quinta-feira, 10 de julho de 2014

É apenas mais um fim do mundo diário e constante

 - Nossa! 7 x 1 para a Alemanha!

 - Pois é. Mas não é o fim do mundo...

 - Não pra todo mundo. Mas você viu a quantidade de gente chorando, queimando bandeira, ônibus e destruindo vitrines por aí?

 - Mas isso, pelo menos de acordo com o modo que vivemos hoje, é inevitável. Se não é algo proposital, no mínimo é um ônus calculado. Nós temos inúmeros estímulos diários que nos mostram uma realidade onde podemos tudo. Basta acreditar em si mesmo, ou ter fé em Deus, ou um dos mais eficientes: basta não desistir nunca. Aí, quando nem reza braba resolve as pessoas se revoltam. Mas é por um tempo determinado, e no fim, tudo volta como era antes: todos achando que faltou um pouquinho mais de fé ou um pouquinho mais de perseverança.

 Parece que ninguém entende que algumas vezes só "não dá". E todo mundo consegue enxergar o problema quando é com outro, mas, consigo mesmo, aí é diferente, porque com você mesmo a coisa sempre é diferente.

 Essa história de "sou brasileiro e não desisto nunca" parece uma enorme babaquice mas, algumas vezes, até parece que faz algum sentido - parece; ou talvez todos sejam assim, mesmo - não apenas os brasileiros. Tipo, você não tem grana nem pra comida e aluguel do mês, direito, e ainda assim vai e financia um carro zero. E não pode ser qualquer carro zero: não pode ser 1.0, tem que ter 4 portas, ar-condicionado, equipamento de som profissional...

 Você sabe (ou não) que tem certas limitações intelectuais, que mal consegue passar em um vestibular de qualquer universidade particular, de qualidade duvidosa, porque você zera a prova, mas insiste em pagar cursinho atrás de cursinho para passar em concursos públicos onde há uma vaga para 100.000 mil inscritos.

 O cara sabe que a beleza não é uma de suas melhores qualidades, tão pouco é esperto e sua "lábia" mal consegue manter a atenção de sua própria mãe sobre ele por mais de alguns segundos. Ainda assim a pessoa insiste em ir à balada e tentar alguma coisa apenas com  a mulher (ou homem) mais top do lugar - que até acha a situação engraçada porque não consegue ter certeza se aquilo é sério ou alguma pegadinha.

 Você, lá no fundo, sente sua insuficiência, sabe que não é bom o bastante - e que ao que tudo indica nunca será - mas alguma coisa te move em direção ao precipício que apenas você não vê. Todos ao seu redor estão vendo claramente o tamanho da sua ilusão, mas você ouve "sim" onde foi dito "não", um "talvez" onde foi dito "jamais", um "com certeza" onde foi dito "nem que o mundo acabe amanhã".

 Talvez grande parte da culpa dessa história diária e triste seja das exceções que surgem , aparentemente, a todo momento, até que parecem comuns o suficientes para que nos acostumemos com a ideia de que poderíamos ser nós mesmos: O homem do interior que apostou 1 bilhete da loteria e ficou milionário, o  jovem com obesidade mórbida e sem um tostão no bolso que namora uma modelo maravilhosa, o morador de rua que conseguiu terminar uma graduação - enquanto ainda morava nas ruas - e hoje tem um importante cargo executivo em uma importante empresa.

 Isso pode até soar como teoria da conspiração, mas é muito mais fácil controlar um povo esperançoso do que um revoltado por ser cônscio de sua realidade - ainda mais se pensarmos em um povo revoltado e ignorante. Então, pode ser que as coisas não nos pareçam assim simplesmente porque isso faz parte da condição humana, pode ser que isso seja intencional, mais uma forma de controle. E para esse controle  funcionar basta fazer com que nos questionemos: "por que não eu?"

  - Mas aí você faz o quê?

 - Nada. Não sou tão pretensioso à ponto de imaginar ter uma solução real para a Vida. E também tenho minha boa parcela de esperança, meu auto-boicote de realidade diário, a sensação de que amanhã vai ser o meu dia de ganhar na loteria com um único bilhete, mesmo sentindo lá no fundo, que por algum motivo que obviamente não faço a mínima ideia qual é, sou insuficiente.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Rachel Sheherazade: The Punisher brasileira

 Parece-me que a explicação mais lógica para as declarações de Rachel Sheherazade e seus seguidores é o desconhecimento, ou conceitos e premissas errôneas, sobre o direito brasileiro - sem entrarmos na questão de sua inteligência, ou falta dela.

 Algumas declarações da moça:
  • Em nenhum momento, no meu comentário, há qualquer menção de apoio à violência praticada pelos justiceiros. Não disse que a atitude deles foi "aceitável" disse que foi "compreensível"
 No telejornal, em certo ponto, ela declarou: "O contra-ataque aos bandidos é o que chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite". Legítima defesa significa que não só é compreensível como também necessário; acho que isso está muito mais para apoio do que aceitação. E não sei como ela pode chamar um ataque de legítima defesa! Não há como seriamente chamar um linchamento de legítima defesa sem parecer idiota.
  • Quem é o PSOL para me censurar, se a Constituição Brasileira me garante o direito de livre expressão?
 Calma lá...  Há direitos e Direitos. O seu direito à livre expressão nunca lhe dará o direito de fazer apologia ao crime e disseminar discursos de ódio.
  • Se a legenda acha que faço apologia ao crime, me processe. Quem anda com a verdade, não teme a Justiça.
 Ah, é? Mais ou menos. Porque onde o "Estado é omisso, a polícia é desmoralizada, a Justiça é falha", suas atitudes podem muito bem passar impunes diante da Justiça formal, mas nada impede -segundo o ponto de vista da jornalista- que pessoas de bem, que não aguentam mais essa falta de respeito por parte do Estado, façam "justiça" com as próprias mãos e a pendurem em um poste depois de a lincharem por seus crimes de ódio.

