segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A dama (na puta que a pariu!) na água

 Ontem tive uma experiência cinematográfica muito interessante. Assisti a um filme que na ocasião considerei o pior que ja havia visto em toda minha vida. Como não quero ser injusto, talvez meu senso crítico esteja mais apurado, ou minha capacidade de tolerância diminuída (o que é mais provável), assim, digo apenas que com certeza foi um dos piores: A dama na água. Do início ao fim, há um asequência inacreditável de tudo que se possa imaginar para deixar o filme cada vez pior.
 Ele não tem absolutamente nada de bom? Tem. E o bom dele se resume a uma visão otimista, esperançosa e politicamente correta, que o roteirista tenta compartilhar. Ou seja, questão de princípios. Um monte de gente acha péssimo o otimismo a esperança e o politicamente correto.
 As atuações são péssimas, fica difícil entender os personagens, talvez eu tenha tido essa impressão porque esperava como personagens pessoas um mínimo próximas do real. Mas eram todos esteriotipados, fracos, com atitudes estranhas. A cada nova cena que exigia alguma atuação dos atores, eu só conseguia pensar: "quem em sã consciência age assim?!". No começo achei que era um problema de roteiro, mal escrito, história mal elaborada, diálogos muito ruins. Mas quanto mais eu assistia, mais eu tinha certeza de que talvez (mas só talvez) a história nao fosse tão ruim (as falas dos personagens são inquestionávelmente ruins) e de que a culpa era do diretor.
 Não há aprofundamento nos personagens, nós não sabemos quem eles são realmente, apenas aquele esteriótipo que no início parecia proposital, para fazer graça, mas depois eu não sabia mais o que era. Achei que era um filme com baixo orçamento, e acabaram contratando atores ruins, diretor ruim e seguindo a mesma lógica, equipe técnica ruim também. O que parecia um contraste apenas com o monstro vilão da história, que achei bom, mas tenho uma grande sensação de que essa impressão foi devida a minha impressão com todo o resto do filme.
 Decidi pesquisar alguma coisa sobre a personagem principal do filme, uma "narf". Não por interesse no filme, mas sim em mitologia. Eu queria ver se eles realmente estragaram alguma coisa que possuía certo valor. Eis então que começa a aflorar minha indignação. Um blog após outro defendendo o filme e o diretor que também era o roteirista, produtor e um dos atores (como minha namorada me disse uma vez, caras assim devem ter orgasmos múltiplos quando sobem  os créditos do filme). Descobri que o roteiro surgiu de uma história de ninar que o diretor contava para suas filhas. Aí ele se achou o Lewes Carol e resolveu começar o desastre. Aí descobri o mais estarrecedor, o diretor, produtor, roteirsta e ator é Manoj Nelliattu Shyamalan, conhecido também como M. Night Shyamalan, famoso por "sinais", "a vila" e "sexto sentido". Dos seus filmes, assisti quatro até hoje, e a qualidade definitivamente piorou gradativamente (apesar desse em questão ser um verdadeiro salto em sua filmografia).
  Descobrir quem era o diretor me tranquilizou um pouco, pois imagino que seus defensores, são GRANDES fãs. O que me tranquilizou ainda mais, foi descobrir que o filme foi indicado ao framboesa de ouro por pior filme e o Shyamalan por pior diretor e ator coadjuvante.
 Não comentarei sobre a história, a sinopse não é difícil encontrar. Enfim, não estou sendo maldoso, na verdade eu tenho grande capacidade de encontrar coisas boas em produções artísticas em geral, mas esse realmente é muito ruim. Acho que se alguém se esforçasse muito pra fazer um filme ruim, ele seria mais interessante que "a dama na água".

terça-feira, 30 de agosto de 2011

(in)evitável?

 *Nota: não é meu costume explicar o que meu dedo aponta, no entanto considero necessário algum esclarecimento: a ausência de nomes no texto, se deve à impressão que tenho do quanto esse assunto é comum - o que não tira sua importância. Nas palavras de Clarice Lispector: "Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho... o de mais nada fazer."
 Me incomoda de certa maneira a narração no final de cada parte do conto, pois acho que tira um pouco da liberdade de quem lê. No entanto sinto que o texto pedia tal narração.
 Se você evitou alguma das etapas abaixo, ou não pôde evitar mas superou: parabéns! Se não: boa sorte :)



 - Por que você tá quieto?
 - Queria te falar uma coisa... Importante.
 - Então fale.
 - Já faz quatro meses que estamos juntos, nos vemos quase todos os dias, fazemos tantas coisas juntos... Fica comigo.
 - rs Mas eu fico com você.
 - Só comigo. Larga ele. Ele nem gosta de você. E você também não gosta. Vocês ficam aí se traindo e se enganando...
 - Claro que não. Ele não me trai, e nós nos gostamos sim.
 - Então por que você está esse tempo todo comigo?
 - Porque eu gosto de você também.
 - É... Você gosta de mim quando ele te faz falta. Na ausência dele é que se mostra o seu “gostar” de mim.
 - Não fala assim, eu amo você. De verdade.
 - Assim como você amou os outros antes de mim? Assim como você vai amar outros depois?! Eu cansei! Fica comigo ou vamos terminar isso agora.
 - Ai, você sabe que eu não vou terminar com meu namorado.
 O jovem com semblante pesado deixa a menina para trás. Ela o observa, com um pouco de lágrima nos olhos. Vai para a casa de seu namorado.

 Entra na casa, vai até a sala, seu namorado está assistindo televisão, um jogo de futebol. Ela chega por trás e o abraça, tenta beijar sua boca, mas alcança apenas o rosto. O namorado simula o ato de beijar, porém sem tirar os olhos do jogo e mal virando o rosto. Ela parece frustrada, senta-se no sofá ao lado da poltrona dele.
 - Tá tendo uma peça bem legal no teatro hoje. Vamo vê?
 - Ah não... To cansado, você sabe que eu fiquei a semana toda fora, trabalhando, cheguei agora e to querendo descansar.
 - Você já parou pra pensar quanto tempo faz que você só fica descansando?! Talvez você esteja cansado é de mim! É sempre a mesma coisa! Que saco!
 - Que saco você! Agora tenho que fazer tuas vontades, e justo hoje que ta tendo o jogo.
 Ela sobe as escadas da casa, vai para o quarto, chora. No escurecer que chega aos poucos, ela fica olhando para a janela, mas sem prestar atenção em nada específico, apenas pensa em porque as coisas complicam tanto pra ela, e adormece, sem se dar conta, ou, mais especificamente, se esforçando em não se dar conta, de que o medo que ela sente é o que realmente a tortura e o que a faz tomar decisões erradas, uma após outra.

