Sempre me arrependo,
mas o que
fazer?
As coisas não mudam de um dia para o outro
e assim as promessas continuam
descumpridas.
Dói
a falta
mas dói tanto a decepção
de ter
a esperança, acreditar
e no fim é o mesmo
fim
Contos, crônicas, poesias, literatura em geral. Textos próprios baseados nas experiências daquele intervalo que existe entre a realidade e a ficção, naquele sonho no qual você ainda está acordado.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
sexta-feira, 20 de março de 2015
Mais (Menos) Um Dia
Olho
para cima: as nuvens estão pesadas. Estão literalmente pesadas. Eu
as sinto. Sinto pesarem em meus ombros, nos meus olhos, pressionando
minhas costas, forçando minhas pernas.
Algumas
vezes passa por mim um pouco de ar gelado. É estranho. Esse ar
amortece levemente minhas pantorrilhas, aquece um pouco minhas costas
abaixo das escápulas (não sei porquê) e alfineta suavemente meu
abdômen.
- Minha visão está turva. Mal vejo as pessoas. Vejo vultos. Ouço suas vozes - não que as compreenda nitidamente mas percebo o burburinho, percebo que passam próximas a mim. Será que as pessoas me vêm? Espero que não. Sinto-me uma pedra: cinza, apática, dura. Rolando com várias toneladas morro abaixo, sem nada lhe podendo apresentar resistência.
As vozes
são cansativas: dão-me sono, assim como seus rostos – que eu nem
consigo focalizar, vejo apenas esses borrões que poderiam muito bem
ser apenas a luz passando pela névoa. O que são? Parece que percebo
tudo por filtros, que tudo o que percebo não passa diretamente por
meus sentidos, que essa percepção não é imediata: parece que
enxergo através de um vidro, ouço sons que passam por telas de
feltro e sinto o toque não das coisas em si, mas sim de uma grossa
camada de poeira, impregnada. Insonso.
Sinto
algo desligado em mim. Ou que estou ligado no automático. Ou ambos.
Meus olhos atravessam as coisas, minha fala sai inconscientemente,
respondo genericamente, sem processamento de informação.
O
sorriso é a pior parte. Por faltar-me a arte da dissimulação o
sorriso é nitidamente plástico, frio, como se fosse uma impressora
matricial a sorrir para uma cadeira alaranjada.
Fazia
tempo que isso não acontecia tão forte. Acho que os golpes vão se
acumulando até que os hematomas começam a abrir e vazar pus.
Preciso de alívio. Preciso sentir meu estômago aquecer, meu olhos
umedecerem, meus ombros relaxarem, e deixar de enxergar ouvir e tocar
qualquer coisa. Porque nada importa.
Caminhando é diferente: é muito pior. Sinto-me preso, oprimido.
Nunca tive claustrofobia mas imagino que a sensação se assemelhe a
que sinto agora.
Na
primeira dose parece que minha mente começa a se adequar a realidade
- descer a seu nível – e assim as coisas parecem mais
reconhecíveis, verossímeis, familiares. Mas minha respiração
continua um pouco ofegante. Na segunda dose a respiração começa a
acalmar também.
Atravesso uma praça durante a madrugada. Estou conversando,
distraído, desligado. Nunca faço isso. Grande burrice. Dois caras
me abordam. Apareceram de repente, nem percebi que se aproximavam
(muita burrice!). Estão com as mãos nos bolsos de suas jaquetas,
fazendo menção de estarem armados. Penso nas minhas possibilidades.
- Cara, tô sem celular.
Ele
segura na alça da minha mochila e a solto em sua mão. Ela
estava pesada, com um livro grande e dois litros de vodka. Aproveito
esse momento para correr até o outro lado da rua. Pego o celular
para que vejam que estou ligando para a polícia. Na verdade não
estou. Não estou conseguindo desbloquear o celular. Vou caminhando
para trás olhando na direção dos assaltantes, tentando ver se
sacam alguma arma.
Alguns
metros depois consigo ligar para a polícia. Falta 20 minutos para o
próximo ônibus. Pegarei o ônibus até o terminal e de lá pegarei
um táxi até em casa. Chegando ao terminal não há um único táxi.
Ligo para a rádio-táxi. A atendente me informa que a espera é de
10 à 15 minutos. Provavelmente demorará mais de 30 minutos. Vou
caminhando até em casa: 40 minutos de caminhada. Deito atravessado
na cama, do jeito que cheguei e desmaio.
Pela
manhã me sinto estranho, apático. Ficarei sozinho em casa esse fim
de semana. Mando uma mensagem pelo telefone celular:
- Bem e você?
- Bem também. E aí.. não está a fim de vir aqui em casa hoje à noite
- Não.
É... não estão sendo meus melhores dias.
Sinto-me
sereno. Estou sem minhas garrafas de vodka. Acho que já posso
morrer.
quinta-feira, 5 de março de 2015
Decifra
O que torna o outro
interessante? Falarei por mim: O que me atrai é o erro, o diferente, o estrago.
Nas palavras de William Maugham: "A perfeição tem um grave defeito:
tende a ser enfadonha". Vou além: chega a ser irritante. A pessoa da moda
- não por viver a moda mas por forjá-la -, a pessoa forçada, sem essência,
vazia, não mostra nada se não essa casca na qual se envolve para “fazer sucesso”.
Essa obviedade entediante, dissimulada: uma máscara, fraca e apática.
São as particularidades
que me fazem querer entender, conhecer. As atitudes loucas, as que fogem do
senso comum.
A obviedade, a lógica preguiçosa, é fácil perceber. Mas a
diferença... isso instiga. A dificuldade em
conhecer e entender o outro, isso me acaba e me encanta. É um prazer doloroso –
ou uma dor prazerosa.
As similaridades aproximam, mas as peculiaridades fascinam - ou afugentam, claro, dependendo do quê e da intensidade.
Assim, essas particularidades devem estar em consonância com as necessidades, em
alguma medida.
O cabelo perfeito,
com a roupa perfeita, o comportamento perfeito, o sorriso perfeito... o perfeito
chato. Mas aquele olhar que você não decifra, o jeito de andar, o pensamento
que dá voltas por caminhos que você nunca imaginou: isso, sim, fascina.