 Salvo engano, em outro comentário a jornalista dizia que o povo estava em seu direito, pois todo cidadão tem direito de prisão. Isso é uma das coisas que me faz ter quase certeza que essa mulher é uma oportunista manipuladora sem escrúpulos. Qualquer cidadão tem direito de prisão, sim, mas é em flagrante delito; e o linchamento nunca está liberado. Mas ela não fala isso pra ninguém. Por que será?...

  E não se trata aqui de direita ou esquerda -apesar de que, de certo modo, se você é um reacionário, você não quer que as coisas mudem, aí fica meio contraditório reclamar de como as coisas estão- mas sim de um movimento retrógrado. Foram milhares de ano até que o Direito se tornasse mais justo e civilizado e vem uma jornalista cheia de ódio incitar o povo a abandonar toda esse trabalho e voltar aos tempos das cavernas.

 A jornalista não entende que os direitos que defendem o "marginalzinho" a defendem também. Se podemos negar-lhe esses direitos podemos negar a ela e aos "cidadãos de bem". Se podemos escolher a quem o direito se aplica ou não, isso é tudo o que o Estado precisa para criar um governo autoritário que pune quem quiser de acordo com sua vontade. Como eu disse, foram milhares de anos para o Direito se encontrar na sua atual configuração, não é algo aleatório, tem o seu porque de ser como é e com certeza é pensado para ser, ao menos em teoria, o mais justo possível.

 Mas há algo bom a se tirar do linchamento: isso claramente mostra o descontentamento com a sensação de insegurança que nos rodeia, e espero que isso chame a atenção do Estado de forma positiva. Mas todos querem pegar atalhos na hora de resolver os problemas. Ninguém quer votar em políticos que se disponham a investir em educação e programas sociais, que dariam resultados após 10 anos. Querem é o político que prometa acabar com a violência em um mês gastando todo o orçamento em policiamento, armas e equipamentos para os policiais - o que obviamente não vai resolver problema, afinal, até o momento o problema ainda existe.

 O desconhecimento de como opera o Direito gera grande parte da sensação de que a lei não se cumpre. Como se espera acabar com a criminalidade simplesmente abarrotando as cadeias com cada vez mais e mais pessoas? As cadeias deveriam funcionar como espaços onde os criminosos seriam ressocializados, mas na verdade funcionam como graduação de bandidos e freio social que faz com que a maioria das pessoas não cometam crimes,  pelo simples fato de que talvez sejam presos. Mas essas transformações que seriam necessárias no sistema carcerário demandariam muito tempo, dinheiro e esforço. Então o que fazemos? Tomamos o caminho mais fácil: entupimos as cadeias. Ou como querem alguns matamos todo mundo, porque é claro que assim resolvemos todos os problemas: matou? Morte. Roubou? Morte. Desviou dinheiro, público ou privado (o que também é uma forma de roubo)? Morte. Você é um pai de família, cristão, de bem, acusado de um crime que não cometeu e não teve direito a um julgamento justo? Azar o seu: morte.


É com bastante tristeza que escrevo este texto, pois vejo a quantidade gigantesca de seguidores da mentalidade grotesca de Rachel Sheherazade. E sei que muitos vão passar os olhos sem atentar para argumento algum e simplesmente bradar: "faça um favor ao Brasil, adote um bandido”. Mas tudo bem, como esperar encontrar bom senso onde não há?

 Agir como um bandido, à margem da lei, para fazer "justiça", é quase como tentar apagar um incêndio atirando mais lenha à fogueira. Criminoso bom é criminoso morto? Os linchadores teriam que morrer também. O ser humano é muito egoísta e assim só consegue ver seu próprio umbigo. É muito fácil reclamar de determinados direitos quando não somos nós os beneficiados, mas a coisa muda bastante quando é você que está do outro lado. E, mesmo que seja por engano, você pode estar desse outro lado e aí você vai querer fazer valer seus direitos. O que me lembra o caso d`"O ex-presidiário Heberson Lima de Oliveira, hoje com 30 anos, teve a juventude roubada por um erro da Justiça do Amazonas e luta para receber do Estado uma indenização depois de tudo o que passou. Preso em 2003 suspeito de estuprar uma menina de nove anos, ele ficou três anos atrás das grades até que teve a inocência provada. Isolado em uma cela destinada aos homens que cometeram crimes sexuais, ele foi estuprado pelos companheiros de cela e contraiu Aids, o que fez com que a liberdade chegasse de forma tardia para ele." Com ele também foi feita "justiça" com as próprias mãos, mas poderia ser com você aí.

 Consciência povo! Mais estudo e menos televisão, por favor.

 Referências das citações:

 Âncora do SBT, Rachel Sheherazade diz que ação de justiceiros no Rio é ‘compreensível’ e não ‘aceitável’
 Rachel Sheherazade: a porta voz perfeita do ódio das 'pessoas de bem'
 SBT: Comentário polêmico de Rachel Sheherazade é de responsabilidade dela
 Homem preso injustamente luta por indenização após contrair HIV em estupro no presídio

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Egito, Êxodo e Deus (todos os textos)

 Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito e regiões próximas nessa época e a formação da religião judaica, que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo.
 Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia” (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. O livro é muito mais abrangente e detalhado do que o mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedidos de referências podem comentar que responderei.
 Estes textos, obviamente, estão aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.

Parte I a: O faraó monoteísta e um panorama sobre o Egito à época do êxodo
Parte I b: O profeta e o êxodo do Egito como não conhecemos
Parte I c: O messias egípcio; e o fim do faraó monoteísta
Parte I d: Castigo dos deuses: As pragas do Egito

Parte II a: As primeiras tribos adoradoras de “Deus”
Parte II b: A Morada de “Deus”
Parte II-c: Construindo Deus
Parte II-d: Yahweh na Cidade de Pedra
Parte II-e: As pegadas do deus da montanha
Parte II-f: Conclusões sobre Deus

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Egito, Êxodo e Deus: Parte II-f: Conclusões sobre Deus

 Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito e regiões próximas nessa época e a formação da religião judaica, que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos estão divididos em duas partes. Esta segunda parte é dividida em seis partes menores.
 Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia” (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. O livro é muito mais abrangente e detalhado do que o mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedidos de referências podem comentar que responderei.
 Estes textos, obviamente, estão aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.


