quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Egito, Êxodo e Deus: Parte I b: O profeta e o êxodo do Egito como não conhecemos

  Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito nessa época e a formação da religião judaica que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos serão divididos em duas partes. A primeira parte será dividida em quatro partes menores.
  Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia” (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. o livro é muito mais abrangente e detalhado do que mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedido de referências, podem comentar que responderei.
  Estes textos, obviamente, estão muito aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.


  Parte I b: O profeta e o êxodo do Egito como não conhecemos:

  O Relato de Manetho

  O egiptólogo britânico Arthur Weigall, no livro Tutankhamen and Other Essays, se baseia nos escritos de Manetho de sebenitos, um escriba e sacerdote egípcio do templo de Heliópolis, no Baixo Egito, que se acredita ter escrito em sua língua grega nativa nada menos que oito livros, entre aproximadamente 280 e 250 a.C. Intitulada Aegyptiaca, ou história egípcia, não existe mais; porém, fragmentos da História de Manetho estão em uma obra intitulada Flavius Josephus contra Apion ou contra Apionem, escrita por Flávio Josefo (por volta de 37 a 97 d.C.), o escritor judeu que presenciou e depois registrou alguns dos eventos mais importantes da história judaica.

  O autor de longe mais significativo a ser atacado por Josefo em Contra Apionem foi Manetho que, como veremos a seguir, dizia que os judeus descendiam de leprosos. O relato apresenta um faraó chamado “Amenofis”, que, desejando ver os deuses (“como Orus, um de seus antecessores naquele reino, desejava o mesmo antes dele”), procurou o conselho de seu homônimo “Amenofis, filho de Papis”, um homem sábio com o “o conhecimento das coisas futuras”. Depois de ouvir o pedido do rei, Amenófis insistiu que a única maneira pela qual se poderia alcançar isso seria livrar o reino de todos os ”leprosos, e “pessoas impuras”. Assim, reuniram-se 80 mil indivíduos que foram enviados para as pedreiras, “na margem leste do Nilo”, onde trabalhavam segregados do resto da população egípcia. Dentre eles havia “alguns dos sacerdotes sábios contaminados pela lepra”.

  Apesar de sua fórmula para atender aos desejos do faraó, Amenosfis, filho de Papis, sentiu remorso pelo que tinha começado, pois, como Manetho registra:

  Amenófis, sábio e profeta, temia que os deuses se encolarizassem contra ele e o rei, se parecesse haver violência contra eles [ou seja, os “sacerdotes sábios”].

  Sabendo muito bem quais seriam as consequências de suas palavras, previu que “certas pessoas viriam ajudar esses pobres contaminados”, as quais deporiam o rei e permaneceriam no poder durante treze anos. Incapaz de suportar as consequências de tocar no assunto diante do rei, Amenófis registrou sua profecia antes de se matar.

  Tendo aprendido a lição com a morte de seu homônimo e as previsões que havia feito, Amenófis, o rei, resolveu corrigir o mal que havia feito expulsando os “leprosos” e as “pessoas impuras”. Eles haviam lhe suplicado que lhes desse um lugar para morar na cidade abandonada de Avaris, antigo lar dos hicsos, e lugar de culto a Tífon (ou seja, Set) desde tempos imemoriais. O rei consentiu que isso se fizesse. Também era ali que ficava a cidade de Pi-Ramesse e a cidade-armazém bíblica de Ramsés, identificada por Manfred Bietak et alli como Tell el-Dab`a, no Delta Oriental.

  Depois de ocupar a cidade, os “leprosos e impuros” usaram Avaris como base para revoltar-se e nomearam para si um líder “dentre os sacerdotes de Heliópolis”. Seu nome era Osarsiph, ou Osarsêph, e a ele o povo jurou obediência, tendo, como contrapartida, a confecção de novas leis que “se opunham frontalmente aos costumes egípcios”. Ele disse-lhes que “não adorassem deuses egípcios”, e que “se abstivessem de qualquer animal sagrado que tinham na mais alta estima, matando-os e destruindo-os”. Além disso, Osarsiph ordenou que eles “não se unissem senão àqueles que pertencessem a sua própria aliança.