 Acorda uma hora depois, sentindo seu peito apertado, pega o celular e manda uma mensagem para seu “amigo”: “Gostaria que você me entendesse. As coisas não são simples pra mim. Tanta coisa acontecendo... Você me faz muito bem. Amo muito você! Pra sempre! Espero que você ainda queira me ver. Mas se não quiser tudo bem. Eu vou entender. Bjos!
 Pouco depois seu celular dá um bip: “Você se esforça em complicar as coisas. Você deve sentir algum prazer em sofrer. E em me ver sofrer também. Mas acho que não consigo mais ficar sem você. Te espero amanha. Bj!".
 E em seu quarto, onde estudava para a prova de física do seguinte, ele sofre, porque espera força de alguém que possui muita fraqueza, e cria expectativas sobre o que não deveria, pois o esforço é apenas seu, da outra parte há apenas comodidade.

***

 O rapaz se levanta, veste a cueca e as calças.
 - Você já vai? Assim?
 - Tenho que ir. Você sabe.
 - vou sentir tanta saudade.
 - Não devia. Já te avisei que você não devia levar muito a sério essa história.
 A garota fica com um pouco de lágrima nos olhos.
 - Por que você me trata assim? Só queria ficar bem com você.
 - Eu também. E estou muito bem assim. Não vem arrumar encrenca não. Por que você não fica com aquele carinha que ta sempre atrás de você?
 - Eu não gosto dele pra isso.
 - Mas ele gosta de você. Você devia aproveitar a oportunidade de ficar com alguém que gosta de você de verdade, porque comigo não vai rolar nada além disso aqui não.
 - Às vezes parece que você só quer me magoar.
 - Não é verdade. To é pensando no que é melhor pra mim.
 Ele termina de se vestir, da um tchau, assim como quem se despede de alguém em uma entrevista de emprego, pega seu carro e vai para casa.

 Em casa, liga a televisão e senta-se no sofá. Está passando uma partida de futebol, do seu time, mas ele mal percebe isso, pensa na frustração que vive, lembra com saudade de sua ex-namorada, que o deixou porque descobriu que ele a traíra. Na verdade sua ausência em casa aumentou depois que começou a namorar novamente, agora com a garota que mora com ele. Ele tenta se convencer que isso é o melhor para eles, mas pensa com irritação na hora que ela vai chegar, e nos momentos que ela irá querer passar com ele, enquanto ele só quer ficar ali. De repente é envolto num abraço que vem por suas costas. Ele cumprimenta a namorada, ou não. Não tem muita certeza. Ela quer ir ao teatro com ele, ele só quer “paz”. Discutem e ela sobe as escadas em direção ao quarto. A porta bate.
 “Que saco! Vontade de ter ficado mais tempo fora mesmo. Eu podia ter arrumado outra cidade pra ficar mais um ou dois dias antes de voltar”
 E assim ele fica se torturando, forçando uma situação incômoda, porque por certo tempo, em certa época lutou para ficar com a mulher que tem hoje, mas na verdade era apenas pra tentar fugir de seu outro amor, que talvez pela impossibilidade de voltar a tê-lo, fica a pensar que seria a sua pílula da felicidade, no entanto não pode deixar escapar a vida “perfeita” que busca ter agora.

***

 A porta do quarto se abre, a garota está acordada há algum tempo. Seu namorado se senta ao seu lado.
 - Me desculpa. É que to cheio de problemas com o trabalho. Tá meio atrasado. E a viajem foi longa, cansativa...
 - Tudo bem. Deixe.
 - Einh... Quer sair ainda?
 - Não. Não vai dar tempo. Eu tinha que me arrumar ainda.
 - Vamo jantar em algum lugar. Esquecer essa discussão. Eu te amo e quero ficar com você.
 Ela se arruma. Eles vão a um restaurante. Lá, comem e se descontraem. O celular dela da um “bip”, ela olha: “To morrendo de saudads! Durma bem. Até amanhã.”
 - Quem é?
 - Ninguém. Propaganda só.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

"Sonhos" de uma noite de inverno

 Desço na rodoviária da cidade, o tempo não parece muito bom, um pouco de garoa e uma brisa fria. Faz tempo que não venho à praia, tudo bem que não deve ser tão divertida com esse inverno e sozinho, mas a solidão e o frio eu posso resolver fácil com a necessária quantidade de bebida. Sigo pela estrada que vai até o centro, onde mais à noite terá alguns shows. Nada muito empolgante, mas é alguma coisa. Vou para o mercadinho mais próximo e compro uma garrafa de gim barato, abro e dou um trago. As ruas ainda estão vazias, exceto pelo espaço coberto onde acontecerão os shows, que no momento está repleto de senhoras de meia idade jogando bingo, e crianças correndo até serem bruscamente paradas por agarrões firmes em seus cabelos por seus pais. Anjinhos. Vou em direção à praia, passo por lojas, lanchonetes e barzinhos fechados, uma caminhada de uns quinze minutos. A garoa pára, chego à praia, vou caminhando pela areia até chegar a uma formação rochosa com a qual o mar se choca, sento e fico bebendo enquanto vejo as ondas se quebrarem. Estou com um pouco de sono, deito sobre as pedras, o vento diminui. Algumas pessoas passam por mim, sem dar muita atenção, parece uma família de turistas aproveitando sua casa de praia, ou sem muito dinheiro pra ir pra um lugar mais quente.