 A Identidade de Deus


 Do Egito a Petra

 Relatos greco-egípcios e depois greco-romanos do êxodo, bem como amplas provas textuais, mostram-nos que uma peste assolou o Egito e o Oriente Próximo durante a época de Tutancâmon e seus sucessores. Foi considerada retribuição divina por ter o país abandonado os velhos deuses durante o reinado do meio-irmão do menino-rei, Aquenaton, que obrigou os egípcios a adorarem apenas um deus, Aton, ou disco solar. Por conseguinte, os sacerdotes destituídos de seus postos e os seguidores do Aton, juntamente com um grande número de seguidores asiáticos, foram expulsos do Egito na tentativa de aplacar os deuses, e livrar o país da peste, uma vez que eram considerados a causa dela.

 Os sacerdotes “impuros” e seguidores de Aton retiveram a firme crença nos princípios monoteístas de Aton. Isso, segundo os autores, tentaram impor aos shasu e aos “estrangeiros” asiáticos que foram obrigados a deixar o Delta Oriental egípcio, mas cuja pátria original seriam as montanhas de Seir, a terra de Edom. Essa imposição deve ter causado considerável consternação entre certos elementos da aliança tribal, que ainda aderiam à religião politeísta, tida por idólatra.

 Mas algo especial aconteceu quando os israelitas acamparam em Petra, sob a montanha de Yahweh. De alguma maneira, os princípios de Aton parecem ter se mesclado com conceitos-chave do deus da montanha local, venerado pelos nativos shasu, ou proto-edomitas, cujo clã principal era quase certamente conhecido como “Israel”. Inquestionavelmente, foi esse o motivo pelo qual, em vez de levar os israelitas diretamente para a Palestina, Moisés os trouxe a Petra, antiga Cades, talvez porque muitos dos povos asiáticos/árabes que o acompanharam em sua jornada fossem na verdade shasu dessa região. Na opinião dos autores, foi assim que a religião mosaica surgiu, por volta de 1300-1200 a.C. Tudo consistiu em uma fusão de ideias e crenças de povos com diferentes formações culturais e étnicas.

 O verdadeiro Israelitas

 Os indícios apresentados neste livro indicam que os povos nativos de Seir-Edom, os shasu, antecessores dos edomitas da Bíblia, podem ter a chave para explicar o desenvolvimento da raça israelita por volta do final da Idade do Bronze Recente. Aparentemente eles foram os primeiros adoradores de Yahweh, que antes era essencialmente um deus das montanhas com características bovinas e lunares, venerados por uma aliança tribal reunida por um núcleo de indivíduos egípcios, mais plausivelmente ex-sacerdotes e seguidores de Aton. O Israel da Estela da Vitória quase certamente é o principal clão dos shasu, cujo nome se deve a seu primeiro ancestral, o qual pode ter sido simplesmente Jacó, o neto de Abraão.


Parte II-e: As pegadas do deus da montanha 
Parte I a: O faraó monoteísta e um panorama sobre o Egito à época do êxodo  

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Egito, Êxodo e Deus: Parte II-e: As pegadas do deus da montanha


  Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito e regiões próximas nessa época e a formação da religião judaica, que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos estão divididos em duas partes. Esta segunda parte é dividida em seis partes menores.

 Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia” (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. O livro é muito mais abrangente e detalhado do que o mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedidos de referências podem comentar que responderei.

 Estes textos, obviamente, estão aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.




 O senhor das Montanhas de Shara



 Além do anfiteatro natural e do púlpito nas encostas de Umm al-Biyara, Nielsen também encontrou pichações escavadas na face da rocha. Pôde distinguir uma “cabeça de touro triangular com a meia lua acima dela”, que ele afirmou ser parecida com exemplos encontrados nos antigos monumentos árabes.



 A principal deidade nabateia era Dhushara, que significa “Senhor das Montanhas Shara”, sendo Shara o nome aramaico do maciço de Seir. Inicialmente, era representado apenas de forma abstrata, geralmente um bloco retangular, com olhos e um nariz. Durante a ocupação romana, Dhushara assumiu forma antropomórfica, que também se pode ver em alguns santuários esculpidos na rocha em Petra e em seus arredores.



 Assim como Yahweh, Sin e outros deuses da lua semíticos, Dhushara também podia se relacionar com o touro do céu, cujo corpo era amontanha sagrada e cujos chifres eram a lua crescente. Dessa maneira, vemos que o deus nabateu das montanhas tinha muito em comum com Yahweh, a deidade dos israelitas, que parece ter sido o genius loci do Monte Horeb, ou monte Sinai, a montanha da lua.





 A Adoração a Vênus



 A consorte de Dushara é lembrada em Petra pelo nome árabe pré-islãmico, al-Uzza, e representada por um bloco em um betil (beth-el, em hebraico, que significa “Casa de Deus”) com olhos, nariz e também boca. Ela era a personificação do planeta Vênus. Seu nome pode originalmente ter derivado do acádico uz, que significa “bode”. Esse era o principal animal sacrificado às diversas formas de Vênus em todo o Oriente Próximo, onde além de al-Uzza ela era conhecida como Allat, Astarte, Atargatis, Ishtar e rabbat al-thill, “a Senhora do Rebanho”. O símbolo de Ishtar-Vênus era uma estrela de sete pontas inscrita em um círculo, e esse símbolo foi encontrado em duas estelas esculpidas desenterradas em Harã, ao passo que na arte grega há uma forma de Vênus (ou Afrodite) que aparece montada em um bode, o que mostra seu vínculo com a promiscuidade sexual. Aliás, na tradição cristã primitiva, Ishtar-Vênus evoluiu para a Prostituta da Babilônia que, no livro do Apocalipse, segura a taça das abominações e cavalga a besta do apocalipse, que tem sete chifres. Ainda hoje em Petra vendem-se aos turistas estátuas de bronze de al-Uzza, ou Allat, segurando uma taça.