  Esse Osarsiph, sacerdote de Heliópolis, falou ao “povo impuro”, dizendo-lhes que não devia mais trabalhar nas pedreiras. Em vez disso, deveriam construir muros em torno da cidade e prepara-se para uma guerra contra o rei Amenófis. Osarsiph, então, garantiu a “amizade” dos outros “sacerdotes e aqueles que estavam contaminados com eles”, e despachou embaixadores a “Jerusalém”, na esperança que pudessem persuadir os “pastores”, ou seja, os hicsos, a reunir-se para lutarem com eles. Antes, em Contra Apionem, Josefo havia relatado a história, narrada por Manetho, da expulsão do hicsos no governo do rei “Thummosis” ou “Amisis”, inquestionavelmente Ahmose, que reinou de 1575-1550 a.C., aproximadamente, dizendo que na sua volta para a Síria, ou seja, Canaã, eles haviam construído a cidade de Jerusalém. Isso apesar do fato de que no Velho Testamento Jerusalém só se tornou importante na tradição israelita quando as monarquias se unificaram sob Davi e Salomão, centenas de anos depois da era de Moisés. Em reconhecimento ao seu apoio, Osarsiph prometeu aos pastores que haviam sido forçados a abandonar depois de sua partida do Egito várias gerações antes, a cidade de Avaris.

  Depois de aceitar a oferta, cerca de 200 mil hicsos vieram ajudar Osarsiph, e juntos assumiram o controle do Egito. Amenófis, que havia reunido na cidade de Mênfis todos os animais sagrados, onde já se podia encontrar o touro Ápis, fugiu com o filho de cinco anos, sethos, e 300 mil de seus homens “mais valorosos” para a Etiópia, cujo rei “lhe devia favores”. Contudo, o “povo de Jerusalém” que havia se unido “ aos egípcios contaminados” começou a tratar os egípcios “de forma bárbara”:

  […] aqueles que viam como eles haviam subjugado o país acima (ou seja, o Egito) e as maldades horrendas que haviam praticado, consideraram esse evento uma coisa monstruosa,; pois eles não só atearam fogo às cidades e aldeias, como também se tornaram culpados de sacrilégio, destruindo as imagens dos deuses e usando-as para assar os animais sagrados que antes eram venerados, obrigando os sacerdotes e profetas a se tornarem seus executores e assassinos, depois os expulsando do país sem sequer a roupa do corpo. Também relatou-se que o sacerdote que lhes fornecia as diretrizes e as leis era natural de Heliópolis. Mas quando ele começou a liderar aquele povo, mudou de nome, e passou a chamar-se Moisés.

  Após 13 anos no exílio, Amenófis reuniu seu exército, e com a ajuda de um segundo exército reunido por seu filho, “Rhampses” (antes “Sethos, também chamado Ramsés, devido a seu pai Rhampses), voltou ao Egito e “batalhou contra os pastores e os impuros, vencendo-os, chacinando muitos e perseguindo-os até as fronteiras da Síria.

  Na opinião de Weigall, não resta dúvida de que o reinado de treze anos de Osarsiph-Moisés correspondia “aos treze anos da heresia de Aton em Tel-el-Amarna”. Em sua opinião,

  Os 80 mil impuros, que são, ao meu ver, os seguidores de Aton, e sua remoção para as pedreiras na margem leste do Nilo correspondem de forma impressionante à transferência histórica da capital inteira de Aquenaton de Tebas para Tel-elAmarna.

  Weigall supôs, corretamente que, como Horemheb fez seu reinado retroceder até a morte de Amenófis III, isso explicaria porque Manetho via todos esses eventos como ocorridos durante o reinado de um único rei, Amenófis, que se baseia vagamente no pai de Aquenaton, Amenófis III..

