sábado, 26 de outubro de 2013

Caverna do Dragão: Réquiem

 A maioria das pessoas ainda acredita nos boatos absurdos sobre finais macabros do episódio final de Caverna do Dragão. Aqui está uma entrevista gravada com o roteirista do desenho e em seguida o roteiro verdadeiro do último episódio em quadrinhos:





































































terça-feira, 22 de outubro de 2013

Egito, Êxodo e Deus: Parte I d: Castigo dos deuses: As pragas do Egito

  Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito nessa época e a formação da religião judaica que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos serão divididos em duas partes. A primeira parte será dividida em quatro partes menores.
  Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia” (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. o livro é muito mais abrangente e detalhado do que mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedido de referências, podem comentar que responderei.
  Estes textos, obviamente, estão muito aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.

  Parte I d: Castigo dos deuses: As pragas do Egito:

 O Povo Impuro


 Outras obras de diferentes escritores do período helenístico posterior também contêm variações da forma egípcia de vida de Moisés conforme relatada por Manetho. O gramático latino Pompeu Trogo, em sua Historicae Philippicae, diz que Moisés não era egípcio, mas filho de José, muito embora o culto que ele tenha instituído em Jerusalém seja descrito como “sacra Aegyptia”. Depois de terem roubado os tesouros sagrados dos templos egípcios, Moisés e seus seguidores saíram do Egito, com o exército do faraó no seu encalço. Porém, os egípcios foram obrigados a voltar devido a tempestades terríveis. Entretanto, o motivo para o êxodo do Egito é uma vez mais uma epidemia, que nessa ocasião se descreve com maiores detalhes:


Mas quando os egípcios foram expostos à sarna e à uma infecção de pele, e alertados por um oráculo, expulsaram [Moisés] juntamente com os doentes para além das fronteiras do Egito, para que a doença não se espalhasse para um número maior de pessoas[...] E como ele se lembrasse de que haviam sido expulsos do Egito devido ao medo do contágio, trataram de não conviver com estranhos, para não se tornarem odiados pelos nativos das terras por onde andavam pelo mesmo motivo. Essa regra, que surgiu de uma causa específica, ele transformou gradativamente em um costume e uma religião estabelecida.




 Scota, A Filha do Faraó


 De acordo com Rober Grosseteste, (por volta de 1175-1253),


No passado distante, Scota, a filha do faraó, abandonou o Egito com o marido Gayel e um séquito numeroso. Eles tinham ouvido falar das desgraças que ocorreriam no Egito, e seguindo instruções ou oráculos dos deuses, fugiram de certas pestes que deviam se desencadear. Depois de navegar dessa forma pelos mares durante muitos dias, bastante transtornados, finalmente conseguiram aportar em certa praia devido ao mau tempo.


 Essa praia era a Espanha, onde Gaythelos e Scota construíram uma cidadela chamada Brigância, às margens do rio Ebro, no meio da qual se via uma enorme torre cercada por profundos fossos. Uma geração ou pouco mais depois, dois filhos de Scota, Hiber e Himec, partiram para Hibérnia, ou seja, a Irlanda. Os habitantes que encontraram lá foram mortos ou escravizados, e depois deram ao lugar o nome de Scota em homenagem à mãe. Curiosamente, dizem que Scota trouxe consigo do Egito o “sedile regium”, a Pedra Scone, usada nas coroações reais, que Eduardo I levou para Londres (e devolveu em 1996 ao Castelo de Edimburgo, onde está até hoje). De referências como essa, podemos ter certeza de que a história não é apenas invenção medieval, mas uma lenda muito mais antiga, baseada em alguma espécie de reminiscência histórica distorcida de eventos reais.




 Um País Amaldiçoado


 Pode-se encontrar indícios importantes da presença da peste em várias das centenas de cartas de Amarna escritas por reis vassalos de Amenófis III, Aquenaton e Smenkhkare durante seus reinados. Um tablete desses parece insinuar que a rainha Tiye, a própria mãe de Aquenaton, foi vítima da peste também. É possível que o relato no livro do Êxodo sobre a morte do primogênito de todos os egípcios na noite da Páscoa, imediatamente depois do êxodo, tenha sido de certa maneira influenciado por essa peste bastante real, que estava dizimando o Egito e o Oriente Próximo na época. Teria o povo egípcio durante a era de Amarna chegado a crer que a peste era alguma espécie de retribuição divina, causada pelo fato de que os deuses depostos do velho panteão não estavam sendo aplacados por oferendas e sacrifícios adequados? Não teria alguém insinuado que, para aplacar os deuses furiosos, todos os sacerdotes “impuros” e seguidores de Aton, bem como os colonos asiáticos ou “estrangeiros”, que deviam estar espalhando a doença, fossem reunidos e presos ou expulsos do Egito? Desconfiando do que podia ocorrer, não teriam muitas dessas pessoas, tanto egípcias quanto de origem asiáticas, resolvido sair do Egito, por sua própria vontade, fugindo para a Síria -Palestina, onde finalmente se integraram com os povos nativos? Será que depois uniram-se a eles os que conseguiram fugir de Sile, a moderna Qantara, fortaleza situada na fronteira entre o Delta Oriental e o Sinai, onde criminosos e inimigos do rei ficaram escravizados durante o reinado de Horemheb? Ele pode ser identificado como Orus, ou Or, na história que Manetho conta sobre Osarsiph-Moisés, e é provável que tenha sido o responsável por pelo menos alguns dos atos atribuídos a Amenófis na narrativa do êxodo.


 Em outras palavras, pelo menos uma porcentagem dos eventos que Manetho descreve realmente ocorreu durante o reinado de Horemheb, e não durante o de seu antecessor Amenhotep III, ou Amenófis III. Isso fez dele a mais provável opção como o verdadeiro Faraó do Êxodo (que até mesmo faz lembrar o da opressão), que começou mais provavelmente vários anos antes, quando ele se tornou comandante do exército egípcio no início do reinado de Tutancâmon.


 Seriam essas as verdadeiras raízes do êxodo? Tudo leva a essa extraordinária conclusão. Precisamos agora ultrapassar as fronteiras do Egito e penetrar no deserto do Sinai em busca do itinerário seguido pelo povo do Êxodo, e buscar as origens de Yahweh, o deus dos israelitas.