 Parece haver uma relação direta entre a adoração a al-Uzza e o bode expiatório que Aarão mandou a Azazel no Monte Seir. O ritual do bode expiatório pode muito bem ser uma lembrança confusa de holocaustos com bodes feitos a uma forma bem anterior de al-Uzza, talvez ligada com a crença erudita de que Yahweh tinha uma consorte chamada Asherath, simplesmente um outro nome de Allat, ou Astarte.



 Nielsen propôs que a paisagem entre Petra e Jebel Hilal (hilal significa “lua nova”) era a localização original do deserto de Sin, ao passo que o Jebel Al-Madhbah de Petra era a “Montanha da Lua”, portanto a verdadeira localização do Monte Sinai. Nenhum estudioso moderno parece ter levado suas teorias a sério, apesar das provas esmagadoras que demonstram que Petra era a antiga Cades.





 O Monte de Santo Aarão



 Não se sabe quando exatamente começou-se a associar a Jebel Harûn o profeta Aarão, Nabi Harun, na tradição maometana. O nome da montanha deriva do nome de Aarão, do hebreu, Aharon (aramaico haroun) traduzido como haron, significando “altivo, exaltado”, ou “montanha de força”, insinuando que o irmão de Moisés tirou seu nome da montanha. O curioso é que o apelido iídiche do nome hebraico Aarão é Arke, o nome antigo de Petra, coincidência que não podemos ignorar.



 Segundo o Deuteronômio, a vida de Aarão terminou no monte Hor (hor significa apenas “montanha”), e tanto ele quanto Moisés foram destinados a serem torturados, avistando a Terra Prometida, mas jamais tendo permissão para entrar nela. Antes de sua morte, Moisés contemplou a herança dos israelitas do alto do Monte Nebo, no cume de Fasga, na terra de Moab, antes de morrer ali. Antes, Aarão havia sofrido o mesmo destino, depois de contemplar a Terra Prometida do alto do monte Hor. Assim, sabendo que do pico de Jebel Harûn tem-se uma vista ininterrupta do que fica além do Wadi Arabah, ou seja, Israel e a Palestina modernos, uma identificação com o monte Hor é perfeitamente possível.



 Andrew Collins ouviu o relato de uma lenda antiga que falava da presença da tumba do profeta em Jebel Harûn. De acordo com ela, Nabi Harûn veio do Egito em um cavalo verde voador! Cada vez que os pés do corcel tentavam tocar num pico de montanha, a montanha desmoronava devido ao peso. Isso aconteceu seis vezes, até finalmente o cavalo e seu cavaleiro chegarem a Jebel Harûn, onde o animal finalmente conseguiu aterrizar sem problema.



 Trata-se claramente de uma história fantasiosa e, no entanto, seu desvio extraordinário da história tradicional subentende algum tipo de origem independente. O cavalo voador verde, suas tentativas de pousar nos cumes e o fato de Jebel Harûn ser vista como a sétima montanha (sete sendo um número importante na cosmologia do Oriente Próximo, na qual está ligado a Vênus e à cor verde) tendem a sugerir que a lenda original não estava absolutamente ligada a Aarão. O mais provável é que se relacionasse com alguma deidade pagã muito antiga que se confundiu com a figura de Aarão em uma data bastante posterior.



 A montanha que mais se destaca como possível candidata a monte Seir é Jebel Harun, o monte Hor da Bíblia. Contudo, não podemos afirmar com certeza se também era o monte Shara, uma vez que o templo nabateu em Petra conhecido omo Qasr el-Bint, e que se pensa ter sido dedicado a Dhushara, tem orientação no sentido norte, na direção da moderna Jebel esh-Shara, “a montanha da qual ele era Senhor”. Os autores têm certeza que a Montanha de Deus, onde Moisés recebeu os Dez Mandamentos e conversou com Yahweh, combina muito bem com o Jebel al-Madhbah de Petra, o Lugar Alto, ao passo que monte Hor e o monte Seir, onde aconteceu o ritual do bode expiatório, são, quase certamente, Jebel Harûn.





 Os Pés de Deus



 De acordo com o livro do êxodo, Moisés permitiu que seu irmão Aarão, os dois filhos mais velhos deste, Nadab e Abihu, e setenta anciãos, subissem ao “monte” de Yahweh. Diz-se que, ao atingir um certo nível da montanha, eles viram “o Deus de Israel; e sob seus pés havia como um pavimento de safira, pura como se fosse o próprio céu”. Confirma-se que esse evento ocorreu no monte Sinai pelo fato de depois Moisés ter ascendido ou “subido”, ao mesmo “monte” na ocasião em que obteve as Tábuas da Lei.



 No chamado Vale Secreto da Pequena Petra, pares de pés foram escavados nas faces rochosas, em geral na base das montanhas. Seu tamanho grande, e o fato de sempre aparecerem em posição ascendente, implica com toda a possibilidade que representem os pés de deuses, ou de um único deus, que se considerava habitar a região. Para os beduínos, os pés escavados na rocha são um sinal de que o lugar é santo e que eles devem tirar os sapatos antes de prosseguir, como é de costume nas mesquitas.



 Um fator significativo sobre os pés gigantes encontrados nas rochas em torno de Petra é que alguns deles parecem infinitamente mais antigos que o período nabateu. Um par está dentre as esculturas neolíticas de uma cabra selvagem perseguida por caçadores, que antecedem a era dos sahsu e dos edomitas em milhares de anos.