  Sabendo que o líder dos “impuros” e asiáticos era um sacerdote egípcio de Heliópolis que mudou o nome para Moisés, Weigall propôs que ele teria nascido “no reinado de Amenófis III, e que, como o Moisés da tradição bíblica, fugiu para a terra de Madiã no reinado de Aquenaton”. Assim, suspeitava “que Tutancâmon teria sido o faraó durante cujo reinado Moisés voltou ao Egito e organizou o êxodo de seus compatriotas cativos”.


  Hecataeus de Abdera

  Com toda a probabilidade, o material que serviu de fonte ao moisés de Manetho veio de bibliotecas de Heliópolis. Contudo, uma possível influência vem de uma obra composta uma geração ou duas antes pelo historiador grego Hecateu de Abdera. Em 320 a.C., apenas 12 anos depois que Alexandre o Grande comemorou sua entrada no Egito, Hecateu ficou na corte do primeiro rei helênico, Ptolomeu I, e depois escreveu sua própria Aegyptiaca, história do Egito. Embora essa narrativa não exista mais, fragmentos dela foram citados por Siculus ou Diodorus da Sicília (aprox. 8 a.C.) em sua obra Bibliotheca Historica, a Biblioteca da História.

  Muito embora Manetho não mencione a obra de Hecateu, sabe-se que ambos devem ter se inspirado em material semelhante para compor suas narrativas. De acordo com Diodoro, é assim que Hecateu apresenta a história do êxodo:

  Quando, antigamente, uma peste devastou o Egito, as pessoas comuns atribuíram seus problemas a intervenção divina; pois na verdade viviam entre eles muitos estrangeiros de todos os tipos, praticando diversos tipos de religião e sacrifícios, e seus ritos tradicionais em honra dos deuses haviam caído em desuso.

  Assim, ao serem expulsos do país, os estrangeiros são obrigados a encontrar um novo lar. Alguns, sob a liderança de Danaus e Cadmo, terminam por colonizar a Grécia, enquanto outro grupo, liderado por Moisés, coloniza a Judéia, ou seja, a Palestina, que na época se dizia ser “desabitada”. Depois eles fundaram a cidade de Jerusalém.



  O Moisés de Apião

  Embora não tenham havido ocorrências anteriores de sobrevivência da narrativa de Osarsiph-Moisés, existem várias versões posteriores a Manetho, algumas contendo variações interessantes da vida de Moisés. Dentre elas está o relato feito pelo gramático grego do primeiro século depois de Cristo, Apião de Alexandria. Ele deixou algumas afirmativas notáveis relativas a Moisés, o Egípcio, em sua própria Aegyptiaca, agora desaparecida; incluídas em seu Contra Apionem. De acordo com Apião:

  já ouvi falar, dos antigos egípcios, que Moisés era de Heliópolis, e que ele se considerava responsável por seguir os costumes de seus ancestrais, e fazia suas preces ao ar livre, diante das muralhas da cidade; mas ele as limitava ao nascer do sol, que era favorável à situação de Heliópolis; ele também construiu pilares em vez de gnômons (obeliscos) […]

  Como Manetho, antes dele, Apião prossegue declarando que esse sábio uniu os “leprosos” e os “impuros” contra o poder do faraó que governava o Egito, e por isso foram expulsos do país. Uma vez mais, lemos que Moisés não era israelita, mas um sacerdote que obviamente ocupava um alto posto no clero de Heliópolis. Além disso, recebemos a informação de que ele adotou uma nova forma de adoração ao sol “agradável” a Heliópolis, o lugar de culto ao deus sol Rá, lugar pelo qual abaixou os muros da cidade o suficiente para que o sol matinal pudesse ser saldado todos os dias.