“Decifra-me ou te
devoro”. Quero o que não se decifra fácil, e devoro - e quero devorar - enquanto
decifro. O que eu já sei me entedia. Não é que eu busque o novo: nada disso. Gosto
do complexo, das tonalidades e tensões que compõem a obra toda. Dos leves
gostos perdidos no todo, os quais você tenta reconhecer, e eles ficam na ponta
da língua e te fazem querer mais.
É claro que não é do
mesmo jeito com todo mundo. Há pessoas que são apaixonadas por esse ideal de...
de seja lá o que for. Parece-me que pessoas pequenas de espírito é que se atraem
por essa falta de “personalidade”. Essas, querem controlar – e um controle fácil:
pessoas fracas.
Gosto da autenticidade,
da força, da personalidade de verdade. Gosto da pessoa realmente humana. Com todas
suas excentricidades e disparates. O cheiro de carne e sangue, não o de plástico.
Sinto-me um
desbravador - ou pirata. Busco o horizonte, a luta, a vida. Sem medo, sem arrependimento,
sem volta.
Em suma: o que atrai -
as pessoas de verdade – não é a perfeição. É o defeito. O defeito tolerável,
sim - cada um com seus limites. Mas é ele que atrai e prende. Que venha o
defeito, que o que vem é perfeição.
terça-feira, 3 de março de 2015
Uma Questão de Bom-senso?
Faz muito tempo que penso na origem ou motivos para minha casual falta de noção sobre algumas coisas. É complicado, porque me acho muito sensato e empático com variados assuntos.
Talvez minha dificuldade seja com limites. Mesmo quando parecem tão claros e definidos para outros, algumas vezes parecem tão tênues e flexíveis para mim. Os limites tênues, por sua vez, talvez se tornem inexistentes em alguns casos, levando à extrapolação. Digo talvez porque não há como me sentir certo sobre algo que acontece comigo mas não sinto, podendo avaliar apenas por opiniões alheias.
Pensando no meu modo de agir, ao longo da minha vida, percebo - e isso eu já o sabia - que sempre tive problemas com restrições e obrigações. Talvez essa tentativa de enfrentamento diante de tais imposições tenha me levado a, inconscientemente, criar uma "miopia" ao me deparar com certos limites. Seria uma vontade inconsciente de não querer ver tais limites - tornando-os difíceis de serem reconhecidos-, somada a uma vontade consciente de desafiar limites, resultando em comportamentos que, muitas vezes, podem ser entendidos por um observador externo como incoerentes.
Um comportamento tão enraizado por anos de prática acaba por se refletir em variadas situações, como a dificuldade em reconhecer os próprios limites físicos, intelectuais e emocionais até a dificuldade em reconhecer ironias que não sejam explícitas. Pois, em ambos os casos, apesar da não haver aparente similaridade, a "visão nublada" dificulta o julgamento. Assim, quanto a ironias não explícitas, minha tendência é encará-las, em sua maioria, como não sendo irônicas. Mas esse julgamento é mais consciente: levando em consideração minha aparente dificuldade me parece mais fácil optar por esse caminho.
Voltando às outras limitações (físicas, intelectuais e emocionais) eu não apenas tendo a não reconhecê-las com facilidade em mim como também, por extensão, transmito essa dificuldade à eventuais análises sobre atos de terceiros, tornando assim difícil entender as atitudes "limitadas" - nesse meu conceito bem subjetivo - de algumas pessoas.
E de onde vem minha impressão de sensatez e empatia sobre outros assuntos? Pode ser da tentativa de racionalização dos mesmos. Olhando objetivamente, mas levando em consideração o que sinto ou apreendi por observação, e esse sentir e apreensão coincidindo com o comportamento padrão somado à uma existência lógica, um existir que faça sentido e seja coerente - é claro, passando pelo meu crivo tal avaliação.
O problema é quando não houve a internalização dos aspectos avaliados. Nesses casos, essa mesma racionalização, fundamentando-se sobre uma experimentação e observação falhas, pode acabar por parecer incoerente.
Talvez minha dificuldade seja com limites. Mesmo quando parecem tão claros e definidos para outros, algumas vezes parecem tão tênues e flexíveis para mim. Os limites tênues, por sua vez, talvez se tornem inexistentes em alguns casos, levando à extrapolação. Digo talvez porque não há como me sentir certo sobre algo que acontece comigo mas não sinto, podendo avaliar apenas por opiniões alheias.
Pensando no meu modo de agir, ao longo da minha vida, percebo - e isso eu já o sabia - que sempre tive problemas com restrições e obrigações. Talvez essa tentativa de enfrentamento diante de tais imposições tenha me levado a, inconscientemente, criar uma "miopia" ao me deparar com certos limites. Seria uma vontade inconsciente de não querer ver tais limites - tornando-os difíceis de serem reconhecidos-, somada a uma vontade consciente de desafiar limites, resultando em comportamentos que, muitas vezes, podem ser entendidos por um observador externo como incoerentes.
Um comportamento tão enraizado por anos de prática acaba por se refletir em variadas situações, como a dificuldade em reconhecer os próprios limites físicos, intelectuais e emocionais até a dificuldade em reconhecer ironias que não sejam explícitas. Pois, em ambos os casos, apesar da não haver aparente similaridade, a "visão nublada" dificulta o julgamento. Assim, quanto a ironias não explícitas, minha tendência é encará-las, em sua maioria, como não sendo irônicas. Mas esse julgamento é mais consciente: levando em consideração minha aparente dificuldade me parece mais fácil optar por esse caminho.
Voltando às outras limitações (físicas, intelectuais e emocionais) eu não apenas tendo a não reconhecê-las com facilidade em mim como também, por extensão, transmito essa dificuldade à eventuais análises sobre atos de terceiros, tornando assim difícil entender as atitudes "limitadas" - nesse meu conceito bem subjetivo - de algumas pessoas.