 O Ódio de Temã / As Origens de Esaú



 A animosidade dirigida contra os povos do Edom por esses primeiros profetas judeus, só pode ter surgido de rancor contra o fato de Moisés ter recebido as leis de Israel de uma montanha sagrada na terra de Edom, que também se pode chamar de “monte Farã” ou “monte de Esaú”.



 Depois da conquista de Canaã, a Bíblia praticamente não fala mais na montanha de Yahweh. O mais provável é que isso tenha ocorrido porque as rígidas leis religiosas implementadas pelos reis israelitas e judeus posteriores não permitiam mais que se citassem as práticas hebraicas de seus antepassados, os edomitas, descendentes de Edom, ou Esaú. Edom significa, simplesmente, vermelho, com toda probabilidade por causa da cor predominantemente vermelha dos penhascos de arenito de Petra e seus arredores. Assim, Esaú ou Edom era simplesmente outro nome para o genius loci da cidade, ou o “espírito local”. Dessa maneira, “monte Farã” e “monte de Esaú” eram apenas nomes alternativos do monte Sinai, em outras palavras Jebel al-Madhbah.



 Esaú também era, aparentemente, homônimo de um deus ancestral da raça humana chamado Usous, ao qual se refere Filo, um historiador de Biblos, na costa do Levante, que viveu no reinado de Adriano, imperador de Roma, por volta de 120-140 d.C. De acordo com Filo, sanchoniatho (historiador fenício, por volta de 1200 a.C.) alegava que Usous era “o inventor das roupas para o corpo que ele fazia das peles dos animais selvagens que conseguia caçar.” a esse respeito, podemos lembrar que o nome de Esaú em Hebreu significa “peludo”.


Parte II-d: Yahweh na Cidade de Pedra 
Parte II-f: Conclusões sobre Deus  

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Egito, Êxodo e Deus: Parte II-d: Yahweh na Cidade de Pedra

 Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito e regiões próximas nessa época e a formação da religião judaica, que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos estão divididos em duas partes. Esta segunda parte é dividida em seis partes menores.
 Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia” (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. O livro é muito mais abrangente e detalhado do que o mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedidos de referências podem comentar que responderei.
 Estes textos, obviamente, estão aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.



 A primavera de Moisés

 Se examinarmos o folclore e as lendas das terras da Bíblia, surgem três locais que alegam ser Ain Mûsa – A fonte de Moisés, onde Moisés bateu bateu na rocha com sua vara. Eliminamos Jebel Mûsa como provável local do Monte Sinai, e não há conexão direta entre a Montanha de Deus e o Monte Nebo, apenas o Ain Mûsa, situado em Wadi Mûsa, faz sentido do ponto de vista da narrativa bíblica.


 O tesouro do Faraó

 Na antiguidade, a água das nascentes de Wadi Mûsa fluíam através do vale e forneciam uma fonte vital do precioso líquido para os habitantes da cidade próxima de Petra, uma palavra grega que significa “a rocha”. Trata-se principalmente de uma imensa necrópole, que abrange um vale inteiro, fechado de todos os lados por um círculo de altos cumes, os quais constituem parte do maciço montanhoso de Seir. Contém cerca de 800 monumentos antigos, seja em estilo clássico ou assírio, que datam, em sua maioria, do século II a.C. até o século II d.C., e foram construídos por uma cultura árabe relativamente desconhecida chamada nabateus, parentes dos habitantes de Harã e dos mandeus. Acredita-se que em torno do século IV a.C., os nabateus começaram sua longa ocupação de Petra. A mais conhecida das grandes tumbas de Petra é a Khasneh el-Faroun, ou o tesouro do faraó, que apareceu no filme Indiana Jones e a última cruzada (1989).


 As águas de Meribá

 O fato de os nomes grego e hebreu de Petra ambos significarem “a Rocha” parece ligá-la diretamente à história de Moisés batendo na rocha e gerando as águas de Meribá em Cades. Em geral, Cades é identificada com Ein-el-Qudeirat, um vilarejo em Neguev (ou Negueb, ou Negev), pouco menos de cem quilômetros a oeste-nororeste de Petra. Ali o nome Cades parece ter sido preservado no nome de uma fonte local chamada Ein Qadis.

 Rekem, que também pode ser chamada Arke e Arce, é Petra, fato atestado não só em relatos textuais antigos tanto de origem judaica quanto cristã, mas também em inscrições nabateias recentemente descobertas na entrada do Siq(termo árabe que significa “fissura”, a entrada principal da cidade de Petra, conhecida como “Fissura de Moisés”, ou “Garganta de Moisés”).

 São Gerônimo (333-420 d.C.), o venerado patriarca da Igreja, visitou Petra, que identificou com “Cades Barnea”, ou seja, Cades, e falou de ver ali a tumba de Miriam, a irmã de Moisés. Assim, sabendo-se pela Bíblia que ela morreu e foi enterrada em Cades, esse local deve ser Petra, a antiga Rekem. Mais importante ainda, Flávio Josefo declara que Miriam foi enterrada em uma montanha “chamada Sin”, isso implica que o Monte Sinai deve ficar nas cercanias de Petra. Ao entendermos isso, podemos facilmente concluir que as lendas beduínas que ligavam a cidade de pedra à filha do faraó baseiam-se em tradições ainda mais antigas com relação à presença da tumba de Miriam no local. Foi ela quem propôs à filha do faraó que o recém-nascido hebreu que a princesa retirara da água fosse criado pela sua própria mãe.


 A rocha de Horeb

 Depois de os filhos de Israel entrarem no deserto de Sin, o livro do Êxodo nos diz que eles montaram tendas em Rafidim, onde não havia água para beber. As reclamações constantes fizeram Moisés implorar a Yahweh que fizesse um milagre, porque o povo estava pronto para matá-lo a pedradas se não pudessem beber água logo, ao que a deidade respondeu:

 Eu te esperarei junto à rocha de Horeb, e tu baterás na rocha, e dela sairá água para o povo. E Moisés assim fez na presença dos anciãos de Israel. E deu a esse lugar o nome de Massa e Meriba, por causa da discussão dos filhos de Israel e porque puseram Yahweh à prova, dizendo: Yahweh está no meio de nós, ou não?