  O culto de Heliópolis

  Parece não restar dúvida que, ao falar de Moisés, Apião está de fato recordando a revolução religiosa que ocorreu durante o reinado de Aquenaton. Ao subir ao trono como Amenófis IV, Aquenaton proclamou-se o Primeiro Profeta do Aton. Apesar disso, o onipotente Aton não era conhecido exclusivamente por esse nome até o ano nove de seu reinado. Antes dessa época, também levava o título de Rá-Harachte, “Hórus no Horizonte”. Esse era um aspecto com cabeça de falcão do deus-sol Rá, que encarnava os dois aspectos do horizonte duplo – o disco solar no oeste ao pôr-do-sol, e no leste como nascer do sol.

  Aquenaton defendia o culto heliopolitano ao deus Rá, adotando no início de seu reinado seus princípios religiosos, títulos sacerdotais e métodos de adoração, que incluíam, conforme Apião, a construção de templos ao ar livre nos quais o sol seria saudado todas as manhãs. Inscrições do reinado de Aquenaton falam de Rá como a luz oculta do Aton, ao passo que, no templo de Aton em Karnak, Rá-herachte era retratado em sua forma de deus masculino, com a cabeça de falcão tendo acima de si o disco solar.

  Como o Osarsiph-Moisés de Manetho, Aquenaton proibia a adoração aos ídolos e a veneração de animais sagrados. Por exemplo, em seu reinado não se enterraram bois Ápis no Serapeu, ou Serapeum, na necrópole de Mênfis, em Saqqara, indicação segura de que ele pusera de lado essa tradição milenar. Ela só retornou no reinado de Tutancâmon.

  Por último, falemos da fascinação de Aquenaton com a pedra benben, talvez o mais importante objeto de culto na tradição heliopolitana. Essa pedra sagrada de formato cônico, um objeto piramidal, ou escalonado, originalmente colocado sobre um pedestal em praça aberta em Heliópolis, conhecida como a Casa de Benben ou a Casa da Fênix. A fascinação sem precedentes de Aquenaton pela pedra benben, que na cosmologia egípcia antiga simbolizava o Ponto Primordial, ou sep tepi (também conhecido como zep tepi), o lugar onde ocorreu o Primeiro Tempo, ou Primeira Era, aparentemente explicaria porque Apião declarou que Moisés “erigia pilares em vez de gnômons”.


  Se há um período, mais do que qualquer outro, que se pode considerar que reflete os eventos que cercaram o êxodo bíblico, esse é a era de Amarna – não o reinado de Ramsés II ou de seu filho Merneptah. Tal conclusão combina perfeitamente com os fatos que temos à nossa disposição, mesmo que outros períodos da história egípcia tenham contribuído para a narrativa apresentada no livro do êxodo.



  O culto ao disco solar

  De acordo com os fragmentos que restaram da Aegyptiaca de Manetho, Osarsiph-Moisés, o líder eleito dos “leprosos” e “impuros” criou novas leis e costumes contrários ao Egito. Não resta dúvida que esses mandamentos imitam a maneira pela qual Aquenaton proibia a adoração a qualquer deus que não fosse a deidade simbolizada pelo disco solar Aton, ou Aten e, como Manetho declara, ativamente “destruía as imagens dos deuses”.


  Manetho registra também que Osarsiph -Moisés ordenou a seus seguidores que “só se unissem àqueles que pertencessem a sua própria aliança”. Será que isso reflete a forma pela qual Aquenaton defendia a veneração a um só e transferiu a sede do poder de Tebas para a cidade nova de Aquenaton(“horizonte de Aton”), que estava em construção na margem leste do Nilo, 277km rio abaixo? É provável que um imenso número de pessoas, em especial as ligadas ao clero, tenham encarado o Aton como algum tipo de novo salvador divino que garantiria paz e prosperidade ao Egito para toda a eternidade; mas diante do que ocorreu depois, ficou bem claro para eles que estavam totalmente errados.