 Desperto, pego meu celular para ver as horas: 17h17min. Ainda tenho dois terços da garrafa cheios, me levanto e vou para um barzinho pelo qual passei antes e estava aberto, onde a porção de batatas fritas parecia grande, barata e calórica, perfeita para me preparar para o resto da noite. No bar, como as fritas e observo o movimento aumentando na rua, viro um martelinho de cachaça e em seguida um copo de chope. Pronto! Vamos à “festa”. A música já começou a tocar, não sei como defini-la com certeza, é algo entre sertanejo, pop, e funk carioca. Agora a música esta lenta, um pouco a frente há três policiais encostados em uma viatura. Um jovem caminha na direção deles, um pouco atrás uma garota o filma com um celular. Ele está a um passo dos policiais, quando a música muda de ritmo para uma batida funk, o rapaz começa a dançar, rebolando e mexendo os braços ao ritmo da batida enquanto vai descendo até o chão. A música volta ao ritmo lento e ele se levanta, com um ar calmo dá as costas aos guardas e caminha em direção a uma pequena rua ao lado da viatura. Um dos policiais tira seu cassetete e tenta golpear o “dançarino”, este ao perceber a movimentação corre e escapa do golpe, mas em seguida o policial acerta um chute de raspão no pé do fugitivo, que cambaleia e vai correndo tentando recobrar o equilíbrio. Um dos outros policiais corre em “auxilio” do colega, quando os dois primeiros adentram a pequena rua a última coisa que vejo é o cassetete acertando as costas do rapaz, que se retorce e desaparece com os guardas a lhe seguir. A garota que filmava tudo acompanhou a ação a uma distância segura, os dois policiais voltam do beco, parecendo ter perdido sua presa, vêem a garota que ainda os filma, esta se vira e corre em direção ao espaço coberto, agora já lotado de todo tipo de pessoas. Provavelmente esse vídeo terá uma boa quantidade de acessos na internet.


 Encosto-me em um canto, longe do palco e sem tanto tumulto, não é o tipo de música que eu faço questão de ouvir, na realidade dificilmente eu estaria aqui se não estivesse acompanhado. Tomo mais um gole de minha companhia. Noto que uma garota olha bastante para mim, está sozinha, estico a garrafa em sua direção, num gesto para oferecer-lhe. Para minha surpresa ela vem até mim, pega a garrafa e da um longo gole. Amor à primeira vista! Ou mais ou menos isso. Não fiquei surpreendido pela atitude em si, mas sim pela pessoa que aceitou minha gentileza. Traços delicados, cabelo cuidado, maquiagem bem feita, mini-saia roxa com uma meia-calça grossa por baixo, ar agradável. Gostei.
- Ola. Não achei que você fosse aceitar o gole.
- Porque não? Meninas não podem beber?
- Podem. Mas não achei que você era dessas que bebem gim puro direto da garrafa rs.
- Você sempre julga as pessoas pela aparência?
- Nunca. Por isso te ofereci :).
- Você não parece o tipo de pessoa que gosta dessas músicas.
- É. Não gosto. Você quer ficar vendo as bandas?
- Não. Vamos dar uma volta.
- Qual o seu nome?
- Natalia. E o seu?
- Billy
Conversamos até chegar ao atracadouro, pouca luz, poucas pessoas passeando por ali. Eu a seguro e a beijo. Ela corresponde. Seguro sua nuca com firmeza, vou escorregando a mão por suas costas, quando minha mão chega próxima de sua bunda ela a pega e sobe um pouco, para sua cintura. Sentamos em um banco e terminamos a garrafa enquanto nos conhecemos melhor. Ela está sozinha na cidade, esperando duas amigas que chegam no dia seguinte, está hospedada na casa de uma delas. Fico olhando seus olhos, há algo muito singular em sua beleza, me aproximo e beijo novamente. Minha mão segura uma de suas coxas, vou subindo vagarosamente até passar do limite da sua saia. Ela me pára mais uma vez.
- Calma. Acho que era bom eu te contar uma coisa.
Ela levanta e caminha até uma parede próxima, eu a sigo, Ela se encosta.
- Teu namorado ta por aí.
- Não tenho namorado. Você vai embora quando?
- Amanha de manhã.
- Então é melhor eu falar agora mesmo. É que eu não sou o tipo de mulher que você ta pensando.
- Como assim? Você é uma garota de programa? Tudo bem por mim rs.
- Não. Na verdade eu não sou totalmente uma mulher.
- Tá me zoando né?!
- É sério.
Eu agarro sua coxa com força, ela está cabisbaixa e não se move, subo minha mão até sua virilha e ela continua inerte. Então sinto uma sensação nada agradável: um considerável “volume” entre suas pernas.
- Filha da puta!
Agarro seu pescoço e a forço contra a parede.
- O que que você tá pensando?! Se eu gostasse de homem eu teria procurado um!
Enquanto seguro seu pescoço com a mão esquerda, levanto a direita, pronta para acertar-lhe um soco, estou possesso e ela está ciente da cólera em meus olhos, começa a choramingar
- Eu devia te socar! Ou te dar uns tapas!... ou...
Olho pra ela, agora com mais frustração do que raiva.
... um puxão de cabelo... ou alguma coisa assim...
Empurro sua cabeça contra a parede e a largo.
- Vo sair fora. Fica longe de mim.
Viro-me, dou um passo, paro e olho para ela mais uma vez.
- Quantos centímetros o teu tem?
- Quatorze.
- Hum... Pelo menos isso... O meu é maior.
Viro-me novamente e saio, sem olhar para trás, frustrado, mas me sentido um pouco menos ridículo.

domingo, 3 de julho de 2011

Drogar-se ou não drogar-se? Eis a questão:

Qual a motivação de alguém que luta uma batalha que o resultado já é bastante previsível? Mais: qual a motivação para CRIAR essa guerra e se esforçar tanto em sua manutenção diante não mais de previsões, mas de resultados concretos, de derrota após derrota? Não pode ser simples ignorância, é absurdo pensar que somos governados por pessoas sem o mínimo de pensamento lógico, que nossos representantes, em sua maioria, são tão incompetentes e ignóbeis quanto tentam manter a população que representam. Será que a imagem de que a população em sua coletividade é estúpida, força nossos líderes a se mostrarem estúpidos para serem aceitos como verdadeiro reflexo de seus eleitores e assim continuar no poder?

 Acho que não. É uma estranha e triste coincidência que grandes “mentes pensantes” de repente, quando chegam aos jogos políticos, tenham sua visão tão estreitada e capacidade de reflexão tão engessada.  Unindo meu otimismo com a vontade de não ser ingênuo em subestimar as pessoas, a conclusão é que há um motivo, e que seu objetivo é tão filantrópico quanto ingênuo.