E de onde vem minha impressão de sensatez e empatia sobre outros assuntos? Pode ser da tentativa de racionalização dos mesmos. Olhando objetivamente, mas levando em consideração o que sinto ou apreendi por observação, e esse sentir e apreensão coincidindo com o comportamento padrão somado à uma existência lógica, um existir que faça sentido e seja coerente - é claro, passando pelo meu crivo tal avaliação.
O problema é quando não houve a internalização dos aspectos avaliados. Nesses casos, essa mesma racionalização, fundamentando-se sobre uma experimentação e observação falhas, pode acabar por parecer incoerente.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Planície de Narcisos
A casca reluzente, de verde viçoso, que cobre a tez
Mostra-se fortificada, como quem alheio a tudo
Passa correndo pelo mundo, cego e mudo,
E estagna, distorcida renascentista estátua e sua palidez
O sorriso buscado: expressão máxima de contentamento
O olhar rebuscado que mal esconde as pupilas congeladas
Febris e vidradas. Nesse castelo de cartas rotas, bem gastas
Que sustentam o vazio e pesado interior: não-vivendo; não-morendo
Cedo ou tarde a parede de verde vidro racha
Vaza aos poucos o cinza incandescente e apático
Que gotejando lento, queima e, as cartas rasga
E esse vazio escondido nesse clichê dramático
Essse monstrengo torto de inteligência parca
Observa de seu trono, de retahos, letárgico
Mostra-se fortificada, como quem alheio a tudo
Passa correndo pelo mundo, cego e mudo,
E estagna, distorcida renascentista estátua e sua palidez
O sorriso buscado: expressão máxima de contentamento
O olhar rebuscado que mal esconde as pupilas congeladas
Febris e vidradas. Nesse castelo de cartas rotas, bem gastas
Que sustentam o vazio e pesado interior: não-vivendo; não-morendo
Cedo ou tarde a parede de verde vidro racha
Vaza aos poucos o cinza incandescente e apático
Que gotejando lento, queima e, as cartas rasga
E esse vazio escondido nesse clichê dramático
Essse monstrengo torto de inteligência parca
Observa de seu trono, de retahos, letárgico
quinta-feira, 10 de julho de 2014
É apenas mais um fim do mundo diário e constante
- Nossa! 7 x 1 para a Alemanha!
- Pois é. Mas não é o fim do mundo...
- Não pra todo mundo. Mas você viu a quantidade de gente chorando, queimando bandeira, ônibus e destruindo vitrines por aí?
- Mas isso, pelo menos de acordo com o modo que vivemos hoje, é inevitável. Se não é algo proposital, no mínimo é um ônus calculado. Nós temos inúmeros estímulos diários que nos mostram uma realidade onde podemos tudo. Basta acreditar em si mesmo, ou ter fé em Deus, ou um dos mais eficientes: basta não desistir nunca. Aí, quando nem reza braba resolve as pessoas se revoltam. Mas é por um tempo determinado, e no fim, tudo volta como era antes: todos achando que faltou um pouquinho mais de fé ou um pouquinho mais de perseverança.
Parece que ninguém entende que algumas vezes só "não dá". E todo mundo consegue enxergar o problema quando é com outro, mas, consigo mesmo, aí é diferente, porque com você mesmo a coisa sempre é diferente.
Essa história de "sou brasileiro e não desisto nunca" parece uma enorme babaquice mas, algumas vezes, até parece que faz algum sentido - parece; ou talvez todos sejam assim, mesmo - não apenas os brasileiros. Tipo, você não tem grana nem pra comida e aluguel do mês, direito, e ainda assim vai e financia um carro zero. E não pode ser qualquer carro zero: não pode ser 1.0, tem que ter 4 portas, ar-condicionado, equipamento de som profissional...
Você sabe (ou não) que tem certas limitações intelectuais, que mal consegue passar em um vestibular de qualquer universidade particular, de qualidade duvidosa, porque você zera a prova, mas insiste em pagar cursinho atrás de cursinho para passar em concursos públicos onde há uma vaga para 100.000 mil inscritos.
O cara sabe que a beleza não é uma de suas melhores qualidades, tão pouco é esperto e sua "lábia" mal consegue manter a atenção de sua própria mãe sobre ele por mais de alguns segundos. Ainda assim a pessoa insiste em ir à balada e tentar alguma coisa apenas com a mulher (ou homem) mais top do lugar - que até acha a situação engraçada porque não consegue ter certeza se aquilo é sério ou alguma pegadinha.
Você, lá no fundo, sente sua insuficiência, sabe que não é bom o bastante - e que ao que tudo indica nunca será - mas alguma coisa te move em direção ao precipício que apenas você não vê. Todos ao seu redor estão vendo claramente o tamanho da sua ilusão, mas você ouve "sim" onde foi dito "não", um "talvez" onde foi dito "jamais", um "com certeza" onde foi dito "nem que o mundo acabe amanhã".
Talvez grande parte da culpa dessa história diária e triste seja das exceções que surgem , aparentemente, a todo momento, até que parecem comuns o suficientes para que nos acostumemos com a ideia de que poderíamos ser nós mesmos: O homem do interior que apostou 1 bilhete da loteria e ficou milionário, o jovem com obesidade mórbida e sem um tostão no bolso que namora uma modelo maravilhosa, o morador de rua que conseguiu terminar uma graduação - enquanto ainda morava nas ruas - e hoje tem um importante cargo executivo em uma importante empresa.
Isso pode até soar como teoria da conspiração, mas é muito mais fácil controlar um povo esperançoso do que um revoltado por ser cônscio de sua realidade - ainda mais se pensarmos em um povo revoltado e ignorante. Então, pode ser que as coisas não nos pareçam assim simplesmente porque isso faz parte da condição humana, pode ser que isso seja intencional, mais uma forma de controle. E para esse controle funcionar basta fazer com que nos questionemos: "por que não eu?"
- Mas aí você faz o quê?
- Nada. Não sou tão pretensioso à ponto de imaginar ter uma solução real para a Vida. E também tenho minha boa parcela de esperança, meu auto-boicote de realidade diário, a sensação de que amanhã vai ser o meu dia de ganhar na loteria com um único bilhete, mesmo sentindo lá no fundo, que por algum motivo que obviamente não faço a mínima ideia qual é, sou insuficiente.