Parte I a: O faraó monoteísta e um panorama sobre o Egito à época do êxodo
Parte I c: O messias egípcio; e o fim do faraó monoteísta

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Egito, Êxodo e Deus: Parte I a: O faraó monoteísta e um panorama sobre o Egito à época do êxodo

  Esta é uma pequena série de textos mostrando uma alternativa ao ponto de vista consensual sobre o êxodo do Egito, o Egito nessa época e a formação da religião judaica que por sua vez deu origem ao cristianismo e ao islamismo. Os textos serão divididos em duas partes. A primeira parte será dividida em quatro partes menores.
  Estes textos são uma espécie de resumo, trechos retirados do livro “TUTANCÂMON a verdade por trás do maior mistério da arqueologia" (título original: Mercy), de Andrew Collins e Chris Ogilvie-Herald, Editora Landscape, 2004. o livro é muito mais abrangente e detalhado do que mostrado aqui, com inúmeras referências e pontos de vista alternativos sobre os temas abordados. Nesse resumo suprimi as referências e adotei os pontos de vista escolhidos como mais prováveis e necessários para o desenvolvimento do raciocínio dos autores. Quaisquer dúvidas ou pedidos de referências, podem comentar que responderei.
  Estes textos, obviamente, estão muito aquém do original, no entanto, conseguem mostrar satisfatoriamente que o que sabemos talvez não seja exatamente da forma que pensamos ser. Para todos que se interessam pelo Egito, religiões, História e pela incessante busca pela verdade.


  Parte I a: O faraó monoteísta e um panorama sobre o Egito à época do êxodo:

 
  A Heresia de Amarna

  Depois de haver governado Tebas, capital do novo Império, durante quatro anos, igualzinho a todos os outros faraós de sua época, Aquenaton rompeu com o politeísmo tradicional já praticado no Egito há quase dois mil anos. Em seu lugar, adotou uma forma de monoteísmo, centralizado na figura do deus Aton (Aten). De acordo com as inscrições que chegaram até nós, ele era uma deidade onipotente e bissexual, simbolizada pela luz e calor dos raios solares.
  Ao mesmo tempo, Aquenaton proibiu o culto a qualquer outro deus ou deusa. Destituiu os sacerdotes de seus cargos, permitiu que seus templos caíssem aos pedaços, desviou as verbas deles para o Templo de Aton em Aquenaton, baniu todas as formas de idolatria e mandou raspar os nomes dos antigos deuses. Os únicos templos que continuaram funcionando eram os que serviam ao culto do deus-sol Re (que às vezes se pronunciava Rá), o qual, sob seu aspecto de Re-harakhty (harakhty, Hórus no horizonte), foi adotado como uma forma do deus Aton.


  A ascensão de Tutancâmon

  O reinado de Aquenaton terminou de repente. Ninguém sabe porque, embora o fato de terem morrido vários membros fundamentais da família real nos últimos anos de seu reinado não pode ser mera coincidência. Seu sonho durou apenas doze ou treze anos e, depois do breve reinado de seu sucessor Smenkhkare, a restauração das antigas religiões começou a sério com o rei seguinte, Tutancâmon, que nessa época adotava o nome de Tutankhaten. Ele casou-se com a segunda filha mais velha sobrevivente do rei, Ankhesenpaaten (mais tarde Ankhesenamum), que Aquenaton já havia adotado como sua esposa real depois do casamento de Meritaten com Smenkhkare.

  No início, Tutankhaten governou na cidade de Aquenaton em Tel-El-Amarna, mas o menino-rei logo mudou-se de lá para Mênfis, onde instalou sua corte imperial. Ao mesmo tempo, Tebas retomou seu papel como principal centro religioso do Alto Egito – onde um palácio real voltou a ser construído. Além disso, tanto o rei quanto a rainha mudaram seus nomes para homenagear Amon, em vez de Aton.