 Os historiadores bíblicos sempre presumiram que os dois relatos em que Moisés faz fluir as águas de Massa e Meriba, ou Massá e Meribá, referem-se a incidentes completamente diferentes – um ocorrido em Horeb, no deserto de Sin, e outro que ocorreu em Cades. Mas parece bem claro, ao se examinar as duas narrativas, que elas se referem a um incidente apenas. Se for isso, Horeb e Cades são a mesma coisa, e ambos devem ser identificados como Petra. Assim, depois de analisar os vários candidatos possíveis a Montanha de Yahweh na paisagem em torno da cidade de pedra, os autores são da opinião que o Sinai, ou Horeb, só pode corresponder a dois possíveis candidatos. São Jebel Harûn, que fica a sudeste do círculo de cumes que cercam Petra, e Jebel Al-Madhbah, imediatamente a oeste da cidade de pedra.


 A defesa de Jebel Al-Madbah

 Em Jebel Al-Madhbah, um cume que se ergue a 1035 metros, há dois obeliscos escavados no próprio leito rochoso, o que significa que para criá-lo, toda a encosta da montanha precisou ser retirada. Esse feito de engenharia extraordinário foi atingido cortando-se enormes blocos retangulares de arenito de forma semelhante à retirada de blocos de rocha das pedreiras do Planalto de Gizé no Egito.

 O altar do sacrifício

 Al-Madhbah, o Lugar Alto ou o Altar, é uma plataforma oval com cerca de 64 por 20 metros de extensão. Na margem oeste está um altar esculpido em um banco de rocha, com 7,72 por 1,87 metros, e 98 cm de altura. À sua esquerda, fica uma bacia circular escavada na superfície superior da rocha, com um canal de drenagem que leva à uma piscina. Inquestionavelmente, seu objetivo era coletar o sangue dos animais sacrificados no Lugar Alto.

 A questão de quem foi o responsável pela construção do Lugar Alto é, assim como o autor dos obeliscos no nível ligeiramente inferior, objeto de pura especulação. Browning diz no tocante ao Lugar Alto:

Não se pode datar esse santuário com precisão mas acredita-se que seja obra dos nabateus, devido à alta qualidade do corte de pedra. Suas origens poderiam, porém, ser mais antigas. Ele pode muito bem ser um altar muito antigo, muito embora a disposição atual possa ser comparativamente moderna.

 De igual importância é o alinhamento do Lugar Alto, pois seu altar de pedra e degraus são orientados segundo um ângulo de 255 graus em relação ao norte. Com isso, ele se situa diretamente em frente ao pico mais setentrional de Jebel Harûn, que se pode ver erguendo-se por trás de uma crista montanhosa chamada Jebel al-Barra, a qual constitui o cume mais meridional de Umm al-Biyara.

 Em 1927, o Dr. Ditlef Nielsen, professor dinamarquês de história religiosa, viajou para Petra e passou algum tempo em Jebel al-Madhbah. No dia 08 de abril daquele ano ele observou a lua crescente descer encaixando-se exatamente em uma depressão em formato de sela em uma parede de pedra, alinhada horizontalmente em relação aos olhos do observador, sobre uma elevação nas cercanias de Umm al-Biyara, virtualmente preenchendo toda a fissura, um espetáculo que certamente os construtores do Lugar Alto pretendiam que fosse visto apenas de lá.

 A data em que ocorreu esse alinhamento lunar também é interessante, uma vez que era a semana antes da primeira lua cheia depois do equinócio de primavera. Na tradição israelita a festa da Passagem coincidia com a primeira lua cheia depois do equinócio de primavera. 


Parte II-c: Construindo Deus 
Parte II-e: As pegadas do deus da montanha 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Egito, Êxodo e Deus: Parte II-c: Construindo Deus

 Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito e regiões próximas nessa época e a formação da religião judaica, que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos estão divididos em duas partes. Esta segunda parte é dividida em seis partes menores.
 Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia” (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. O livro é muito mais abrangente e detalhado do que o mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedidos de referências podem comentar que responderei.
 Estes textos, obviamente, estão aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.

 Parte II-c: Construindo Deus:

 Um bode expiatório para Azazel

 Em hebraico, se`ir significa “áspero” ou “peludo”, como o pêlo de um bode montanhês. Seir era também a terra de Esaú, “o pai dos edomitas no monte Seir”, que era o irmão mais velho de Jacó e filho de Isaac, cujo pai era o patriarca Abraão. Esaú, ou Edom – são a mesma pessoa -, era conhecido como “o peludo” (ish se`ir), indicando que ele é meramente um aspecto do deus de Seir. Também identifica-se com o “bode” (sa`ir), ou mais corretamente o bode expiatório. Segundo o livro do Levítico:

E Aarão pegará o que foi sorteado para Yahweh e o oferecerá como sacrifício pelo pecado. Quanto ao bode que foi sorteado para Azazael, será colocado vivo diante de Yahweh, para fazer a expiação, e depois será mandado para Azazel do deserto.

 Azazel é um anjo caído, cujo nome passou a associar-se à palavra “bode expiatório”, nas traduções bíblicas. Mas na verdade vem mais provavelmente do acádio uz, que significa “bode”. Dele afirmou-se: “Sua parte entre os povos é Esaú, um povo que vive da espada, e sua parte entre os animais é o bode. Os demônios [shedim] fazem parte de seu reino, e na Bíblia são chamados de seirim; ele e seu povo são denominados Seir”. Os seirim mencionados aqui não eram demônios, é claro, mas os povos nativos de Seir, descendentes de Esaú, ou Edom.