- Pois é. Mas não é o fim do mundo...
- Não pra todo mundo. Mas você viu a quantidade de gente chorando, queimando bandeira, ônibus e destruindo vitrines por aí?
- Mas isso, pelo menos de acordo com o modo que vivemos hoje, é inevitável. Se não é algo proposital, no mínimo é um ônus calculado. Nós temos inúmeros estímulos diários que nos mostram uma realidade onde podemos tudo. Basta acreditar em si mesmo, ou ter fé em Deus, ou um dos mais eficientes: basta não desistir nunca. Aí, quando nem reza braba resolve as pessoas se revoltam. Mas é por um tempo determinado, e no fim, tudo volta como era antes: todos achando que faltou um pouquinho mais de fé ou um pouquinho mais de perseverança.
Parece que ninguém entende que algumas vezes só "não dá". E todo mundo consegue enxergar o problema quando é com outro, mas, consigo mesmo, aí é diferente, porque com você mesmo a coisa sempre é diferente.
Essa história de "sou brasileiro e não desisto nunca" parece uma enorme babaquice mas, algumas vezes, até parece que faz algum sentido - parece; ou talvez todos sejam assim, mesmo - não apenas os brasileiros. Tipo, você não tem grana nem pra comida e aluguel do mês, direito, e ainda assim vai e financia um carro zero. E não pode ser qualquer carro zero: não pode ser 1.0, tem que ter 4 portas, ar-condicionado, equipamento de som profissional...
Você sabe (ou não) que tem certas limitações intelectuais, que mal consegue passar em um vestibular de qualquer universidade particular, de qualidade duvidosa, porque você zera a prova, mas insiste em pagar cursinho atrás de cursinho para passar em concursos públicos onde há uma vaga para 100.000 mil inscritos.
O cara sabe que a beleza não é uma de suas melhores qualidades, tão pouco é esperto e sua "lábia" mal consegue manter a atenção de sua própria mãe sobre ele por mais de alguns segundos. Ainda assim a pessoa insiste em ir à balada e tentar alguma coisa apenas com a mulher (ou homem) mais top do lugar - que até acha a situação engraçada porque não consegue ter certeza se aquilo é sério ou alguma pegadinha.
Você, lá no fundo, sente sua insuficiência, sabe que não é bom o bastante - e que ao que tudo indica nunca será - mas alguma coisa te move em direção ao precipício que apenas você não vê. Todos ao seu redor estão vendo claramente o tamanho da sua ilusão, mas você ouve "sim" onde foi dito "não", um "talvez" onde foi dito "jamais", um "com certeza" onde foi dito "nem que o mundo acabe amanhã".
Talvez grande parte da culpa dessa história diária e triste seja das exceções que surgem , aparentemente, a todo momento, até que parecem comuns o suficientes para que nos acostumemos com a ideia de que poderíamos ser nós mesmos: O homem do interior que apostou 1 bilhete da loteria e ficou milionário, o jovem com obesidade mórbida e sem um tostão no bolso que namora uma modelo maravilhosa, o morador de rua que conseguiu terminar uma graduação - enquanto ainda morava nas ruas - e hoje tem um importante cargo executivo em uma importante empresa.
Isso pode até soar como teoria da conspiração, mas é muito mais fácil controlar um povo esperançoso do que um revoltado por ser cônscio de sua realidade - ainda mais se pensarmos em um povo revoltado e ignorante. Então, pode ser que as coisas não nos pareçam assim simplesmente porque isso faz parte da condição humana, pode ser que isso seja intencional, mais uma forma de controle. E para esse controle funcionar basta fazer com que nos questionemos: "por que não eu?"
- Mas aí você faz o quê?
- Nada. Não sou tão pretensioso à ponto de imaginar ter uma solução real para a Vida. E também tenho minha boa parcela de esperança, meu auto-boicote de realidade diário, a sensação de que amanhã vai ser o meu dia de ganhar na loteria com um único bilhete, mesmo sentindo lá no fundo, que por algum motivo que obviamente não faço a mínima ideia qual é, sou insuficiente.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Rachel Sheherazade: The Punisher brasileira
Parece-me que a explicação mais lógica para as declarações de Rachel Sheherazade e seus seguidores é o desconhecimento, ou conceitos e premissas errôneas, sobre o direito brasileiro - sem entrarmos na questão de sua inteligência, ou falta dela.
Algumas declarações da moça:
Salvo engano, em outro comentário a jornalista dizia que o povo estava em seu direito, pois todo cidadão tem direito de prisão. Isso é uma das coisas que me faz ter quase certeza que essa mulher é uma oportunista manipuladora sem escrúpulos. Qualquer cidadão tem direito de prisão, sim, mas é em flagrante delito; e o linchamento nunca está liberado. Mas ela não fala isso pra ninguém. Por que será?...
E não se trata aqui de direita ou esquerda -apesar de que, de certo modo, se você é um reacionário, você não quer que as coisas mudem, aí fica meio contraditório reclamar de como as coisas estão- mas sim de um movimento retrógrado. Foram milhares de ano até que o Direito se tornasse mais justo e civilizado e vem uma jornalista cheia de ódio incitar o povo a abandonar toda esse trabalho e voltar aos tempos das cavernas.
A jornalista não entende que os direitos que defendem o "marginalzinho" a defendem também. Se podemos negar-lhe esses direitos podemos negar a ela e aos "cidadãos de bem". Se podemos escolher a quem o direito se aplica ou não, isso é tudo o que o Estado precisa para criar um governo autoritário que pune quem quiser de acordo com sua vontade. Como eu disse, foram milhares de anos para o Direito se encontrar na sua atual configuração, não é algo aleatório, tem o seu porque de ser como é e com certeza é pensado para ser, ao menos em teoria, o mais justo possível.
Mas há algo bom a se tirar do linchamento: isso claramente mostra o descontentamento com a sensação de insegurança que nos rodeia, e espero que isso chame a atenção do Estado de forma positiva. Mas todos querem pegar atalhos na hora de resolver os problemas. Ninguém quer votar em políticos que se disponham a investir em educação e programas sociais, que dariam resultados após 10 anos. Querem é o político que prometa acabar com a violência em um mês gastando todo o orçamento em policiamento, armas e equipamentos para os policiais - o que obviamente não vai resolver problema, afinal, até o momento o problema ainda existe.