  Tutankhaten não devia ter mais de nove anos nessa época, e portanto, governar o país era tarefa a ser desempenhada por outros, mais capazes. O general Horemheb tornou-se Vice-Rei e Regente, assumindo os assuntos militares e políticos de Mênfis, ao passo que Aye, o antigo vizir de Aquenaton, tornou-se conselheiro pessoal do menino-rei e administrador de todos os assuntos religiosos. Mesmo assim, embora Tutancâmon e a esposa Ankhesenamum parecessem ter abandonado o culto a Aton centralizado na cidade de Aquenaton o jovem faraó pouco fez no sentido de abafar a heresia de Amarna. Aliás, fica bem claro por vários objetos encontrados em sua tumba, que tanto ele como Ankhesenamum continuaram venerando Aton durante suas vidas inteiras.


  A época do rebelde

  O preço que Aquenaton pagou por abandonar os velhos deuses foi terrível. Sob as ordens do general militar Horemheb, que assumiu o trono depois do breve reinado de quatro anos de Aye, a cidade de Aquenaton foi destruída até os alicerces. Todas as referências ao temido deus Aton foram expurgadas das inscrições, e as estátuas de Aquenaton foram enterradas ou destruídas. Além disso, Horemheb mandou remover os nomes dos quatro reis de Amarna – Aquenaton, Smenkhkare, Tutancâmon e Aye – dos registros oficiais, e prolongou seu reinado para trás, divulgando que havia começado no ano em que o pai de Aquenaton, Amenhotep (Amenófis) III, deu início a uma co-regência com seu filho. Em documentos oficiais da época em que Horemheb estava no poder, há referências à época “do rebelde”, ou do “criminoso de Aquenaton”.

  Como exemplo da forma pela qual Horemheb considerava adequado banir até mesmo Tutancâmon dos registros oficiais, mandou raspar à força de cinzel o nome do Rei da Estela da Restauração, substituindo-o pelo seu. Como ele mesmo havia dirigido a restauração das velhas religiões durante o reinado do menino-rei, obviamente achava que tinha todo o direito de reivindicar a autoria desse feito.


  Smenkhkare

  Pouco depois da morte de Aquenaton, por volta de 1530 a.C., Smenkhkare governou o Egito em Tel-el-Amarna e Mênfis, centro administrativo do Baixo Egito, durante mais ou menos três anos. Tomou como sua esposa real Meritaten, que já havia gerado um filho do pai. Além do nome Smenkhkare, usava o prenome Ankhkheperure, e existem inscrições que evidenciam a existência de um co-regente que governou com Aquenaton, chamado Ankhkheperure Nefernefruaten, e que se presumia ser Smenkhkare. Para complicar ainda mais a questão, Nefertiti também usava o nome Nefernefruaten.
Praticamente todos os estudiosos do período de Amarna concordam que Nefertiti adotou o título de Ankhkheperure nefernefruaten ao se tornar co-regente com o marido Aquenaton durante os anos finais de sua vida. Porém, quando ela saiu de cena, Smenkhkare ascendeu ao trono e confundiu a questão ainda mais, adotando o nome de Nefernefruaten ele mesmo, talvez para enfatizar que era o o sucessor escolhido por Nefertiti.
  Um grande número de objetos funerários encontrados na tumba de Tutancâmon havia originalmente ostentado o nome de Ankhkheperure ou nefernefruaten (ambos ocasionalmente combinados com o nome Meritaten), o qual havia sido apagado e substituído pelo de Tutancâmon.
Mas o estranho é que Smenkhkare não aparece em nenhuma inscrição, nem é retratado sob forma alguma, até subitamente ser elevado à posição de Rei do Alto e Baixo Egito, lá para o final do reinado de Aquenaton. Mesmo assim, partindo-se deste fato apenas, seria possível deduzir que ele era parente próximo de Aquenaton, mesmo que seja improvável que fosse filho do faraó. É plausível supor, então, que fosse filho de Amenhotep (Amenófis) III, embora embora sua mãe continue sendo desconhecida. Também é concebível que Tutancâmon, que também jamais apareceu em nenhuma obra de arte antes de sua ascensão ao trono, fosse da mesma maneira um irmão ou meio-irmão de Aquenaton, talvez irmão de sangue de Smenkhkare.
 