Parte I c: O messias egípcio; e o fim do faraó monoteísta
Parte II a: As primeiras tribos adoradoras de “Deus”  

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Egito, Êxodo e Deus: Parte I c: O messias egípcio; e o fim do faraó monoteísta

   Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito nessa época e a formação da religião judaica que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos serão divididos em duas partes. A primeira parte será dividida em quatro partes menores.
  Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia” (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. o livro é muito mais abrangente e detalhado do que mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedido de referências, podem comentar que responderei.
  Estes textos, obviamente, estão muito aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.

Parte I c: O messias egípcio; e o fim do faraó monoteísta

  A queda de Aton


  Muito foi subitamente eliminado no fim do reinado de Aquenaton, quando primeiro Smenkhkare e depois Tutancâmon transferiram a corte real para Mênfis e restituíram a Tebas a função de grande centro religioso do Alto Egito. Aqueles que haviam se mudado para a cidade de Aquenaton por motivos meramente práticos, simplesmente fizeram as malas e voltaram de onde tinham partido. Mas os muitos convertidos à nova religião provavelmente não puderam simplesmente sair de Aquenaton, deixando para trás tudo o que acreditavam com fé tão ardente nos últimos treze anos. Assim, os seguidores fervorosos da fé de Aquenaton e seu Aton provavelmente permaneceram na cidade, continuando a realizar seus rituais, cerimônias e celebrações diários ao disco solar, antes do colapso definitivo de sua infraestrutura social obrigá-los a abandonar a cidade pra sempre. Dali por diante, Aquenaton rapidamente tornou-se pouco mais que uma cidade-fantasma, ocupada apenas por tribos nômades que teriam usado seus antes grandiosos edifícios como abrigo, até que finalmente ela foi sendo desmontada até os alicerces durante o reinado de Horemheb.


  Os sacerdotes e indivíduos que permaneceram leais a fé agora considerada ilegal de Aquenaton teriam sido considerados hereges, e deviam ser rejeitados pela comunidade se não voltassem a adotar o politeísmo egípcio outra vez. De certa maneira, podemos compará-los aos primeiros cristãos de Jerusalém, e depois, de Roma, que foram evitados e rejeitados por romanos e judeus. Não é improvável que eles tenham ficado conhecido como “leprosos” sociais, ou “impuros”, termos usados por Manetho para descrever os seguidores de Osarsiph-Moisés, embora não fossem doentes nem corruptos, simplesmente párias da sociedade.




  Osarsiph-Moisés como Aquenaton


  Foi no quinto ano do reinado de 17 anos de Aquenaton que ele abandonou o nome Amenófis IV e, apenas um mês depois, chegou ao local de sua futura cidade. Esse deve ser compreendido como o ponto de partida da heresia, que continuou por doze a treze anos, até a suposta morte de Aquenaton, no ano 17, correspondendo, por sua vez, aos treze anos da rebelião de Osarsiph-Moisés. Weigall entendeu que isso não podia ser coincidência, e também os egiptólogos, nos últimos anos, vêm defendendo tal tese. Algumas ideias de Jan Assman, professor de Egiptologia na Universidade de Heidelberg, resumem a narrativa de Manetho sobre Osarsiph –Moisés nos seguintes termos:


  A história dos leprosos pode, portanto, ser explicada como um evidente caso de lembrança deslocada e distorcida. Nessa tradição, sobreviveram reminiscências egípcias da revolução monoteísta de Aquenaton. Mas devido ao banimento do nome de Aquenaton e dos correspondentes monumentos da memória cultural, essas reminiscências deslocaram-se e ficaram sujeitas a diversos tipos de transformações e proliferações.




  A Co-Regência


  Manetho nos diz que o faraó que se opunha ao “leprosos” e aos “impuros”, obrigado a fugir do Egito antes de voltar para expulsar os seus inimigos e os povos asiáticos, foi Amenófis. No primeiro caso, podemos identificá-lo como o pai de Aquenaton, Amenófis III, em cujo reinado viveu um ministro muito popular chamado de Amenófis-filho-de-Hapu, inquestionavelmente o personagem histórico por trás Amenófis filho de Papis, da narrativa de Manetho.


  Parece relativamente coreto declarar que durante os anos finais de sua vida, Amenófis III reinou junto com seu filho, Aquenaton, talvez durante onze ou doze anos. Obtiveram-se provas disso em virtude de várias descobertas fundamentais, notadamente no sítio arqueológico da cidade de Aquenaton, em Tel-El-Armana. Tais evidências representam a base perfeita para propor que o pai de Tutancãmon não era Aquenaton, como muitos estudiosos já disseram, mas na verdade Amenófis III, tese defendida por Pendlebury já em 1936.


  A questão da existência de uma co-regência entre Amenófis III e Aquenaton foi debatida pelo perito em Amarna Cyril Aldred, com grande repercussão, em sua obra clássica Akhenaten: King of Egypt. Embora não possamos citar aqui todas as provas que ele apresenta, suas conclusões são claras:
A co-regência de amenófis III com seu filho, de acordo com as provas que temos, durou mais de doze anos... por mais perturbadora que possa ser essa conclusão, não temos opção a não ser aceitá-la.
Os atos de Aquenaton devem ter causado tal consternação entre os sacerdotes, que podemos imaginá-los suplicando a ajuda ao faraó mais velho, Amenófis III, para evitar que o país caísse em um estado de caos e abandono.




  Amenófis-filho-de-Hapu


  Pelas provas textuais disponíveis, podemos ter certeza de que Amenófis-filho-de-Hapu era um favorito do monarca idoso. Seus conhecidos títulos também confirmam a conclusão de Manetho, que, a mando do rei, “Amenófis, filho de Papis”, reuniu cerca de 80 mil “leprosos” e “impuros” e os enviou para trabalharem em pedreiras “a leste do Nilo”. Para entender melhor os eventos históricos por trás do relato de Manetho, devemos expandir o período de maneira a encampar os papéis desempenhados pelos reis que vieram depois de Smenkhkare e Tutacâmon, sucedendo-os no trono do Alto e Baixo Egito. Por exemplo, no início do relato sobre Osarsiph Moisés, lemos:


  Este rei [ou seja, Amenófis] desejava tornar-se espectador dos deuses como Orus, um dos antecessores naquele reino, desejou o mesmo antes dele.