 Então, vamos às teorias conspiratórias:

“A indústria Norte-americana do nylon (derivado do petróleo), teme a concorrência com o tecido de cânhamo: três vezes mais durável, dez vezes mais forte que o algodão, natural em contraposição ao nylon, ecológico, rende muito mais que o algodão, cresce mais rápido, é mais barato, produz muito em pequena propriedade, recebe melhor os pigmentos, um tecido que respira mais...
A Nylon Du Pont foi quem financiou a campanha de difamação da Cannabis, financiou parlamentares pra criarem Leis proibindo-a. O Sr. Lammont Du Pont financiou a cadeia de jornais de Bill Hearst, comprador dos químicos da industria Du Pont, para atingir a opinião pública.
Andrew Mellon, proprietário da petrolífera Gulf Oil, Secretário do Tesouro dos EUA, emprestou dinheiro à Du Pont pra comprar a General Motors e forçou o Congresso a aprovar Leis pra criminalizar a maconha e pra diminuir impostos às petrolíferas... Petróleo gerador do nylon.” (retirado de: http://eunamatrix.blogspot.com/2009/06/ignorancia-parte-2.html)

 Li outra matéria há alguns anos, dizendo que a proibição da maconha nos EUA foi uma forma de (legalmente) discriminar os mexicanos  que viviam no país (manter certo controle social) – que eram em sua maioria agricultores e tinham o hábito de fumar a planta –, além de alavancar a venda de jeans – em função de favores políticos -, já que a cannabis era uma comum matéria prima para a produção têxtil, tanto é que se especula que canvas - como são denominadas as telas para pintura em várias partes do mundo - seja uma corruptela da palavra cannabis, da qual as telas para pintura e velas de navios, por exemplo, eram confeccionadas antigamente.

 E uma das minhas preferidas: capitalismo. A política e os lucros obtidos com o tráfico de drogas possuem não só uma estreita, como também “amigável” relação: 1- alguns traficantes podem ter se tornado políticos ao longo do tempo; 2- alguns políticos podem ter ser se tornado traficantes ao longo do tempo. 3- traficantes e alguns políticos mantêm uma relação na qual ambos lucram.

 O tráfico de drogas existe com a força que tem hoje, por causa da campanha de guerra contra as drogas. Quanto mais dinheiro se investe em seu “combate”, mais investimento é feito também por parte dos traficantes na administração de seu tráfico, isso inclui refinamento nas operações, especialização nas várias áreas das quais o tráfico depende e a compra de armamento bélico, mercado que em boa parte é alimentado pelo tráfico, gerando um ciclo bastante cômodo. E mais dinheiro empregado pelo governo no combate às drogas significa menos dinheiro empregado em outras áreas, além de uma possibilidade a mais para oportunidades de desvio de dinheiro público. O usuário alimenta o tráfico? A proibição alimenta o tráfico. Um grande exemplo conhecido há muito é o da lei seca nos anos 1930 nos EUA, que tornou célebres e ricos muitos gângsteres da época - entre eles o mais conhecido deve ser Al Capone.

 A legalização ou descriminalização das drogas diminuiria drasticamente os lucros dos traficantes, que migrariam para outras atividades ilícitas: uma grande falácia. Os traficantes já usam o dinheiro obtido com o tráfico para financiar crimes em outras áreas, e muitas vezes outros tipos de crimes são cometidos em função do tráfico de drogas. Mesmo que houvesse um aumento na prática de alguns crimes, o dinheiro jogado fora no combate às drogas poderia ser empregado no combate a esses crimes, com mais foco e eficiência. Digo “dinheiro jogado fora”, porque se esses investimentos realmente trouxessem um resultado desfavorável aos traficantes, não veríamos o crescimento e o aperfeiçoamento do tráfico ao longo dos anos.

 O tráfico provavelmente continuaria existindo com a legalização das drogas, mas em uma escala muito menor, porque já não compensaria tanto investimento na atividade nem no combate a ela. Seria algo como o contrabando de bebidas, cigarros, e produtos falsificados, que são um problema por sua qualidade, mas principalmente para os cofres públicos que deixam de arrecadar milhões com essa prática. Isso me leva a conclusão de que se existe algo que o governo permite, alguma parte de bastante influência está ganhando com a atividade.

 Muitos defendem que a maconha é uma porta de entrada para outras drogas. Isso é verdade, apenas porque o traficante que vende a maconha, também quer vendar a sua cocaína, o seu crack e qualquer outra coisa que lhe traga lucro. Apesar de não possuir vícios, sou um usuário esporádico de bebida alcoólica (como a coisa parece bem mais pesada posta dessa forma, não é?), sou a favor da descriminalização de quaisquer drogas, porque com controle sobre seu uso, o governo poderia aproximar as pessoas para um tratamento, ao invés de empurrá-las cada vez mais para perto dos traficantes. Além de que considero injusta essa proibição conveniente de drogas. Vamos proibir o uso das drogas? Então vamos definitivamente proibir o uso das drogas, aí podemos criar mais prisões e abarrotá-las ainda mais de gente. E você que sofre de enxaquecas, por exemplo, vai ser atirado atrás das grades se tomar alguma droga que alivie seu sofrimento e traga mais conforto e qualidade para sua vida.

 Dizer que o afrouxamento nas restrições às drogas influenciaria as pessoas em seu uso, é o mesmo que dizer que a liberação de drogas como bebidas alcoólicas, tabaco e café, por exemplo, incentiva as pessoas ao uso dos mesmos. É muito mais uma questão de informação e formação sócio-cultural do que qualquer outro fator que leva ao uso ou não-uso dessas substâncias.

 O foco de qualquer sociedade que aspira progresso deve ser a educação, a real conscientização do que é e do que deixa de ser, não uma oposição baseada no que alguns interessados simplesmente desejam que se acredite porque lhes é conveniente. É importante esclarecer as coisas, nunca mentir ou manipular dados. Maconha não mata, mas pode viciar, assim como o chocolate – substância psicoativa mais consumida no mundo -, ou o álcool – mas esse podendo levar à morte inclusive por intoxicação.

 Talvez se discuta tanto hoje em dia sobre a liberação da maconha, em boa parte pela pressão da indústria que visa lucros, na produção têxtil, de combustíveis, medicamentos e outros produtos industrializados que podem ser obtidos por meio da planta. E tudo isso com menor custo e maiores benefícios, já que o cultivo da cannabis ativa não necessita de agrotóxicos, cresce à grande velocidade, e toda a planta, desde suas sementes, pode ser aproveitada. Lucros que os governos não querem deixar de ganhar. Apesar de ser por motivos pouco nobres, espero que essa discussão, no final contribua para o amadurecimento da sociedade, mesmo que esse não seja o foco principal.