O desconhecimento de como opera o Direito gera grande parte da sensação de que a lei não se cumpre. Como se espera acabar com a criminalidade simplesmente abarrotando as cadeias com cada vez mais e mais pessoas? As cadeias deveriam funcionar como espaços onde os criminosos seriam ressocializados, mas na verdade funcionam como graduação de bandidos e freio social que faz com que a maioria das pessoas não cometam crimes, pelo simples fato de que talvez sejam presos. Mas essas transformações que seriam necessárias no sistema carcerário demandariam muito tempo, dinheiro e esforço. Então o que fazemos? Tomamos o caminho mais fácil: entupimos as cadeias. Ou como querem alguns matamos todo mundo, porque é claro que assim resolvemos todos os problemas: matou? Morte. Roubou? Morte. Desviou dinheiro, público ou privado (o que também é uma forma de roubo)? Morte. Você é um pai de família, cristão, de bem, acusado de um crime que não cometeu e não teve direito a um julgamento justo? Azar o seu: morte.
É com bastante tristeza que escrevo este texto, pois vejo a quantidade gigantesca de seguidores da mentalidade grotesca de Rachel Sheherazade. E sei que muitos vão passar os olhos sem atentar para argumento algum e simplesmente bradar: "faça um favor ao Brasil, adote um bandido”. Mas tudo bem, como esperar encontrar bom senso onde não há?
Agir como um bandido, à margem da lei, para fazer "justiça", é quase como tentar apagar um incêndio atirando mais lenha à fogueira. Criminoso bom é criminoso morto? Os linchadores teriam que morrer também. O ser humano é muito egoísta e assim só consegue ver seu próprio umbigo. É muito fácil reclamar de determinados direitos quando não somos nós os beneficiados, mas a coisa muda bastante quando é você que está do outro lado. E, mesmo que seja por engano, você pode estar desse outro lado e aí você vai querer fazer valer seus direitos. O que me lembra o caso d`"O ex-presidiário Heberson Lima de Oliveira, hoje com 30 anos, teve a juventude roubada por um erro da Justiça do Amazonas e luta para receber do Estado uma indenização depois de tudo o que passou. Preso em 2003 suspeito de estuprar uma menina de nove anos, ele ficou três anos atrás das grades até que teve a inocência provada. Isolado em uma cela destinada aos homens que cometeram crimes sexuais, ele foi estuprado pelos companheiros de cela e contraiu Aids, o que fez com que a liberdade chegasse de forma tardia para ele." Com ele também foi feita "justiça" com as próprias mãos, mas poderia ser com você aí.
Consciência povo! Mais estudo e menos televisão, por favor.
Referências das citações:
Âncora do SBT, Rachel Sheherazade diz que ação de justiceiros no Rio é ‘compreensível’ e não ‘aceitável’
Rachel Sheherazade: a porta voz perfeita do ódio das 'pessoas de bem'
SBT: Comentário polêmico de Rachel Sheherazade é de responsabilidade dela
Homem preso injustamente luta por indenização após contrair HIV em estupro no presídio
Algumas declarações da moça:
- Em nenhum momento, no meu comentário, há qualquer menção de apoio à violência praticada pelos justiceiros. Não disse que a atitude deles foi "aceitável" disse que foi "compreensível"
- Quem é o PSOL para me censurar, se a Constituição Brasileira me garante o direito de livre expressão?
- Se a legenda acha que faço apologia ao crime, me processe. Quem anda com a verdade, não teme a Justiça.
Salvo engano, em outro comentário a jornalista dizia que o povo estava em seu direito, pois todo cidadão tem direito de prisão. Isso é uma das coisas que me faz ter quase certeza que essa mulher é uma oportunista manipuladora sem escrúpulos. Qualquer cidadão tem direito de prisão, sim, mas é em flagrante delito; e o linchamento nunca está liberado. Mas ela não fala isso pra ninguém. Por que será?...
E não se trata aqui de direita ou esquerda -apesar de que, de certo modo, se você é um reacionário, você não quer que as coisas mudem, aí fica meio contraditório reclamar de como as coisas estão- mas sim de um movimento retrógrado. Foram milhares de ano até que o Direito se tornasse mais justo e civilizado e vem uma jornalista cheia de ódio incitar o povo a abandonar toda esse trabalho e voltar aos tempos das cavernas.
A jornalista não entende que os direitos que defendem o "marginalzinho" a defendem também. Se podemos negar-lhe esses direitos podemos negar a ela e aos "cidadãos de bem". Se podemos escolher a quem o direito se aplica ou não, isso é tudo o que o Estado precisa para criar um governo autoritário que pune quem quiser de acordo com sua vontade. Como eu disse, foram milhares de anos para o Direito se encontrar na sua atual configuração, não é algo aleatório, tem o seu porque de ser como é e com certeza é pensado para ser, ao menos em teoria, o mais justo possível.
Mas há algo bom a se tirar do linchamento: isso claramente mostra o descontentamento com a sensação de insegurança que nos rodeia, e espero que isso chame a atenção do Estado de forma positiva. Mas todos querem pegar atalhos na hora de resolver os problemas. Ninguém quer votar em políticos que se disponham a investir em educação e programas sociais, que dariam resultados após 10 anos. Querem é o político que prometa acabar com a violência em um mês gastando todo o orçamento em policiamento, armas e equipamentos para os policiais - o que obviamente não vai resolver problema, afinal, até o momento o problema ainda existe.
O desconhecimento de como opera o Direito gera grande parte da sensação de que a lei não se cumpre. Como se espera acabar com a criminalidade simplesmente abarrotando as cadeias com cada vez mais e mais pessoas? As cadeias deveriam funcionar como espaços onde os criminosos seriam ressocializados, mas na verdade funcionam como graduação de bandidos e freio social que faz com que a maioria das pessoas não cometam crimes, pelo simples fato de que talvez sejam presos. Mas essas transformações que seriam necessárias no sistema carcerário demandariam muito tempo, dinheiro e esforço. Então o que fazemos? Tomamos o caminho mais fácil: entupimos as cadeias. Ou como querem alguns matamos todo mundo, porque é claro que assim resolvemos todos os problemas: matou? Morte. Roubou? Morte. Desviou dinheiro, público ou privado (o que também é uma forma de roubo)? Morte. Você é um pai de família, cristão, de bem, acusado de um crime que não cometeu e não teve direito a um julgamento justo? Azar o seu: morte.