 O monte Seir, então, seria o local original do ritual do bode expiatório realizado por Aarão, e perpetuado a cada ano na festa judaica do yom kippur, o Dia do perdão. Os estudiosos rabínicos na era medieval procuraram dissociar essa prática arcaica de qualquer sacrifício feito ao deus de Seir. Isso parece confirmar-se em uma afirmação feita por um rabi judeu que deixou claro que “o bode expiatório não é (Deus me livre!) uma oferenda de nós a ele [ou seja, o deus de Seir] mas um ato de obediência a Deus.”

 Então , que deus seria exatamente esse deus de Seir? Ele está associado a Esaú, e também com Edom, cujo nome significa simplesmente “vermelho”. Esse nome de cor alega-se que deriva da conhecida história bíblica na qual Esaú é enganado, vendendo sua progenitura a seu irmão caçula Jacó, o qual lhe ofereceu algumas lentilhas vermelhas em troca de seus direito. Mesmo assim, o verdadeiro objetivo dessa parábola talvez seja justificar a animosidade que sempre existiu entre os dois ramos distintos da família de Isaac.

 O fato de Aarão, o irmão de Moisés e sumo-sacerdote da tribo de Levi, ter imolado o bode no monte Seir, na terra de Edom, onde os registros egípcios falam de um lugar chamado “Yahweh na terra dos shasu”, é interessantíssimo. Aí sim, talvez possamos encontrar as raízes por traz da adoração de Yahweh. Como a Montanha de Yahweh poderia, por uma lado, ter sido encarada como o assento, o trono ou o santuário da deidade israelita, e por outro lado morada do deus “pagão” de Seir?


 Montanha da Lua

 Por volta de 640 a.C., um homem chamado Josias foi ungido rei de Judá. Ao contrário de vários antecessores seus que haviam caído na idolatria, era seguidor fanático de Yahweh, e se diz ter “seguido em tudo o comportamento de seu antepassado Davi, sem se desviar nem para a direita nem para a esquerda”.

 Josias trouxe de volta a adoração a Yahweh como religião nacional e tentou exterminar todas as formas de idolatria. Quaisquer práticas religiosas ou trechos do Velho Testamento que ligassem o deus de Israel à terra dos edomitas, os inimigos mortais dos israelitas, teriam sido expurgados.
Diz-se que Amasias, seu ancestral, Rei de Judá, depois de matar tantos “filhos de Seir”, 200 anos antes, trouxe de volta a Judá

[…] os deuses dos filhos de Seir, e os adotou como seus próprios deuses, os adorou e queimou incenso diante deles.

 É possível que Josias tenha instruído os copistas do Pentateuco para dissociarem o culto a Yahweh de quaisquer referências ao deus “pagão” de Seir, que dali para a frente foi transformado em demônio chamado Azazel ou Edom. É plausível também que Josias tenha eliminado quaisquer associações geográficas entre Seir e a Montanha de Yahweh, na esperança de que isso purificasse a lembrança da aliança entre Moisés e Yahweh no monte Sinai/Horeb. Se isso tiver mesmo ocorrido, pode explicar melhor por que, tantas gerações depois, o profeta Ezequiel, como “a palavra do Senhor”, falou tão mal do monte Seir:

Estou contra ti, ó monte Seir, e estenderei meu braço contra ti, e fazer de ti um deserto, um lugar desabitado. Transformarei tuas cidades em ruínas, e tu serás um deserto, e conhecerás que Eu sou o Senhor.

 Parece que as gerações posteriores de Judeus, de alguma maneira, distanciaram-se da forma de adoração religiosa praticada pelos edomitas, os descendentes de Esaú. Para tanto ódio ser canalizado para esse fim, obviamente não se tratava apenas do fato de a religião ser “pagã” , mas uma inversão da percepção dos israelitas acerca da adoração de Yahweh. Em outras palavras, o deus de Seir, não era entidade pagã coisa nenhuma. Ele era simplesmente um aspecto de Yahweh, mas que, ao que parece, os israelitas e os judeus que vieram depois viram como blasfemo. O que, então, causava-lhes tamanho asco em relação a essa forma de adoração pré mosaica dos hebreus? A resposta pode ser a associação bastante íntima de Yahweh à lua.


 À procura de Sin

 Antigamente, a lua era considerada o mais antigo dos planetas, tendo precedido o sol, como o dia segue a noite. Ela era considerada o elemento que controlava os ciclos da natureza. Na antiga Mesopotâmia, o moderno Iraque, ela era adorada com o nome de Sin, do sumério en-zu ou zu-en, que significa “a senhora do conhecimento”, cujo templo principal era em Ur, uma cidade importante situada na boca do rio Eufrates.

 Porém, os mais antigos adoradores de um deus lunar não eram fazendeiros que aravam a terra, mas pastores nômades proto-aramaicos, falantes de línguas semíticas, que perambulavam pelos desertos da Síria e da Arábia, e eram os precursores dos madianitas e dos árabes pré-islâmicos. No velho testamento, os arameus eram descendentes de Aram, filho de Sem e tio-avô de Abraão cujos irmãos mais velhos diz-se que se chamavam Nacor e Arã. Madiã, ancestral dos madianitas, foi o quarto filho de Abraão, com Cetura, sua “concubina”, com a qual tornou-se o pai de muitas nações.

 Diz-se que Abraão viveu por volta de 2000 a 1800 a.C., e que nasceu em “Ur dos Caldeus”, situada na terra de Sanaar, segundo a Bíblia, antiga Suméria. Ao que parece, a cidade bíblica de Ur deve ser identificada com Urfa, antiga Edessa, no sudeste da Turquia. Aparentemente ali ficava uma antiga cidade chamada Ursu em textos sumerianos, acadianos e hititas. O mais interessante é que Urfa tem seu próprio templo ao deus da lua Sin, ao passo que o termo “caldeus” era simplesmente outro nome dos adoradores de estrelas de Harã e Urfa, que eram conhecidos desde o oitavo século em diante como sabianos ou sabeus.