 Não apoio o uso de drogas, sou contra quaisquer vícios, mas antes, sou a favor da coerência e contra preconceitos em geral. Não sou viciado em qualquer droga, estou ciente dos males que causam, no entanto estou ciente dos males que causam o seu combate e dos benefícios que elas trazem em determinados usos. Um mundo sem drogas NUNCA existiu e nunca vai existir. Você, viciado em aspirinas ou descongestionantes nasais é um “drogado”, dependente de substâncias que trazem riscos à sua saúde sim, mas você é um usuário de drogas legais. Por isso você é menos “drogado”? Não, apenas as drogas são diferentes (para quem se interessa pelo assunto, sendo contra ou a favor, sugiro que assista ao documentário quebrando o tabu, atualmente nos cinemas).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Cuidado com os sentimentos

 Sim, é necessário cuidado com os sentimentos. Alguns significados de cuidar: cogitar; pensar; meditar; refletir; interessar-se por; interessar-se com; reparar. As pessoas costumam usar essa palavra como um sinal de perigo, para manter distância. O medo é prejudicial, como já disse mestre Yoda: “O medo é o caminho para o lado negro. O medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento”.

 Deixando o mestre jedi um pouco de lado, o medo nos impede de viver plenamente, existir é fácil, viver é bem mais complicado. Viver te faz correr riscos, você pode se machucar, mas quem quer viver enclausurado numa bolha? A questão é se vale a pena viver algo. Tudo vale à pena se a alma... Não! Ridículo! Ter o mínimo de bom-senso é necessário: têm coisas que realmente não valem à pena, todo mundo deve ter um repertório com alguns exemplos próprios, mesmo assim insistem em usar esses versos para justificar erros ou fingir um não-arrependimento – muitas vezes por antecipação. Com esses momentos que sentimos que algo não valeu à pena, o importante é aprender com a experiência, não errar novamente, o que não significa não arriscar, e sim calcular melhor os riscos. Essa é uma dica para administrar qualquer situação: riscos calculados.

 Só se vive uma vez – para os que crêem em outras vidas: só se vive uma vida de cada vez. Então faça essa vez valer à pena. Tem medo de morrer de amor? Mas quem vive para sempre? O que você deve perguntar-se é se vale à pena. Para isso é importante ter cuidado. Você gosta de alguém? Esse alguém te faz bem? Cuide desse sentimento. Esse alguém gosta de você? Cuide do sentimento dessa pessoa também. Pense a respeito, reflita, interesse-se. Isso não quer dizer manter distância, na verdade é aproximar-se, prestando a atenção necessária, e o quanto de atenção você vai dispensar acho que depende do quanto você se preocupa em “viver” esse momento.

 E como não sentir medo? É natural sentir medo, o que não devemos deixar, é que ele nos domine. Considero o medo intimamente ligado à confiança, se você confia, o medo não te atingirá. Se você não confia, isso se transformará em medo, e com medo tendemos a fazer coisas algumas vezes muito mais estúpidas do que com sua ausência. A maior confiança deve ser em você mesmo, e se essa confiança te levar a caminhos tortuosos, enquanto você tiver a consciência tranquila, sabendo que suas atitudes foram de acordo com o que você considera correto, que você agiu da forma que melhor pôde e, com outras pessoas, da forma como gostaria que agissem com você, pode ter certeza que se algo foi perdido nesse caminho escolhido, não foi importante, ou teve apenas a importância que deveria ter por determinado tempo, e agora sua vida pode seguir melhor. Sem olhar pra trás com nostalgia ou ressentimento, para quando olhar para o futuro não ter medo. E poder viver plenamente essa vida única, essa única vez.

Mas se lhe faltou um pouco de virtuosismo ou coragem nesses momentos de viver, talvez o resultado seja pelo menos em parte, um pouco do que você semeou. Aí talvez seja bom repensar um pouco suas atitudes, porque mais fácil é você mudar a você mesmo do que mudar o resto do mundo. Como já disse (aparentemente) Paulo Roberto Gaefke, num poema atribuído (indevidamente) a Carlos Drummond de Andrade: “o que importa é que sempre é possível e necessário "Recomeçar".” – mesmo com as críticas ao texto depois que descobrem que a autoria não é de Drummond, acho grande a beleza dessa frase, e que é auto-ajuda apenas para quem acha que precisa de tal coisa ou para os pseudo-críticos de plantão, que adoram alfinetar a esmo. Para mim é um belo ponto de vista.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Eu faço meu destino! Faço?

 Há muitos anos já, eu pensei sobre o destino e o quanto nós controlamos a vida que vivemos. Não tenho certeza, mas talvez a minha percepção a respeito disso tenha surgido através do conhecimento da 3ª lei de Newton: “toda ação provoca uma reação de igual intensidade, mesma direção e em sentido contrário”. É claro que essa lei não se aplica exatamente dessa forma nas relações sociais humanas, mas uma coisa é fato: toda ação – seja qual for sua natureza - gera uma reação. Mesmo a opção de ficar parado, não se manifestar diante de algum acontecimento, é uma ação. Você realizou a ação de permanecer no mesmo lugar, ou de não responder ou, seja lá qual seja a situação, você agiu. A total inércia, o completo fazer nada levado ao pé da letra, é algo impossível de por em prática.

 Assim, pensei que se pudermos determinar as variáveis existentes no momento de determinada ação, podemos prever a reação. Isso é o mesmo que prever o futuro, é dizer que tudo o que acontece, acontece porque deveria acontecer. Essa idéia parece assustadora para muitas pessoas, de considerar que talvez suas escolhas, decisões, não seja bem “suas”, mas simplesmente fatos que aconteceriam em função de determinadas situações. Um exemplo: um assaltante aponta uma arma pra você. Qual sua reação? As possibilidades são quase infinitas: você pode dar um soco, um chute, chorar, correr, ficar parado olhando para o assaltante, desmaiar, etc.. Mas se nós pudéssemos determinar como toda essa informação – o assaltante lhe apontando a arma – é processada por seu cérebro, levando em consideração as variáveis externas, obviamente poderíamos saber qual seria sua reação. O problema é que na prática isso parece impossível, porque um computador, para fazer uma análise dessas teria de levar em conta muitas, mas muitas variáveis: por exemplo, sua trajetória de vida até aquele momento, tudo o que se passou e tornou você a pessoa que você é hoje; teria que saber como se dá a transmissão de informações em seu organismo, a quantidade de substâncias liberadas em determinada situação e suas consequências para seu organismo especificamente, e as especificidades genéticas herdadas de seus pais; além dos fatores externos como iluminação, vento, temperatura, som no ambiente etc.. E se houvesse como determinar e analisar todas essas informações, para realizar a mesma experiência no minuto seguinte, as variáveis teriam de ser todas alteradas, pois tudo estaria um minuto diferente.