É com bastante tristeza que escrevo este texto, pois vejo a quantidade gigantesca de seguidores da mentalidade grotesca de Rachel Sheherazade. E sei que muitos vão passar os olhos sem atentar para argumento algum e simplesmente bradar: "faça um favor ao Brasil, adote um bandido”. Mas tudo bem, como esperar encontrar bom senso onde não há?
Agir como um bandido, à margem da lei, para fazer "justiça", é quase como tentar apagar um incêndio atirando mais lenha à fogueira. Criminoso bom é criminoso morto? Os linchadores teriam que morrer também. O ser humano é muito egoísta e assim só consegue ver seu próprio umbigo. É muito fácil reclamar de determinados direitos quando não somos nós os beneficiados, mas a coisa muda bastante quando é você que está do outro lado. E, mesmo que seja por engano, você pode estar desse outro lado e aí você vai querer fazer valer seus direitos. O que me lembra o caso d`"O ex-presidiário Heberson Lima de Oliveira, hoje com 30 anos, teve a juventude roubada por um erro da Justiça do Amazonas e luta para receber do Estado uma indenização depois de tudo o que passou. Preso em 2003 suspeito de estuprar uma menina de nove anos, ele ficou três anos atrás das grades até que teve a inocência provada. Isolado em uma cela destinada aos homens que cometeram crimes sexuais, ele foi estuprado pelos companheiros de cela e contraiu Aids, o que fez com que a liberdade chegasse de forma tardia para ele." Com ele também foi feita "justiça" com as próprias mãos, mas poderia ser com você aí.
Consciência povo! Mais estudo e menos televisão, por favor.
Referências das citações:
Âncora do SBT, Rachel Sheherazade diz que ação de justiceiros no Rio é ‘compreensível’ e não ‘aceitável’
Rachel Sheherazade: a porta voz perfeita do ódio das 'pessoas de bem'
SBT: Comentário polêmico de Rachel Sheherazade é de responsabilidade dela
Homem preso injustamente luta por indenização após contrair HIV em estupro no presídio
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Egito, Êxodo e Deus (todos os textos)
Esta
é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de
vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito e regiões próximas
nessa época e a formação da religião judaica, que por sua vez deu
origem ao cristianismo e ao islamismo.
Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro
“TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia”
(título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald,
Editora Landscape, 2004. O livro é muito mais abrangente e detalhado
do que o mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista
alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as
referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais
prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos
autores. Quaisquer dúvidas ou pedidos de referências podem comentar
que responderei.
Estes
textos, obviamente, estão aquém do original, no entanto, conseguem
mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja
exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam
pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela
verdade.
Parte I b: O profeta e o êxodo do Egito como não conhecemos
Parte I c: O messias egípcio; e o fim do faraó monoteísta
Parte I d: Castigo dos deuses: As pragas do Egito
Parte II a: As primeiras tribos adoradoras de “Deus”
Parte II b: A Morada de “Deus”
Parte II-c: Construindo Deus
Parte II-d: Yahweh na Cidade de Pedra
Parte II-e: As pegadas do deus da montanha
Parte II-f: Conclusões sobre Deus
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Egito, Êxodo e Deus: Parte II-f: Conclusões sobre Deus
Esta é uma pequena série
de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual
sobre o êxodo do Egito, o Egito e regiões próximas nessa época e
a formação da religião judaica, que por sua vez deu origem ao
cristianismo e ao islamismo. Os textos estão divididos em duas
partes. Esta segunda parte é dividida em seis partes menores.
Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro
“TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia”
(título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald,
Editora Landscape, 2004. O livro é muito mais abrangente e detalhado
do que o mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista
alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as
referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais
prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos
autores. Quaisquer dúvidas ou pedidos de referências podem comentar
que responderei.
Estes
textos, obviamente, estão aquém do original, no entanto, conseguem
mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja
exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam
pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela
verdade.
A
Identidade de Deus
Do
Egito a Petra
Relatos
greco-egípcios e depois greco-romanos do êxodo, bem como amplas
provas textuais, mostram-nos que uma peste assolou o Egito e o
Oriente Próximo durante a época de Tutancâmon e seus sucessores.
Foi considerada retribuição divina por ter o país abandonado os
velhos deuses durante o reinado do meio-irmão do menino-rei,
Aquenaton, que obrigou os egípcios a adorarem apenas um deus, Aton,
ou disco solar. Por conseguinte, os sacerdotes destituídos de seus
postos e os seguidores do Aton, juntamente com um grande número de
seguidores asiáticos, foram expulsos do Egito na tentativa de
aplacar os deuses, e livrar o país da peste, uma vez que eram
considerados a causa dela.
Os
sacerdotes “impuros” e seguidores de Aton retiveram a firme
crença nos princípios monoteístas de Aton. Isso, segundo os
autores, tentaram impor aos shasu e aos “estrangeiros” asiáticos
que foram obrigados a deixar o Delta Oriental egípcio, mas cuja
pátria original seriam as montanhas de Seir, a terra de Edom. Essa
imposição deve ter causado considerável consternação entre
certos elementos da aliança tribal, que ainda aderiam à religião
politeísta, tida por idólatra.
Mas
algo especial aconteceu quando os israelitas acamparam em Petra, sob
a montanha de Yahweh. De alguma maneira, os princípios de Aton
parecem ter se mesclado com conceitos-chave do deus da montanha
local, venerado pelos nativos shasu, ou proto-edomitas, cujo clã
principal era quase certamente conhecido como “Israel”.