  Quem exatamente seria esse Orus, afinal, ou apenas Or, grafia opcional do seu nome? Se consultarmos a Epítome, ou as listas de dinastias, originalmente incluídas na Aegyptiaca de Manetho – e agora encontrada apenas em segunda mão dentro de obras posteriores escritas séculos depois – encontraremos esse rei entre os governantes da 18ª Dinastia. Por exemplo, em versões das listas dos reis preservadas por Josefo e certos cronistas cristãos anteriores, um faraó chamado Orus reinou ali entre os anos 28 e 38, e em geral se diz que foi um reinado de 36 anos e 5 meses. Mesmo assim, seu nome se encontra não antes, mas diretamente depois do reinado de um rei chamado “Amenófis”, ao qual em geral atribui-se um reinado de 31 anos. O fato de esse Amenófis ser Amenófis III fica claro a partir de sua posição na lista de 14, 16 ou 18 reis a partir dessa dinastia, dependendo da fonte citada. Essa conclusão confirma-se mediante o fato de que, ao lado do nome de Amenófis na lista, aparecem as palavras: “este foi o rei que supostamente era Memnon e uma estátua falante”. Aliás, Amenófis III reinou 38 anos, e não 30 ou 31 como Manetho diz, embora este seja um erro de somenos importância quando comparado aos registros de Manetho dos outros reis da 18ª Dinastia.


  Sabemos por intermédio de Manetho e suas listas que o rei chamado Orus reinou depois de Amenófis III, mas antes de uma série de reis qu só se podem comparar com os governantes conhecidos da era de Amarna. Eles começam com um tal de Acencheres (também conhecido como Acherrês, Achenchersês ou Achencheres), que sem dúvida era Aquenaton., apesar de os 12 ou 16 anos a ele atribuídos não conferirem com a duração real de seu reinado, que foi na verdade de 17 anos. Porém, deve-se recordar que a confusão que cercou essa lista de reis de Amaná provém do fato de que toda a lembrança de seus reinados foi apagada dos registros oficiais. Isso pode, portanto, explicar porque, em duas versões de Manetho, se diz que Acencheres era filha de Orus! Se isso tem ou não algo a ver com o estilo artístico incomum adotado por Aquenaton, ou alguma confusão derivada de sua co-regência com Nefertiti, não se sabe.


  Depois de Acencheres vem, em duas versões da Epítome de Manetho, “seu irmão”, “Rathotis” (ou Rathos), ao qual se atribui um reinado de seis ou nove anos. Uma outra versão das listas dos reis diz que o faraó que reinou depois de Acencheres foi Acherres, ao qual se atribui um mandato de oito anos. Pelos nomes e anos de reinado atribuídos a esse rei, ele só pode ser Tutancâmon, que atingiu o nono ano de reinado.


  Isso se pode afirmar com certeza, mas nas diferentes versões da Epítome de Manetho segue-se depois de Rathotis uma série de reis com durações de reinados e registros conflitantes; alguns são simplesmente uma repetição de Aquenaton, retornando seja sob o mesmo ou outro nome ligeiramente alterado. Outros só podem corresponder a Nefertiti, Smenkhkare ou Aye. Finalmente, as listas incluem um faraó reconhecível – Ramessês. Mesmo assim, parece uma lembrança um pouco misturada tanto de Ramsés I, que reinou apenas um ano após a morte de Horemheb, por volta de 1308 a.C., e seu neto Ramsés II, que reinou 67 anos, por volta de 1290-1224 a.C. Além do mais, ambos os reis pertencem à 19ª Dinastia, não à 18ª, onde Manetho os inclui. Então, quem era exatamente Orus, o rei que se diz ter reinado entre Amenófis III e Aquenaton? A resposta é que seria Horemheb, o grande responsável por toda essa confusão, antes de mais nada. Devido ao fato de ele estender a duração de seu reinado por volta de 27 anos, incluindo o dos quatro reis que o antecederam, ele se atribui um reinado sobre o Alto e Baixo Egito que durou 59 anos. Não só Horemheb é o Orus das listas de reis de Manetho, como também reaparece com o nome de Harmaïs, (também conhecido como Armesis ou Armais) durante um reinado de 4 a 5 anos imediatamente anterior ao do Ramessês mencionado acima.


Parte I b: O profeta e o êxodo do Egito como não conhecemos
Parte I d: Castigo dos deuses: As pragas do Egito  

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Egito, Êxodo e Deus: Parte I b: O profeta e o êxodo do Egito como não conhecemos

  Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito nessa época e a formação da religião judaica que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos serão divididos em duas partes. A primeira parte será dividida em quatro partes menores.
  Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia” (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. o livro é muito mais abrangente e detalhado do que mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedido de referências, podem comentar que responderei.
  Estes textos, obviamente, estão muito aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.


  Parte I b: O profeta e o êxodo do Egito como não conhecemos:

  O Relato de Manetho

  O egiptólogo britânico Arthur Weigall, no livro Tutankhamen and Other Essays, se baseia nos escritos de Manetho de sebenitos, um escriba e sacerdote egípcio do templo de Heliópolis, no Baixo Egito, que se acredita ter escrito em sua língua grega nativa nada menos que oito livros, entre aproximadamente 280 e 250 a.C. Intitulada Aegyptiaca, ou história egípcia, não existe mais; porém, fragmentos da História de Manetho estão em uma obra intitulada Flavius Josephus contra Apion ou contra Apionem, escrita por Flávio Josefo (por volta de 37 a 97 d.C.), o escritor judeu que presenciou e depois registrou alguns dos eventos mais importantes da história judaica.

  O autor de longe mais significativo a ser atacado por Josefo em Contra Apionem foi Manetho que, como veremos a seguir, dizia que os judeus descendiam de leprosos. O relato apresenta um faraó chamado “Amenofis”, que, desejando ver os deuses (“como Orus, um de seus antecessores naquele reino, desejava o mesmo antes dele”), procurou o conselho de seu homônimo “Amenofis, filho de Papis”, um homem sábio com o “o conhecimento das coisas futuras”. Depois de ouvir o pedido do rei, Amenófis insistiu que a única maneira pela qual se poderia alcançar isso seria livrar o reino de todos os ”leprosos, e “pessoas impuras”. Assim, reuniram-se 80 mil indivíduos que foram enviados para as pedreiras, “na margem leste do Nilo”, onde trabalhavam segregados do resto da população egípcia. Dentre eles havia “alguns dos sacerdotes sábios contaminados pela lepra”.