 Mas essas coisas nao passavam de meros achismos, então busquei referências a respeito, que pudessem sustentar minha argumentação.

 “Um experimento relacionado realizado posteriormente por Alvaro Pascual-Leone envolveu pedir a pessoas que escolhessem ao acaso qual mão mover. Ele descobriu que estimulando diferentes hemisférios do cérebro usando campos magnéticos é possível influenciar fortemente a mão que a pessoa escolhe. Normalmente destros escolhem mover a mão direita 60% das vezes, por exemplo, mas quando o hemisfério direito é estimulado eles escolhem sua mão esquerda 80% das vezes. O hemisfério direito do cérebro é responsável pelo lado esquerdo do corpo, e o hemisfério esquerdo pelo direito. Apesar da influência externa sobre sua tomada de decisão, as pessoas continuam a relatar que acreditam que sua escolha da mão foi feita livremente.” (Retirado da Wikipédia).

 Com uma simples variação, pode-se obter 80% de chances de certeza sobre uma ação humana, regida por sua “própria vontade”, seu “livre-arbítrio”.

 "os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar" (Spinoza, Ética, apêndice do livro 1).

 E praticamente sintetizando meu pensamento, cito Laplace:

 “Nós podemos tomar o estado presente do universo como o efeito do seu passado e a causa do seu futuro. Um intelecto que, em dado momento, conhecesse todas as forças que dirigem a natureza e todas as posições de todos os itens dos quais a natureza é composta, se este intelecto também fosse vasto o suficiente para analisar essas informações, compreenderia numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do menor átomo; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, seria presente perante seus olhos” (citação na introdução do Essai philosophique sur les probabilités 1814)

 A teoria do caos defende a aparente aleatoriedade de certos eventos. Como exemplo, a alegoria do efeito borboleta (parte da teoria do caos): o bater de asas de uma borboleta pode ser responsável pela formação de um furacão do outro lado do planeta. Essa aparente aleatoriedade se dá pela impossibilidade de calcular todas as variáveis possíveis para determinado evento sem limites rigidamente definidos para que aconteça. Seria um argumento contra o determinismo, porém, a atual incapacidade de cálculo, não anula a possibilidade de sua existência.

 Os cristãos que talvez queiram defender o “livre-arbítrio” têm um dilema a resolver: como há livre-arbítrio se Deus é onisciente? Tanto é que algumas igrejas defendem um “meio-livre-arbítrio”, onde Deus tem seu plano, mas é escolha do homem segui-lo ou não. É incoerente, porque se ele é onisciente ele sabe qual será a escolha. E outras igrejas dizem que Deus já tem determinado os que serão ou não salvos. Alguns também defendem que Deus sendo onipotente, pode também querer decidir não saber o que irá acontecer. Usando como exemplo Cristo, que era Deus e ainda assim ignorante do futuro. Bom, Deus escolher pela ignorância dos fatos, não os torna imprevisíveis, e considero um jeito bastante sádico de ver Deus: um diretor que após ter produzido todo o filme, decide apagar sua memória simplesmente para poder melhor apreciar o entretenimento que criou.

 E qual o problema então? Parece-me que as pessoas que defendem a capacidade de fazer seu destino se sentem desestimuladas diante dessa perspectiva, e pensam que é uma desculpa para deterministas tirarem a responsabilidade de seus ombros. Não vejo problema numa vida determinista, porque pelo menos por enquanto, todos vão viver suas vidas sem saber do dia de amanhã. Isso não é tirar a responsabilidade, as leis humanas continuam agindo sobre as pessoas. O que fica em dúvida é a existência de uma verdadeira moral. Moralmente as pessoas não seriam condenáveis, já que seus atos são produto inevitável de determinados acontecimentos, o que por sua vez não os deixa livre de uma punição por esses atos, que apesar de “inevitáveis”, foram cometidos por eles.

 Viva e deixe viver! Realmente é estranho pensar que tudo acontece exatamente do jeito que deve acontecer, mas por tudo que eu disse acima, considero um pensamento bastante lógico. Se faz sentido, por que não aceitar? Por simples fé de que não é assim? A fé pode ser usada em ambos os lados, o que eu acho que deixa o determinismo em vantagem. Enfim, penso assim porque faz sentido, e isso não tira a beleza de viver, é apenas uma beleza diferente. Com os olhos voltados a uma perspectiva de que as coisas não são ao acaso, o que aponta para um propósito (que esteja claro: eu não afirmo que haja realmente tal propósito). Existe mesmo? Qual? De quem? Essas sim são questões polêmicas.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Você vê?

 Algumas belezas não são para todos os olhos. Algumas coisas têm sua beleza no aroma, na textura, no modo como as folhas das árvores caem sobre si com o vento. E outras, ainda, têm de ser abertas, descascadas, e podem ser realmente apreciadas apenas se devoradas, sem medos, preconceitos ou pudores. Há poesia nos cantos mais escuros e improváveis. Você vê?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O que te segura

 - Não vou poder sair nesse fim de semana. Tenho duas provas na segunda-feira e nem comecei a estudar ainda. To quase entrando em desespero com essa falta de tempo.

 - Por que você se desespera? Qual é sua âncora? O que te faz permanecer no mundo? Quem ou o que segura a linha que mantém seu corpo preso à vida?

 - O que você quer dizer?

 - Acho que todo mundo precisa de algo assim, para manter seus pés no chão, ou pelo menos te segurar um pouco para não se perder. E quando você se percebe quase solto, com a impressão de que a linha que te segura é extremamente fina, e que você não tem ainda certeza absoluta do quão forte são as mãos que a seguram? Ou que você não tem muita noção do próprio peso que pode ter nessas mãos?

 - Acho que todos criam suas linhas, consciente ou inconscientemente. Você não tem uma?

