuahuahua
 - 18 hrs eu nao consigo chegar.... So la por 19h... Pq eu nao vou p aula d noite.. Dai preciso ficar la d tarde! Vc qm sabe, so fico meio sem graça d aparecer la sozinha! Bjoo boa noite =*
 - como assim sozinha??rsrs agnt se fala amanha.chegamos as 19hs entao rs ;) boa noit! durma bem! sonhe comigo! bjs!!!
 - achei q vc ia as 18h dai eu ia chega la as 19 sozinha..rsr mas beleza então! Podexa...ve se faz o mesmo... Mas num vale sonho pornográfico... Por favor...pervertido! =/
 “preciso pensar rápido. Essa é minha chance de escrever algo realmente bom. Algo que a deixe com as pernas tremendo, com desejo, envaidecida. Vou exaltar minha admiração, não apenas por sua beleza, mas suas qualidades em geral. Mas tenho que escrever já! Antes que ela vá dormir”
 E as palavras vão surgindo, uma após outra, junto com seu pensamento:
 - :/ como assim?? q culpa eu tenho se t desejo a todo momento? se longe de vc soh penso qndo vo poder t encontrar d novo? Se qndo to perto nao consigo m conter, independente d ond e com qem stejamos, d tanto q t qero? :( se t admiro de tantas formas, por vc ser a pessoa special q eu vejo q vc eh? se t axo toda linda, em todos os sentidos, e adoro cada parte do teu corpo? :) sua boca, suas pernas, seus seios... vc! bjs!!!
 “Nossa! Perfeito! Praticamente uma poesia escrita em prosa. Espero que tenha dado tempo de ela ler. O que será que vai me responder? Acho que consegui exprimir tudo com sinceridade, e com toda certeza ela perceberá isso. Que satisfação estou sentindo agora. Mal posso esperar por sua resposta. Sei que ela não é das garotas mais românticas e sensíveis do mundo, mas depois dessa mensagem, é claro que ela vai ceder um pouco”
 - pervertido!!! hahahahahahaha... Vou dormir porque vai ser foda acorda 7h amanha bjo
 “Ou não :/”