  Apesar de sua fórmula para atender aos desejos do faraó, Amenosfis, filho de Papis, sentiu remorso pelo que tinha começado, pois, como Manetho registra:

  Amenófis, sábio e profeta, temia que os deuses se encolarizassem contra ele e o rei, se parecesse haver violência contra eles [ou seja, os “sacerdotes sábios”].

  Sabendo muito bem quais seriam as consequências de suas palavras, previu que “certas pessoas viriam ajudar esses pobres contaminados”, as quais deporiam o rei e permaneceriam no poder durante treze anos. Incapaz de suportar as consequências de tocar no assunto diante do rei, Amenófis registrou sua profecia antes de se matar.

  Tendo aprendido a lição com a morte de seu homônimo e as previsões que havia feito, Amenófis, o rei, resolveu corrigir o mal que havia feito expulsando os “leprosos” e as “pessoas impuras”. Eles haviam lhe suplicado que lhes desse um lugar para morar na cidade abandonada de Avaris, antigo lar dos hicsos, e lugar de culto a Tífon (ou seja, Set) desde tempos imemoriais. O rei consentiu que isso se fizesse. Também era ali que ficava a cidade de Pi-Ramesse e a cidade-armazém bíblica de Ramsés, identificada por Manfred Bietak et alli como Tell el-Dab`a, no Delta Oriental.

  Depois de ocupar a cidade, os “leprosos e impuros” usaram Avaris como base para revoltar-se e nomearam para si um líder “dentre os sacerdotes de Heliópolis”. Seu nome era Osarsiph, ou Osarsêph, e a ele o povo jurou obediência, tendo, como contrapartida, a confecção de novas leis que “se opunham frontalmente aos costumes egípcios”. Ele disse-lhes que “não adorassem deuses egípcios”, e que “se abstivessem de qualquer animal sagrado que tinham na mais alta estima, matando-os e destruindo-os”. Além disso, Osarsiph ordenou que eles “não se unissem senão àqueles que pertencessem a sua própria aliança.

  Esse Osarsiph, sacerdote de Heliópolis, falou ao “povo impuro”, dizendo-lhes que não devia mais trabalhar nas pedreiras. Em vez disso, deveriam construir muros em torno da cidade e prepara-se para uma guerra contra o rei Amenófis. Osarsiph, então, garantiu a “amizade” dos outros “sacerdotes e aqueles que estavam contaminados com eles”, e despachou embaixadores a “Jerusalém”, na esperança que pudessem persuadir os “pastores”, ou seja, os hicsos, a reunir-se para lutarem com eles. Antes, em Contra Apionem, Josefo havia relatado a história, narrada por Manetho, da expulsão do hicsos no governo do rei “Thummosis” ou “Amisis”, inquestionavelmente Ahmose, que reinou de 1575-1550 a.C., aproximadamente, dizendo que na sua volta para a Síria, ou seja, Canaã, eles haviam construído a cidade de Jerusalém. Isso apesar do fato de que no Velho Testamento Jerusalém só se tornou importante na tradição israelita quando as monarquias se unificaram sob Davi e Salomão, centenas de anos depois da era de Moisés. Em reconhecimento ao seu apoio, Osarsiph prometeu aos pastores que haviam sido forçados a abandonar depois de sua partida do Egito várias gerações antes, a cidade de Avaris.

  Depois de aceitar a oferta, cerca de 200 mil hicsos vieram ajudar Osarsiph, e juntos assumiram o controle do Egito. Amenófis, que havia reunido na cidade de Mênfis todos os animais sagrados, onde já se podia encontrar o touro Ápis, fugiu com o filho de cinco anos, sethos, e 300 mil de seus homens “mais valorosos” para a Etiópia, cujo rei “lhe devia favores”. Contudo, o “povo de Jerusalém” que havia se unido “ aos egípcios contaminados” começou a tratar os egípcios “de forma bárbara”:

  […] aqueles que viam como eles haviam subjugado o país acima (ou seja, o Egito) e as maldades horrendas que haviam praticado, consideraram esse evento uma coisa monstruosa,; pois eles não só atearam fogo às cidades e aldeias, como também se tornaram culpados de sacrilégio, destruindo as imagens dos deuses e usando-as para assar os animais sagrados que antes eram venerados, obrigando os sacerdotes e profetas a se tornarem seus executores e assassinos, depois os expulsando do país sem sequer a roupa do corpo. Também relatou-se que o sacerdote que lhes fornecia as diretrizes e as leis era natural de Heliópolis. Mas quando ele começou a liderar aquele povo, mudou de nome, e passou a chamar-se Moisés.

  Após 13 anos no exílio, Amenófis reuniu seu exército, e com a ajuda de um segundo exército reunido por seu filho, “Rhampses” (antes “Sethos, também chamado Ramsés, devido a seu pai Rhampses), voltou ao Egito e “batalhou contra os pastores e os impuros, vencendo-os, chacinando muitos e perseguindo-os até as fronteiras da Síria.

  Na opinião de Weigall, não resta dúvida de que o reinado de treze anos de Osarsiph-Moisés correspondia “aos treze anos da heresia de Aton em Tel-el-Amarna”. Em sua opinião,

  Os 80 mil impuros, que são, ao meu ver, os seguidores de Aton, e sua remoção para as pedreiras na margem leste do Nilo correspondem de forma impressionante à transferência histórica da capital inteira de Aquenaton de Tebas para Tel-elAmarna.

  Weigall supôs, corretamente que, como Horemheb fez seu reinado retroceder até a morte de Amenófis III, isso explicaria porque Manetho via todos esses eventos como ocorridos durante o reinado de um único rei, Amenófis, que se baseia vagamente no pai de Aquenaton, Amenófis III..

  Sabendo que o líder dos “impuros” e asiáticos era um sacerdote egípcio de Heliópolis que mudou o nome para Moisés, Weigall propôs que ele teria nascido “no reinado de Amenófis III, e que, como o Moisés da tradição bíblica, fugiu para a terra de Madiã no reinado de Aquenaton”. Assim, suspeitava “que Tutancâmon teria sido o faraó durante cujo reinado Moisés voltou ao Egito e organizou o êxodo de seus compatriotas cativos”.