Inquestionavelmente, foi esse o motivo pelo qual, em vez de levar os
israelitas diretamente para a Palestina, Moisés os trouxe a Petra,
antiga Cades, talvez porque muitos dos povos asiáticos/árabes que o
acompanharam em sua jornada fossem na verdade shasu dessa região. Na
opinião dos autores, foi assim que a religião mosaica surgiu, por
volta de 1300-1200 a.C. Tudo consistiu em uma fusão de ideias e
crenças de povos com diferentes formações culturais e étnicas.
O
verdadeiro Israelitas
Os indícios apresentados neste livro indicam que os povos nativos de
Seir-Edom, os shasu, antecessores dos edomitas da Bíblia, podem ter
a chave para explicar o desenvolvimento da raça israelita por volta
do final da Idade do Bronze Recente. Aparentemente eles foram os
primeiros adoradores de Yahweh, que antes era essencialmente um deus
das montanhas com características bovinas e lunares, venerados por
uma aliança tribal reunida por um núcleo de indivíduos egípcios,
mais plausivelmente ex-sacerdotes e seguidores de Aton. O Israel da
Estela da Vitória quase certamente é o principal clão dos shasu,
cujo nome se deve a seu primeiro ancestral, o qual pode ter sido
simplesmente Jacó, o neto de Abraão.
Parte II-e: As pegadas do deus da montanha
Parte I a: O faraó monoteísta e um panorama sobre o Egito à época do êxodo
Parte II-e: As pegadas do deus da montanha
Parte I a: O faraó monoteísta e um panorama sobre o Egito à época do êxodo
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Egito, Êxodo e Deus: Parte II-e: As pegadas do deus da montanha
Esta
é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de
vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito e regiões próximas
nessa época e a formação da religião judaica, que por sua vez deu
origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos estão divididos em
duas partes. Esta segunda parte é dividida em seis partes menores.
Estes
textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro
“TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia”
(título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald,
Editora Landscape, 2004. O livro é muito mais abrangente e detalhado
do que o mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista
alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as
referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais
prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos
autores. Quaisquer dúvidas ou pedidos de referências podem comentar
que responderei.
Estes
textos, obviamente, estão aquém do original, no entanto, conseguem
mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja
exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam
pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela
verdade.
O
senhor das Montanhas de Shara
Além
do anfiteatro natural e do púlpito nas encostas de Umm al-Biyara,
Nielsen também encontrou pichações escavadas na face da rocha.
Pôde distinguir uma “cabeça de touro triangular com a meia lua
acima dela”, que ele afirmou ser parecida com exemplos encontrados
nos antigos monumentos árabes.
A
principal deidade nabateia era Dhushara, que significa “Senhor das
Montanhas Shara”, sendo Shara o nome aramaico do maciço de Seir.
Inicialmente, era representado apenas de forma abstrata, geralmente
um bloco retangular, com olhos e um nariz. Durante a ocupação
romana, Dhushara assumiu forma antropomórfica, que também se pode
ver em alguns santuários esculpidos na rocha em Petra e em seus
arredores.
Assim
como Yahweh, Sin e outros deuses da lua semíticos, Dhushara também
podia se relacionar com o touro do céu, cujo corpo era amontanha
sagrada e cujos chifres eram a lua crescente. Dessa maneira, vemos
que o deus nabateu das montanhas tinha muito em comum com Yahweh, a
deidade dos israelitas, que parece ter sido o genius
loci
do Monte Horeb, ou monte Sinai, a montanha da lua.
A
Adoração a Vênus
A consorte
de Dushara é lembrada em Petra pelo nome árabe pré-islãmico,
al-Uzza, e representada por um bloco em um betil (beth-el, em
hebraico, que significa “Casa de Deus”) com olhos, nariz e também
boca. Ela era a personificação do planeta Vênus. Seu nome pode
originalmente ter derivado do acádico uz,
que significa “bode”. Esse era o principal animal sacrificado às
diversas formas de Vênus em todo o Oriente Próximo, onde além de
al-Uzza ela era conhecida como Allat, Astarte, Atargatis, Ishtar e
rabbat
al-thill,
“a Senhora do Rebanho”. O símbolo de Ishtar-Vênus era uma
estrela de sete pontas inscrita em um círculo, e esse símbolo foi
encontrado em duas estelas esculpidas desenterradas em Harã, ao
passo que na arte grega há uma forma de Vênus (ou Afrodite) que
aparece montada em um bode, o que mostra seu vínculo com a
promiscuidade sexual. Aliás, na tradição cristã primitiva,
Ishtar-Vênus evoluiu para a Prostituta da Babilônia que, no livro
do Apocalipse, segura a taça das abominações e cavalga a besta do
apocalipse, que tem sete chifres. Ainda hoje em Petra vendem-se aos
turistas estátuas de bronze de al-Uzza, ou Allat, segurando uma
taça.
Parece
haver uma relação direta entre a adoração a al-Uzza e o bode
expiatório que Aarão mandou a Azazel no Monte Seir. O ritual do
bode expiatório pode muito bem ser uma lembrança confusa de
holocaustos com bodes feitos a uma forma bem anterior de al-Uzza,
talvez ligada com a crença erudita de que Yahweh tinha uma consorte
chamada Asherath, simplesmente um outro nome de Allat, ou Astarte.
Nielsen
propôs que a paisagem entre Petra e Jebel Hilal (hilal
significa “lua nova”) era a localização original do deserto de
Sin, ao passo que o Jebel Al-Madhbah de Petra era a “Montanha da
Lua”, portanto a verdadeira localização do Monte Sinai. Nenhum
estudioso moderno parece ter levado suas teorias a sério, apesar das
provas esmagadoras que demonstram que Petra era a antiga Cades.
O
Monte de Santo Aarão
Não
se sabe quando exatamente começou-se a associar a Jebel Harûn o
profeta Aarão, Nabi Harun, na tradição maometana. O nome da
montanha deriva do nome de Aarão, do hebreu, Aharon
(aramaico haroun)
traduzido como haron,
significando “altivo, exaltado”, ou “montanha de força”,
insinuando que o irmão de Moisés tirou seu nome da montanha. O
curioso é que o apelido iídiche do nome hebraico Aarão é Arke, o
nome antigo de Petra, coincidência que não podemos ignorar.