 - Sim. Mas é bem desagradável acordar quase todos os dias, sentindo que a linha pode arrebentar a qualquer momento, que os elos da âncora possam se romper e te deixar à deriva. Porque aí basta um sopro, uma brisa um pouco mais forte, uma onda um pouco mais violenta, pra te levar pra longe, para a exosfera e além. Lembro-me de certo dia:

 - Eu saí do quarto, cheio de gente jogando videogame. Passei pelo corredor, fui até a janela da sala e fiquei olhando por ela. Eu achava linda aquela vista. Os holofotes iluminando o prédio em frente, de cima a baixo. O céu todo negro, o asfalto e as arvores na calçada sendo iluminados pela luz branca que vinha das lâmpadas dos postes. A brisa refrescante entrando pela janela. E aquele sentimento de saudade e nostalgia em mim, que eu nem sei direito do que era. Ela se aproximou e se encostou ao meu lado. Eu, com os braços cruzados sobre a janela, segurei sua mão, que também estava sobre a janela e cruzada sobre seu braço. Ela disse: “O que foi? Por que você está assim?”. Eu respondi: “Você sabe por quê. Ah, nada.” A verdade é que ela era minha âncora no momento. Percebe que situação de desespero? Se ancorar em algo que não foi, não é e nunca será seu? Eu sabia que não era o primeiro, e que também não seria o último. Ouvi alguém se aproximando e me afastei dela e da janela, e fui em direção a cozinha. Era o namorado dela, que a abraçou, e depois eu já estava colocando conhaque no meu copo.

 Continuo:

 - Sinto cansaço, de tudo. Não sou contra a filosofia de que a vida é um grande ciclo. Mas o meu parece tão repetitivo nesse aspecto, de perder o objetivo. Meu objetivo de certa forma nunca é um fim, é sempre o meio. O objetivo torna-se sua própria manutenção. Um ciclo – esse sim – que eu acho que não deveria terminar tantas vezes, porque começá-lo de novo, de novo e de novo, é um grande pé no saco.

 - E você se sente começando de novo?

 - Sinto. Mas sabe aquela impressão de ato final? Então. É assim que sinto. Sinto-me sem mais linhas ou elos reservas. Tudo se desvanecendo e eu junto com esse tudo. Só resta essa linha, que eu não consigo ver a espessura, mas a vejo brilhar bastante, mesmo olhando de longe. E estou me agarrando a ela, aos poucos, mas cada vez mais forte, e puxando meus pés de volta ao chão.

 - Isso não é egoísta? Usar alguém assim como ancora? Jogar todo esse peso sobre alguém? Você mesmo deveria se sustentar.

 - Mas sou assim, e não é injusto, é uma troca. Proteção em troca de proteção, apoio em troca de apoio. Pois enquanto eu conseguir me manter de pé, farei sempre o possível por quem me segura, carregaria seu peso sobre minhas costas todos os dias que preciso fosse. Mas meu próprio peso, sozinho, infelizmente não consigo levar. Vai ver, eu realmente existo pra proteger, então esse deve ser o egoísmo mais altruísta que existe.

 - Acho que você tem problema.

 - Pode ser.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Amizades e amizades

 Entramos na loja de conveniências do posto de gasolina. A idéia era comprar uma garrafa de vinho para cada um, estávamos em cinco pessoas ali. Logo depois de nós, entrou uma guria e dois caras, todos com jeito de “mano” – mano e minas costuma ser o termo usado pra definir determinado estereótipo de alguns garotos e garotas, que normalmente inclui gostar de rap, usar roupas largas, bonés colocados de maneira excêntrica sobre a cabeça, as meninas com tranças e faixas no cabelo, um jeito de andar esquisito, como se tivesse com algum problema de postura e algum outro problema nas pernas, e um conjunto de gírias bastante peculiares. Começam a olhar as bebidas e eu percebo que um deles pega uma garrafa pequena de uísque e a coloca sob a blusa. Nesse momento meus amigos estão pegando as garrafas de vinho e levando ao balcão onde havia apenas um atendente. Fico indignado com a situação: “não vou deixar esses manos saírem daqui de boa com esse uísque enquanto nós estamos pagando pelo nosso vinho.” Fui até onde eles estavam. À medida que eu me aproximava, eles se afastavam da prateleira pelo outro lado. Quando cheguei na frente do uísque peguei uma garrafinha e coloquei sob a blusa também.
- O, Daniel! Passou o meu vinho aí já? Mas daquele outro, não esse de vocês. Depois agente acerta tudo.
- Ah! Que frescura Billy! Beleza.
Saímos da loja, eles vão para o carro do William. Eu passo pela janela do carona e jogo a garrafa no colo do Daniel.
- Da onde isso?
- Vamo sair fora.
Subo na moto e vamos para uma esquina próxima à casa de uma amiga beber nosso vinho – agora acompanhado de uísque.
- Ow! Não acredito que você pegou isso lá.
Eu explico toda a situação, que eu não poderia ficar de braços cruzados vendo os “manos” saindo com a bebida sem pagar enquanto nós, mesmo meio quebrados de grana, estávamos pagando.
 - Ah! Mas agora eu vo ficar louco Billy! Você sabe que eu não posso tomar uísque huahuahuahuahua.
William fala:
 - O Billy é foda! Huahuahuahua.
 E bebe um pouco do uísque, que foi aberto no carro mesmo. Juntam-se a nós, a Pauli – a amiga que morava na rua onde bebíamos - e o Leonardo – namorado dela -, e entregamos as garrafas de vinho que compramos para eles. Eu tive a infelicidade de escolher um vinho que não vinha com uma tampa fácil de abrir igual aos dos outros, o meu tinha uma rolha, e nós não tínhamos saca-rolhas. Tive que usar a velha técnica de prender a garrafa entre os pés, no chão, enquanto forçava a rolha para dentro da garrafa com a chave mais comprida que eu tinha, usando as mãos e apoiando o peso do corpo sobre elas. Tinha que ser rápido e com força - pra não machucar muito as mãos -, depois que a rolha entra, basta beber tomando cuidado para que a rolha não obstrua o gargalo da garrafa. Bebemos os vinhos. Depois de algum tempo de "treino", uma garrafa de vinho não é o suficiente para deixar uma pessoa totalmente feliz e nem por muito tempo, então preparamos um tubão:
 A definição que considero mais correta para “tubão”, é basicamente, qualquer bebida alcoólica misturada com qualquer refrigerante. A bebida alcoólica dever ser preferencialmente destilada e com mais de 30% de volume alcoólico, misturando-os numa proporção entre 70% e 40% de refrigerante – a variação fica a gosto e normalmente muda à medida em que se bebe. Essa é a receita clássica, mas há variações com bebidas mais fracas e suco substituindo o refrigerante, o que eu já classificaria como “suco gummy”. O nome “tubão”, imagino que tenha relação com a garrafa de dois litros de refrigerante usada em seu preparo. Quando há espaço suficiente na garrafa – o espaço algumas vezes é arrumado jogando fora uma quantidade do refrigerante, caso ninguém queira bebê-lo puro -, faz-se a mistura direto nela, assim fica o tubão preparado para beber direto no gargalo – os “manos” têm o costume de torcer e amassar a garrafa a medida em que ela vai esvaziando, não tenho certeza do porquê.
 Com uma garrafa de um litro de pinga e uma garrafa de refrigerante de dois litros sabor limão, preparamos o clássico drink em alguns copos descartáveis.
 Daniel visivelmente alterado - ja tinha acabado com a pequena garrafa de uísque quase sozinho:
 - Vamo beber lá na frente de casa!
 Eu peguei a minha moto e fui com a Carla, namorada do Daniel, na garupa. O Daniel e a Leni vão com o William no carro dele. A pauli vai no carro do Leonardo. Encostamos os carros e a moto próximos ao meio-fio, em frente à casa do Daniel. Preparamos mais alguns copos e ficamos conversando e bebendo.
A Leni, a Carla e o William estão na calçada em frente ao carro. Eu estou muito bêbado – assim como acho que estavam todos ali – entre o carro e a Carla, conversando com a Pauli. O Daniel conversa com o Leonardo, ambos sentados no meio fio, próximo à roda traseira do carro de Leonardo. A Pauli entra no carro do namorado pelo lado do motorista e liga o rádio. Eu abro a porta do carona e sento ao seu lado.
 Debruço-me sobre ela e a beijo.
 - Billy! Seu louco! O Leonardo ta aí fora.
 - Eu sei.
 E a beijo de novo. Nossos três amigos olham para dentro do carro parecendo um pouco surpresos, acho que não com o beijo, mas sim com o momento em que ele acontecia. Leonardo fala para Daniel:
 - O Daniel, você que é bem amigo do Billy, me responde uma coisa. Eu sei que ele e a Pauli são super amigos, tão sempre juntos, mas você não sabe se eles ficaram alguma vez? Sei lá... No tempo que eu e ela não tava namorando?
 Daniel percebeu os olhares estranhos voltados para o interior do carro e imagina o que está acontecendo ali. Ele olha para Leonardo e diz:
 - Ah, acho que nunca rolou nada não. Acho que eles só são bem amigos mesmo.
 A Pauli me empurra de vez para fora do carro, eu saio com meu copo vazio e me junto ao trio de amigos que estavam ali fora e encho mais um copo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Fazer o melhor impossível