  Hecataeus de Abdera

  Com toda a probabilidade, o material que serviu de fonte ao moisés de Manetho veio de bibliotecas de Heliópolis. Contudo, uma possível influência vem de uma obra composta uma geração ou duas antes pelo historiador grego Hecateu de Abdera. Em 320 a.C., apenas 12 anos depois que Alexandre o Grande comemorou sua entrada no Egito, Hecateu ficou na corte do primeiro rei helênico, Ptolomeu I, e depois escreveu sua própria Aegyptiaca, história do Egito. Embora essa narrativa não exista mais, fragmentos dela foram citados por Siculus ou Diodorus da Sicília (aprox. 8 a.C.) em sua obra Bibliotheca Historica, a Biblioteca da História.

  Muito embora Manetho não mencione a obra de Hecateu, sabe-se que ambos devem ter se inspirado em material semelhante para compor suas narrativas. De acordo com Diodoro, é assim que Hecateu apresenta a história do êxodo:

  Quando, antigamente, uma peste devastou o Egito, as pessoas comuns atribuíram seus problemas a intervenção divina; pois na verdade viviam entre eles muitos estrangeiros de todos os tipos, praticando diversos tipos de religião e sacrifícios, e seus ritos tradicionais em honra dos deuses haviam caído em desuso.

  Assim, ao serem expulsos do país, os estrangeiros são obrigados a encontrar um novo lar. Alguns, sob a liderança de Danaus e Cadmo, terminam por colonizar a Grécia, enquanto outro grupo, liderado por Moisés, coloniza a Judéia, ou seja, a Palestina, que na época se dizia ser “desabitada”. Depois eles fundaram a cidade de Jerusalém.



  O Moisés de Apião

  Embora não tenham havido ocorrências anteriores de sobrevivência da narrativa de Osarsiph-Moisés, existem várias versões posteriores a Manetho, algumas contendo variações interessantes da vida de Moisés. Dentre elas está o relato feito pelo gramático grego do primeiro século depois de Cristo, Apião de Alexandria. Ele deixou algumas afirmativas notáveis relativas a Moisés, o Egípcio, em sua própria Aegyptiaca, agora desaparecida; incluídas em seu Contra Apionem. De acordo com Apião:

  já ouvi falar, dos antigos egípcios, que Moisés era de Heliópolis, e que ele se considerava responsável por seguir os costumes de seus ancestrais, e fazia suas preces ao ar livre, diante das muralhas da cidade; mas ele as limitava ao nascer do sol, que era favorável à situação de Heliópolis; ele também construiu pilares em vez de gnômons (obeliscos) […]

  Como Manetho, antes dele, Apião prossegue declarando que esse sábio uniu os “leprosos” e os “impuros” contra o poder do faraó que governava o Egito, e por isso foram expulsos do país. Uma vez mais, lemos que Moisés não era israelita, mas um sacerdote que obviamente ocupava um alto posto no clero de Heliópolis. Além disso, recebemos a informação de que ele adotou uma nova forma de adoração ao sol “agradável” a Heliópolis, o lugar de culto ao deus sol Rá, lugar pelo qual abaixou os muros da cidade o suficiente para que o sol matinal pudesse ser saldado todos os dias.


  O culto de Heliópolis

  Parece não restar dúvida que, ao falar de Moisés, Apião está de fato recordando a revolução religiosa que ocorreu durante o reinado de Aquenaton. Ao subir ao trono como Amenófis IV, Aquenaton proclamou-se o Primeiro Profeta do Aton. Apesar disso, o onipotente Aton não era conhecido exclusivamente por esse nome até o ano nove de seu reinado. Antes dessa época, também levava o título de Rá-Harachte, “Hórus no Horizonte”. Esse era um aspecto com cabeça de falcão do deus-sol Rá, que encarnava os dois aspectos do horizonte duplo – o disco solar no oeste ao pôr-do-sol, e no leste como nascer do sol.

  Aquenaton defendia o culto heliopolitano ao deus Rá, adotando no início de seu reinado seus princípios religiosos, títulos sacerdotais e métodos de adoração, que incluíam, conforme Apião, a construção de templos ao ar livre nos quais o sol seria saudado todas as manhãs. Inscrições do reinado de Aquenaton falam de Rá como a luz oculta do Aton, ao passo que, no templo de Aton em Karnak, Rá-herachte era retratado em sua forma de deus masculino, com a cabeça de falcão tendo acima de si o disco solar.

  Como o Osarsiph-Moisés de Manetho, Aquenaton proibia a adoração aos ídolos e a veneração de animais sagrados. Por exemplo, em seu reinado não se enterraram bois Ápis no Serapeu, ou Serapeum, na necrópole de Mênfis, em Saqqara, indicação segura de que ele pusera de lado essa tradição milenar. Ela só retornou no reinado de Tutancâmon.

  Por último, falemos da fascinação de Aquenaton com a pedra benben, talvez o mais importante objeto de culto na tradição heliopolitana. Essa pedra sagrada de formato cônico, um objeto piramidal, ou escalonado, originalmente colocado sobre um pedestal em praça aberta em Heliópolis, conhecida como a Casa de Benben ou a Casa da Fênix. A fascinação sem precedentes de Aquenaton pela pedra benben, que na cosmologia egípcia antiga simbolizava o Ponto Primordial, ou sep tepi (também conhecido como zep tepi), o lugar onde ocorreu o Primeiro Tempo, ou Primeira Era, aparentemente explicaria porque Apião declarou que Moisés “erigia pilares em vez de gnômons”.


  Se há um período, mais do que qualquer outro, que se pode considerar que reflete os eventos que cercaram o êxodo bíblico, esse é a era de Amarna – não o reinado de Ramsés II ou de seu filho Merneptah. Tal conclusão combina perfeitamente com os fatos que temos à nossa disposição, mesmo que outros períodos da história egípcia tenham contribuído para a narrativa apresentada no livro do êxodo.



  O culto ao disco solar

  De acordo com os fragmentos que restaram da Aegyptiaca de Manetho, Osarsiph-Moisés, o líder eleito dos “leprosos” e “impuros” criou novas leis e costumes contrários ao Egito. Não resta dúvida que esses mandamentos imitam a maneira pela qual Aquenaton proibia a adoração a qualquer deus que não fosse a deidade simbolizada pelo disco solar Aton, ou Aten e, como Manetho declara, ativamente “destruía as imagens dos deuses”.