 O primeiro filho de Abraão, Ismael, nascido de uma criada egípcia chamada Hagar, ou Agar, foi o ancestral dos ismaelitas, ou povos árabes. O segundo filho de Abraão, Isaac, filho de sua esposa, Sara, estava destinado a ser o pai de Jacó, ancestral de todos os israelitas, e Esaú, fundador das tribos edomitas.

 Os estudiosos da Bíblia viviam encafifados com esse negócio de Abraão ter sido criado em “Ur dos Caldeus” e passado a juventude em Harã, ambos grandes centros de veneração ao deus da lua Sin. Como ele é considerado o primeiro grande patriarca, a possibilidade de uma conexão entre o deus de Abraão e o deus da lua Sin é mesmo fascinante. É fundamental nos certificarmos disso, uma vez que a Montanha de Yahweh, sobre a qual moisés recebeu as Tábuas da Lei, se chama Sinai, literalmente “de Sin” ou “da Lua”.


 A cidade de Sin

 Harã era chamada de “a cidade de Sin”. Os nativos de Harã acreditavam que Adão, o primeiro homem, “era um profeta, enviado da lua, que chamava as pessoas para adorarem a lua”. Mas desaprovam Set, o filho de Adão, porque ele discordou do pai a respeito da adoração à lua.

 Acreditavam que Abraão foi originalmente criado entre as duas seitas deles – os adoradores de ídolos e os adoradores de estrelas – mas acabou se voltando para os Hunafã, ou seja, aqueles que eram contrários à fé.


 Os Deficientes da Lua

 Também é interessante examinar os mitos e lendas dos mandeanos, um povo que era originário de Harã mas espalhou-se durante os últimos 1500 anos pelo baixo Irã e Iraque. Hoje em dia seus descendentes são os árabes dos pântanos. Segundo a tradição mandeana, Bahram, o nome que davam a Abraão, era originalmente um mandeano de Harã. Mas ao ser circuncidado, ficou impuro. Bahram começou a adorar Yurba, um espírito solar identificado com o Adonai hebreu, que estava sob as ordens de Ruha, rainha das trevas. Dali por diante, ele destruiu todos os ídolos do grande templo e seguiu para o deserto, e com eles foram todos os impuros e “leprosos, e aqueles que eram deficientes – e desses basran Sira (deficientes da lua) os descendentes são impuros e deficientes até a sétima geração”.

 Ele escolheu o lado das trevas, e lutou contra os mandeanos, que prendia e mandava circuncidar à força, tornando-os impuros como ele próprio. Mas depois arrependeu-se, e o planeta Saturno disse-lhe que sacrificasse seu filho (Isaac), porém, tendo se arrependido verdadeiramente, recebeu permissão para libertar o filho e oferecer um carneiro em seu lugar.


 Festa da Páscoa

 Com a origem e a natureza das festividades árabes em mente, descobrimos que os hebreus, que também eram originalmente pastores nômades, baseavam seu ano de doze meses (treze a cada três anos) no primeiro aparecimento da lua nova, e realizavam todas as festas principais de acordo com o calendário lunar. Como os árabes, começavam no primeiro mês, Abib, moderno Nisan, com um festival da primavera, coincidindo com o nascimento dos filhotes dos animais. Falamos aqui da Páscoa, ainda hoje uma das três mais importantes festas do calendário judaico. De acordo com o livro do Êxodo, o Pesah, ou Passagem, comemora a noite que Yahweh “passou” sobre as casas do hebreus para matar os primogênitos egípcios. De sua descrição no livro do Êxodo, a origem do Pesah claramente evoluiu de um costume religioso arcaico semítico muito anterior, ao qual aderiram os hebreus pré-mosaicos.

 Como as festividades do Pesah eram uma celebração noturna, que começava ao pôr-do-sol, culminava ao alvorecer e era realizada na presença da deidade, elas só poderiam ser identificadas com a lua cheia. Curiosamente, “a face de Yahweh” e a “glória de Yahweh” são designações antigas da lua cheia.

 O principal animal imolado ao deus lunar na Arábia pré-islâmica era o touro, tido por personificação do deus Sin, correspondendo a lua crescente a seus chifres resplandescentes. Essa conexão entre a lua a adoração ao touro também se reflete na religião hebraica, pois no livro dos Números se diz que no 15º dia do sétimo mês (a lua cheia coincidindo com o equinócio de outono) treze touros castrados devem ser imolados a Yahweh, doze no segundo dia, onze no terceiro, etc., até o sétimo dia, quando se devem imolar sete touros. Assim o maior número de touros oferecidos em qualquer dia coincidiria com a lua cheia, o número diminuindo conforme a lua minguava. Além disso, treze é o número dos meses lunares em um ano; sete dias é um quarto do ciclo lunar, ao passo que o número total de touros imolados chega a setenta, o número de anciãos que Moisés permitiu que subissem a Montanha de Yahweh.

 Josias tentou expurgar do Pentateuco elementos indesejáveis da fé original de Yahweh, conforme praticada pelos edomitas, os filhos de Seir. Nas partes onde não pôde remover sua conexão com os acontecimentos bíblicos, eles foram denunciados como blasfemadores, idólatras e asseclas de demônios dos seres diabólicos.


 Montanha da Lua

 O nome mandeano Sira ou Sera, da lua, é foneticamente tão semelhante a Seir, o deus local que deu seu nome ao vale e à cadeia montanhosa ao norte do Golfo de Aqaba, que não pode ser mera coincidência. Sustentando esse vínculo está o fato de que tanto os nativos de Harã quanto os mandeanos eram relacionados com os nabateanos, ou nabateus, um povo falante de língua semítica que habitou o Seir do século VI a.C. até a era do Império Romano. Ainda mais, sabe-se que a grafia mandeana deriva do original nabateu, demonstrando-se como o lugar chamado Seir pode muito bem ser uma corruptela do mandeano “Sira”, ou “Sera”, ou vice-versa, fazendo assim do monte Seir, como o monte Sinai, a “Montanha da Lua”.


Parte II b: A Morada de “Deus”  
Parte II-d: Yahweh na Cidade de Pedra