Segundo
o Deuteronômio, a vida de Aarão terminou no monte Hor (hor
significa apenas “montanha”),
e tanto ele quanto Moisés foram destinados a serem torturados,
avistando a Terra Prometida, mas jamais tendo permissão para entrar
nela. Antes de sua morte, Moisés contemplou a herança dos
israelitas do alto do Monte Nebo, no cume de Fasga, na terra de Moab,
antes de morrer ali. Antes, Aarão havia sofrido o mesmo destino,
depois de contemplar a Terra Prometida do alto do monte Hor. Assim,
sabendo que do pico de Jebel Harûn tem-se uma vista ininterrupta do
que fica além do Wadi Arabah, ou seja, Israel e a Palestina
modernos, uma identificação com o monte Hor é perfeitamente
possível.
Andrew
Collins ouviu o relato de uma lenda antiga que falava da presença da
tumba do profeta em Jebel Harûn. De acordo com ela, Nabi Harûn veio
do Egito em um cavalo verde voador! Cada vez que os pés do corcel
tentavam tocar num pico de montanha, a montanha desmoronava devido ao
peso. Isso aconteceu seis vezes, até finalmente o cavalo e seu
cavaleiro chegarem a Jebel Harûn, onde o animal finalmente conseguiu
aterrizar sem problema.
Trata-se
claramente de uma história fantasiosa e, no entanto, seu desvio
extraordinário da história tradicional subentende algum tipo de
origem independente. O cavalo voador verde, suas tentativas de pousar
nos cumes e o fato de Jebel Harûn ser vista como a sétima montanha
(sete sendo um número importante na cosmologia do Oriente Próximo,
na qual está ligado a Vênus e à cor verde) tendem a sugerir que a
lenda original não estava absolutamente ligada a Aarão. O mais
provável é que se relacionasse com alguma deidade pagã muito
antiga que se confundiu com a figura de Aarão em uma data bastante
posterior.
A
montanha que mais se destaca como possível candidata a monte Seir é
Jebel Harun, o monte Hor da Bíblia. Contudo, não podemos afirmar
com certeza se também era o monte Shara, uma vez que o templo
nabateu em Petra conhecido omo Qasr el-Bint, e que se pensa ter sido
dedicado a Dhushara, tem orientação no sentido norte, na direção
da moderna Jebel esh-Shara, “a montanha da qual ele era Senhor”.
Os autores têm certeza que a Montanha de Deus, onde Moisés recebeu
os Dez Mandamentos e conversou com Yahweh, combina muito bem com o
Jebel al-Madhbah de Petra, o Lugar Alto, ao passo que monte Hor e o
monte Seir, onde aconteceu o ritual do bode expiatório, são, quase
certamente, Jebel Harûn.
Os
Pés de Deus
De
acordo com o livro do êxodo, Moisés permitiu que seu irmão Aarão,
os dois filhos mais velhos deste, Nadab e Abihu, e setenta anciãos,
subissem ao “monte” de Yahweh. Diz-se que, ao atingir um certo
nível da montanha, eles viram “o Deus de Israel; e sob seus pés
havia como um pavimento de safira, pura como se fosse o próprio
céu”. Confirma-se que esse evento ocorreu no monte Sinai pelo fato
de depois Moisés ter ascendido ou “subido”, ao mesmo “monte”
na ocasião em que obteve as Tábuas da Lei.
No
chamado Vale Secreto da Pequena Petra, pares de pés foram escavados
nas faces rochosas, em geral na base das montanhas. Seu tamanho
grande, e o fato de sempre aparecerem em posição ascendente,
implica com toda a possibilidade que representem os pés de deuses,
ou de um único deus, que se considerava habitar a região. Para os
beduínos, os pés escavados na rocha são um sinal de que o lugar é
santo e que eles devem tirar os sapatos antes de prosseguir, como é
de costume nas mesquitas.
Um
fator significativo sobre os pés gigantes encontrados nas rochas em
torno de Petra é que alguns deles parecem infinitamente mais antigos
que o período nabateu. Um par está dentre as esculturas neolíticas
de uma cabra selvagem perseguida por caçadores, que antecedem a era
dos sahsu e dos edomitas em milhares de anos.
O
Ódio de Temã / As Origens de Esaú
A
animosidade dirigida contra os povos do Edom por esses primeiros
profetas judeus, só pode ter surgido de rancor contra o fato de
Moisés ter recebido as leis de Israel de uma montanha sagrada na
terra de Edom, que também se pode chamar de “monte Farã” ou
“monte de Esaú”.
Depois
da conquista de Canaã, a Bíblia praticamente não fala mais na
montanha de Yahweh. O mais provável é que isso tenha ocorrido
porque as rígidas leis religiosas implementadas pelos reis israelitas
e judeus posteriores não permitiam mais que se citassem as práticas
hebraicas de seus antepassados, os edomitas, descendentes de Edom, ou
Esaú. Edom significa, simplesmente, vermelho, com toda probabilidade
por causa da cor predominantemente vermelha dos penhascos de arenito
de Petra e seus arredores. Assim, Esaú ou Edom era simplesmente
outro nome para o genius
loci
da cidade, ou o “espírito local”. Dessa maneira, “monte Farã”
e “monte de Esaú” eram apenas nomes alternativos do monte Sinai,
em outras palavras Jebel al-Madhbah.
Esaú
também era, aparentemente, homônimo de um deus ancestral da raça
humana chamado Usous, ao qual se refere Filo, um historiador de
Biblos, na costa do Levante, que viveu no reinado de Adriano,
imperador de Roma, por volta de 120-140 d.C. De acordo com Filo,
sanchoniatho (historiador fenício, por volta de 1200 a.C.) alegava
que Usous era “o inventor das roupas para o corpo que ele fazia das
peles dos animais selvagens que conseguia caçar.” a esse respeito,
podemos lembrar que o nome de Esaú em Hebreu significa “peludo”.
Parte II-d: Yahweh na Cidade de Pedra
Parte II-f: Conclusões sobre Deus
Parte II-d: Yahweh na Cidade de Pedra
Parte II-f: Conclusões sobre Deus
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