  Manetho registra também que Osarsiph -Moisés ordenou a seus seguidores que “só se unissem àqueles que pertencessem a sua própria aliança”. Será que isso reflete a forma pela qual Aquenaton defendia a veneração a um só e transferiu a sede do poder de Tebas para a cidade nova de Aquenaton(“horizonte de Aton”), que estava em construção na margem leste do Nilo, 277km rio abaixo? É provável que um imenso número de pessoas, em especial as ligadas ao clero, tenham encarado o Aton como algum tipo de novo salvador divino que garantiria paz e prosperidade ao Egito para toda a eternidade; mas diante do que ocorreu depois, ficou bem claro para eles que estavam totalmente errados.


Parte I a: O faraó monoteísta e um panorama sobre o Egito à época do êxodo
Parte I c: O messias egípcio; e o fim do faraó monoteísta

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Egito, Êxodo e Deus: Parte I a: O faraó monoteísta e um panorama sobre o Egito à época do êxodo

  Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito nessa época e a formação da religião judaica que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos serão divididos em duas partes. A primeira parte será dividida em quatro partes menores.
  Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia" (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. o livro é muito mais abrangente e detalhado do que mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedidos de referências, podem comentar que responderei.
  Estes textos, obviamente, estão muito aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.


  Parte I a: O faraó monoteísta e um panorama sobre o Egito à época do êxodo:

 
  A Heresia de Amarna

  Depois de haver governado Tebas, capital do novo Império, durante quatro anos, igualzinho a todos os outros faraós de sua época, Aquenaton rompeu com o politeísmo tradicional já praticado no Egito há quase dois mil anos. Em seu lugar, adotou uma forma de monoteísmo, centralizado na figura do deus Aton (Aten). De acordo com as inscrições que chegaram até nós, ele era uma deidade onipotente e bissexual, simbolizada pela luz e calor dos raios solares.
  Ao mesmo tempo, Aquenaton proibiu o culto a qualquer outro deus ou deusa. Destituiu os sacerdotes de seus cargos, permitiu que seus templos caíssem aos pedaços, desviou as verbas deles para o Templo de Aton em Aquenaton, baniu todas as formas de idolatria e mandou raspar os nomes dos antigos deuses. Os únicos templos que continuaram funcionando eram os que serviam ao culto do deus-sol Re (que às vezes se pronunciava Rá), o qual, sob seu aspecto de Re-harakhty (harakhty, Hórus no horizonte), foi adotado como uma forma do deus Aton.


  A ascensão de Tutancâmon

  O reinado de Aquenaton terminou de repente. Ninguém sabe porque, embora o fato de terem morrido vários membros fundamentais da família real nos últimos anos de seu reinado não pode ser mera coincidência. Seu sonho durou apenas doze ou treze anos e, depois do breve reinado de seu sucessor Smenkhkare, a restauração das antigas religiões começou a sério com o rei seguinte, Tutancâmon, que nessa época adotava o nome de Tutankhaten. Ele casou-se com a segunda filha mais velha sobrevivente do rei, Ankhesenpaaten (mais tarde Ankhesenamum), que Aquenaton já havia adotado como sua esposa real depois do casamento de Meritaten com Smenkhkare.

  No início, Tutankhaten governou na cidade de Aquenaton em Tel-El-Amarna, mas o menino-rei logo mudou-se de lá para Mênfis, onde instalou sua corte imperial. Ao mesmo tempo, Tebas retomou seu papel como principal centro religioso do Alto Egito – onde um palácio real voltou a ser construído. Além disso, tanto o rei quanto a rainha mudaram seus nomes para homenagear Amon, em vez de Aton.

  Tutankhaten não devia ter mais de nove anos nessa época, e portanto, governar o país era tarefa a ser desempenhada por outros, mais capazes. O general Horemheb tornou-se Vice-Rei e Regente, assumindo os assuntos militares e políticos de Mênfis, ao passo que Aye, o antigo vizir de Aquenaton, tornou-se conselheiro pessoal do menino-rei e administrador de todos os assuntos religiosos. Mesmo assim, embora Tutancâmon e a esposa Ankhesenamum parecessem ter abandonado o culto a Aton centralizado na cidade de Aquenaton o jovem faraó pouco fez no sentido de abafar a heresia de Amarna. Aliás, fica bem claro por vários objetos encontrados em sua tumba, que tanto ele como Ankhesenamum continuaram venerando Aton durante suas vidas inteiras.


  A época do rebelde

  O preço que Aquenaton pagou por abandonar os velhos deuses foi terrível. Sob as ordens do general militar Horemheb, que assumiu o trono depois do breve reinado de quatro anos de Aye, a cidade de Aquenaton foi destruída até os alicerces. Todas as referências ao temido deus Aton foram expurgadas das inscrições, e as estátuas de Aquenaton foram enterradas ou destruídas. Além disso, Horemheb mandou remover os nomes dos quatro reis de Amarna – Aquenaton, Smenkhkare, Tutancâmon e Aye – dos registros oficiais, e prolongou seu reinado para trás, divulgando que havia começado no ano em que o pai de Aquenaton, Amenhotep (Amenófis) III, deu início a uma co-regência com seu filho. Em documentos oficiais da época em que Horemheb estava no poder, há referências à época “do rebelde”, ou do “criminoso de Aquenaton”.

  Como exemplo da forma pela qual Horemheb considerava adequado banir até mesmo Tutancâmon dos registros oficiais, mandou raspar à força de cinzel o nome do Rei da Estela da Restauração, substituindo-o pelo seu. Como ele mesmo havia dirigido a restauração das velhas religiões durante o reinado do menino-rei, obviamente achava que tinha todo o direito de reivindicar a autoria desse feito.