 Escolhi este título, pelas impossibilidades a que nos impomos algumas vezes – sem nos darmos conta dessa situação. Até onde pode aguentar um ser humano? Até onde lhe é possível. Todos nós temos um limite do que e quanto podemos suportar, física e metafisicamente falando. Cada um tem sua própria “cruz” a carregar, mas comparações entre uma pessoa e outra - levando apenas isso em consideração -, são absurdas, porque assim como diferem as “cruzes” em peso e tamanho, diferem também em força os ombros que as carregam.

 As pessoas cobram constantemente e desmedidamente, a si mesmas e a outras pessoas, sem parar pra pensar nos pormenores. Porque o importante é agir e ter sempre mais, seja do que for. A condição humana de certo modo parece que se resume a uma incontrolável, sádica e constante competição – mesmo que seja uma competição contra si mesmo, uma autoflagelação. Eu penso o quanto esse excesso de cobrança pode ser prejudicial. Precisamos ter metas, objetivos, e fazer o possível para alcançá-los. Mas o “possível” para uma pessoa não é necessariamente o “possível” para outra. A verdade é que sempre haverá alguém melhor ou mais forte – e isso é algo bastante difícil para uma pessoa orgulhosa admitir -, o que parece exceção a essa afirmação é marketing.

 Lembro-me de um trecho de “os sofrimentos do jovem Werther” de Joahan Wolfgang Von Goethe, em que Werther discute com Alberto sobre o suicídio. Alberto diz que é uma fraqueza, porque é muito mais fácil acabar com a vida do que suportá-la. O argumento já começa falho, pois levando em consideração o que afirmei anteriormente, há “vidas” e “vidas”. Werther rebate comparando o desespero do suicídio a uma doença mortal, que ataca, ao invés do corpo, o espírito. E que condenar uma pessoa por sucumbir a uma doença que seu corpo não pode suportar é uma idéia absurda, e assim também o é com o espírito. Mas o ponto para o qual quero chamar atenção aqui não é o suicídio, é o limite.

 As pessoas se culpam – e a outras pessoas também – por não conseguirem determinado bem – material ou não. Culpam-se por dizerem algo que acham que não deveriam ter dito. Culpam-se por fazerem algo que acham que não deveriam ter feito. Condenam a si e a outros constantemente. O que realmente deveria importar é se você fez tudo o que lhe foi possível fazer, para determinada situação em determinado momento. Como você pode condenar alguém por não fazer algo que não lhe era possível fazer? Eu comparo esta situação a um balde sendo cheio de água – acho que muitas vezes essas analogias são disparates, como costuma acontecer bastante em alguns “provérbios chineses”, mas neste caso acho que a analogia funciona bem -, em um certo momento esse balde vai transbordar, e você vai culpar o balde por não suportar toda a água que foi jogada sobre ele? O balde suportou o quanto lhe foi possível.

 O importante é fazer o melhor que se pode fazer. Nessa questão, o melhor torna-se um tanto subjetivo, porque depende de fatores como noção de certo e errado, moral, ética, etc.. Mas VOCÊ sabe – ou deveria começar a perceber – que faz o melhor que pode. Quem perde pelo simples prazer de perder? O melhor que podemos fazer nem sempre é o melhor que achamos que poderia ser feito, mas é sensato lamentar-se por isso? E como saber o que é possível? Bom, isso me lembra La Place, Newton e Hawking. E fica para outro texto, sobre possibilidades.

 Fazer o que se considera correto, sem culpa, e não conflitando seus ideais e interesses, acho um bom modo de se fazer o melhor possível. Seu balde transbordou? É a natureza das coisas. Aceite o que for inevitável, e faça o melhor que lhe for possível fazer.