  Smenkhkare

  Pouco depois da morte de Aquenaton, por volta de 1530 a.C., Smenkhkare governou o Egito em Tel-el-Amarna e Mênfis, centro administrativo do Baixo Egito, durante mais ou menos três anos. Tomou como sua esposa real Meritaten, que já havia gerado um filho do pai. Além do nome Smenkhkare, usava o prenome Ankhkheperure, e existem inscrições que evidenciam a existência de um co-regente que governou com Aquenaton, chamado Ankhkheperure Nefernefruaten, e que se presumia ser Smenkhkare. Para complicar ainda mais a questão, Nefertiti também usava o nome Nefernefruaten.
Praticamente todos os estudiosos do período de Amarna concordam que Nefertiti adotou o título de Ankhkheperure nefernefruaten ao se tornar co-regente com o marido Aquenaton durante os anos finais de sua vida. Porém, quando ela saiu de cena, Smenkhkare ascendeu ao trono e confundiu a questão ainda mais, adotando o nome de Nefernefruaten ele mesmo, talvez para enfatizar que era o o sucessor escolhido por Nefertiti.
  Um grande número de objetos funerários encontrados na tumba de Tutancâmon havia originalmente ostentado o nome de Ankhkheperure ou nefernefruaten (ambos ocasionalmente combinados com o nome Meritaten), o qual havia sido apagado e substituído pelo de Tutancâmon.
Mas o estranho é que Smenkhkare não aparece em nenhuma inscrição, nem é retratado sob forma alguma, até subitamente ser elevado à posição de Rei do Alto e Baixo Egito, lá para o final do reinado de Aquenaton. Mesmo assim, partindo-se deste fato apenas, seria possível deduzir que ele era parente próximo de Aquenaton, mesmo que seja improvável que fosse filho do faraó. É plausível supor, então, que fosse filho de Amenhotep (Amenófis) III, embora embora sua mãe continue sendo desconhecida. Também é concebível que Tutancâmon, que também jamais apareceu em nenhuma obra de arte antes de sua ascensão ao trono, fosse da mesma maneira um irmão ou meio-irmão de Aquenaton, talvez irmão de sangue de Smenkhkare.
 
Parte I b: O profeta e o êxodo do Egito como não conhecemos  

sexta-feira, 5 de julho de 2013

The Walking Dead e a "História humana"

  Comecei a assistir a série The Walking Dead com um pé atrás: um monte de zumbis atacando pessoas que ficam matando esses zumbis. Na verdade, é bem isso, mesmo; essa é a premissa da história. Mas então, por que um enredo tão "batido" chamaria  e prenderia a atenção de tantas pessoas (me incluo nessa) por tanto tempo? A resposta é: de simples tem apenas a roupagem, que realmente aproveitou a moda de zumbis, além do sangue, mortes e violência que costumam atrair uma boa quantidade de público.

  Há uma teia social muito bem estruturada entrelaçando os personagens, com perfis psicológicos distintos, bem definidos, complexos e ao mesmo tempo caricatos (me lembra um pouco, mantendo as devidas proporções, os personagens da turma do Charlie Brown, onde cada um aparenta um perfil psicológico distinto que podia ser remetido a algum problema psicológico específico) e que se desenvolvem com o desenrolar da história. Mas isso ainda está no raso da coisa (segundo minha análise). Acho que dificilmente apenas esses aspectos resultariam no estrondoso sucesso da série. A grande sacada está nos fatores sociopolíticos que permeiam o universo de The walking dead; um mundo que, de certa forma, conta momentos diversos da história da sociedade humana sob a perspectiva desses fatores. Muitas pessoas provavelmente se sentem atraídas pela série – ou os quadrinhos, que deram origem a série, os quais ainda não li – e não se dão conta do porquê, não percebem a profundidade existente e acabam por não aproveitar tanto quanto poderiam. Não que a premissa seja toda original: nos jogos de videogame da série Fallout, por exemplo, nos é apresentado um mundo pós-apocalíptico onde formam-se diferentes grupos sob diferentes formas de governo e relações sociais. Mas talvez The Walking Dead seja o primeiro a fazer isso na televisão e com tanta qualidade técnica.

  Mas quais fatores sociopolíticos são esses que remontam alguns pontos da história humana? São as formas como os diferentes grupos sociais se organizam dentro desse mundo pós-apocalíptico. A começar, esse mundo põem o homem num estágio “primitivo”, como se tivesse acabado de sair do estado de natureza - como argumentavam os pensadores naturalistas. Inicialmente há divisão de trabalho entre homens e mulheres – aqui faço uma observação: acho natural tal divisão em um mundo “primitivo”; o homem por natureza é mais forte, fisicamente, que a mulher, portanto é natural que eles realizem os trabalhos que demandem força e risco. Isso não é uma divisão preconceituosa de trabalho, mas sim de aptidões -, mas por causa da situação extrema em que se encontram, rodeados de zumbis sedentos por carne e outros grupos muitas vezes hostis (pra dizer o mínimo), todos são forçados – por fatores externos: Durkheim - a desenvolverem e aplicarem da melhor forma habilidades comuns a todos e necessárias à sobrevivência.

  A visão mais comum desse mundo remete à hobbeniana – o homem é o lobo do homem. A ausência de leis para manter a ordem e uma sociedade egoísta, onde as pessoas são altamente individualistas, faz com que conflitos surjam constantemente. Daí a necessidade se formarem organizações sociais e formas de governo que atendam às necessidades distintas de cada grupo. Também vemos microcosmos sociais onde todos são bons e trabalham para o bem de todos - Rosseau; grupos que vivem em paz mas decidem por um líder para a manutenção dessa paz diante da hostilidade encontrada na “natureza”- Locke -, porém, esse grupo acaba nas mãos de um homem carismático, com um exército fortemente armado, governando com mão de ferro e grande foco em auto-publicidade - fascismo. Ele age visando os objetivos que pensa serem os melhores para essa sociedade, passando por cima seja do que ou de quem for - Maquiavel.

  Nessa “terra-de-ninguém”, os indivíduos mais egoístas tem mais dificuldade em se organizar e tentam a todo custo reaver um modo de vida que seja o mais próximo do sistema capitalista, agora inexistente. Os indivíduos mais altruístas conseguem se organizar mais rapidamente e têm mais facilidade em manter a paz interna do grupo.

  The walking Dead é uma crítica à sociedade atual, como mostram muitas análises que podem ser encontradas pela internet, mas também uma aula sobre a humanidade, sob um contexto muito mais abrangente. Isso sem tocar nos aspectos psicológicos, sobre os quais não possuo conhecimento suficiente para discorrer muito a respeito. Quem não parou para analisar a série além de seus aspectos técnicos, talvez agora possa aproveitá-la com um olhar um pouco mais profundo, ao se deter a esses “detalhes”, que se encontram tão fundo na série.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Manifestação Partida

 Devemos ter cuidado com essa atual aversão aos partidos políticos durante as manifestações. Entendo a repulsa que o governo do nosso país nos causa, mas não podemos deixar que isso seja usado contra nós. Vejo a falta de partidos políticos levando a 2 caminhos bem distintos: anarquia -
extrema esquerda - e ditadura - extrema direita. Como em um território tão grande quanto o Brasil um governo anárquico não seria viável, resta-nos o ditatorial. Muitos adeptos da ditadura já cogitam a volta dos militares ao poder. Durante a ditadura o governo tentou acabar com os partidos políticos e ainda assim as pessoas se organizavam às escondidas. Agora vamos nós mesmos abandonar esse direito?

 Ainda há outra questão: já repararam o quanto as emissoras de televisão, como a globo, exaltam as ações não apenas apartidárias mas também antipartidárias por parte dos manifestantes? O que um sistema de direita como esse pode estar querendo com isso? O que sempre quer: mais poder e manutenção do poder que tem. Querem a alienação do povo, querem poder escolher quem sobe ao poder por meio de suas manipulações, não querem correr o risco de que suba ao poder algum partido político que não os favoreça. Há sempre os que querem se aproveitar da visibilidade dada ao movimento para se promoverem apenas, mas aí deveríamos apenas acabar com o sistema democrático? Acho complicado isso enquanto não surge uma opção melhor. Querem além de que não tenhamos partidos políticos, não tenhamos nem lado definido, mas isso porque o lado na manifestação é um só: esquerda. Se você está lá, se apóia o movimento, se exige seus direitos ou se é contra o atual governo, você está sendo de esquerda, por mais que isso não reflita sua ideologia política habitual. E isso eles querem menos ainda que você veja: você está sendo parte de um movimento de esquerda de proporções gigantescas, contra um governo q "se diz" de esquerda - mas obviamente deixou de ser no momento que chegou ao poder - e isso não fez de você nenhum ser monstruoso das trevas. Porque essa iluminação da consciência popular não é boa pra eles.


 No fim, a mídia, no geral de direita, quer a despolitização do povo, mesmo. E o povo tem uma

tendência grande em abraçar essa sugestão, pois é muito mais fácil expulsar todos os militantes e queimar todas as bandeiras partidárias do que pesquisar sobre os partidos, seus integrantes, suas ações. Acho bem legal essa movimentação de uma única voz, o fato de não haver líderes bem definidos também dificulta que o movimento seja contido, mas por mais fervorosa que seja a manifestação, não é negando a política que se torna politizado num Estado democrático.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Drunken Bike

 Era uma manhã quente e nenhuma nuvem à vista. Resolvemos dar uma volta, ir para algum lugar diferente. Eu e Leli fomos com o William no carro dele para uma cidade próxima, munidos de vodka, conhaque, refrigerante, suco, gelo e narguile. Era uma cidade pequena, nos afastamos do centro e acabamos em uma estrada de terra. Paramos em um local com gramado, alguns arbustros, poucas árvores; o outro lado da rua margeado por barrancos de terra vermelha.

 Ficamos embaixo de uma das árvores preparando as bebidas e o narguile. Conversamos, bebemos, fumamos, bebemos, tocamos violão e cantamos, bebemos. Depois de certo tempo nessa rotina, juntou-se a nós uma garota, conhecida do william: andressa - que já parecia meio alta quando chegou lá.

 Com Andressa veio outro cara que não me lembro o nome. Ele estava de bicleta e foi conversar com a Leli. Ele parecia estar dando em cima dela, mas ela como normalmente fazia, disse depois não ter percebido nada. Ela já tinha bebido bastante e, teve a brilhante idéia de andar com a bicleta de seu novo amigo. Ele pareceu meio preocupado, mas deixou. Ela foi em direção aos barrancos do outro lado da rua. Ela queria subir por eles com a bicicleta, a qualquer custo. Os barrancos eram razoavelmente íngrimes, 2 a 3 metros de altura mais ou menos, e a terra vermelha deslizava com muita facilidade.

 Na primeira tentativa o pneu dianteiro afundou em um pouco de terra que estava mais fofa, fazendo o guidom girar para a direita, desequilibrando Leli, que teve sua queda amortecida pelo seu rosto contra o chão. Ela levantou cambaleante, rosto sujo e arranhado e um pouco de sangue no lábio. O cara com ela a ajudou a levantar-se e tentou - sem sucesso - convencê-la a deixar a bicicleta.

 As tentativas continuaram; os tombos também. Nós gritávamos, entre um trago e outro, para que ela parasse. Ela não parava, e seu estado estava cada vez pior. Quando já parecia quase esgotada subiu mais vez na bicicleta, tomou impulso, e correu, subiu quase tudo (quase); quando a roda da frente ultrapassou os 2 metros à sua frente, a bicleta girou para a esquerda e ambas (bicicleta e leli) caíram rolando.

 Leli, deitada de bruços, levantou a cabeça em meio ao pó e sofregamente começou a se arrastar em direção à estrada de chão. Ela estava coberta de vermelho, a  calça com vários rasgos, na camiseta também havia um furo ou outro; seus cotovelos, joelhos e ombros estavam todos ralados e com sangue. Ela conseguiu se levantar (ou o mais próximo disso) e,  com a altivez que talvez tivesse um zumbi depois de pasar por umas boas, ela parou, aguardando um carro que se aproximava. Ela começou a acenar com o braço menos machucado para que o carro parasse para levá-la a algum médico - william e eu não estávamos em condições de dirigir. O carro diminuiu a velocidade, mas não o suficiente, acertou-lhe em cheio, mas não muito forte. Após cair no chão, Leli ajoelhou-se, com uma cara que misturava expressões de indignação, surpresa, riso, raiva e mais alguma coisa que não pude identificar. Ela olhou ao redor, olhou para nós e disse com essa mistura de expressões em meio ao que pareciam ser risos:
 - Ele me atropelou! Vocês viram?! Eu não acrredito! Olha o meu estado! E ele me atropelou!

 O carro, com o parachoque na altura mais ou menos da testa de Leli, acelerou um pouco encostando nela. Mas ela consegiu afastar-se um pouco a tempo de avitar o choque em sua cabeça, acertando-lhe apenas o ombro, de leve. O motorista estava com uma cara de quem espera o sinal de transito abrir, parecia um pouco entediado, um esboço de sorriso no canto do rosto, ou apenas tédio. Ela gritou ao motorista:
 - Tá bom! Tá bom! Já entendi! Já tô saindo.
 E arrastou-se até onde estávamos.
 O motorista olhou para o lado, ela saiu da pista, ele balançou a cabeça - o aparente sorriso no canto da boca pareceu evidenciar-se um pouco - e seguiu viagem.