Parte I b: O profeta e o êxodo do Egito como não conhecemos  

sexta-feira, 5 de julho de 2013

The Walking Dead e a "História humana"

  Comecei a assistir a série The Walking Dead com um pé atrás: um monte de zumbis atacando pessoas que ficam matando esses zumbis. Na verdade, é bem isso, mesmo; essa é a premissa da história. Mas então, por que um enredo tão "batido" chamaria  e prenderia a atenção de tantas pessoas (me incluo nessa) por tanto tempo? A resposta é: de simples tem apenas a roupagem, que realmente aproveitou a moda de zumbis, além do sangue, mortes e violência que costumam atrair uma boa quantidade de público.

  Há uma teia social muito bem estruturada entrelaçando os personagens, com perfis psicológicos distintos, bem definidos, complexos e ao mesmo tempo caricatos (me lembra um pouco, mantendo as devidas proporções, os personagens da turma do Charlie Brown, onde cada um aparenta um perfil psicológico distinto que podia ser remetido a algum problema psicológico específico) e que se desenvolvem com o desenrolar da história. Mas isso ainda está no raso da coisa (segundo minha análise). Acho que dificilmente apenas esses aspectos resultariam no estrondoso sucesso da série. A grande sacada está nos fatores sociopolíticos que permeiam o universo de The walking dead; um mundo que, de certa forma, conta momentos diversos da história da sociedade humana sob a perspectiva desses fatores. Muitas pessoas provavelmente se sentem atraídas pela série – ou os quadrinhos, que deram origem a série, os quais ainda não li – e não se dão conta do porquê, não percebem a profundidade existente e acabam por não aproveitar tanto quanto poderiam. Não que a premissa seja toda original: nos jogos de videogame da série Fallout, por exemplo, nos é apresentado um mundo pós-apocalíptico onde formam-se diferentes grupos sob diferentes formas de governo e relações sociais. Mas talvez The Walking Dead seja o primeiro a fazer isso na televisão e com tanta qualidade técnica.

  Mas quais fatores sociopolíticos são esses que remontam alguns pontos da história humana? São as formas como os diferentes grupos sociais se organizam dentro desse mundo pós-apocalíptico. A começar, esse mundo põem o homem num estágio “primitivo”, como se tivesse acabado de sair do estado de natureza - como argumentavam os pensadores naturalistas. Inicialmente há divisão de trabalho entre homens e mulheres – aqui faço uma observação: acho natural tal divisão em um mundo “primitivo”; o homem por natureza é mais forte, fisicamente, que a mulher, portanto é natural que eles realizem os trabalhos que demandem força e risco. Isso não é uma divisão preconceituosa de trabalho, mas sim de aptidões -, mas por causa da situação extrema em que se encontram, rodeados de zumbis sedentos por carne e outros grupos muitas vezes hostis (pra dizer o mínimo), todos são forçados – por fatores externos: Durkheim - a desenvolverem e aplicarem da melhor forma habilidades comuns a todos e necessárias à sobrevivência.

  A visão mais comum desse mundo remete à hobbeniana – o homem é o lobo do homem. A ausência de leis para manter a ordem e uma sociedade egoísta, onde as pessoas são altamente individualistas, faz com que conflitos surjam constantemente. Daí a necessidade se formarem organizações sociais e formas de governo que atendam às necessidades distintas de cada grupo. Também vemos microcosmos sociais onde todos são bons e trabalham para o bem de todos - Rosseau; grupos que vivem em paz mas decidem por um líder para a manutenção dessa paz diante da hostilidade encontrada na “natureza”- Locke -, porém, esse grupo acaba nas mãos de um homem carismático, com um exército fortemente armado, governando com mão de ferro e grande foco em auto-publicidade - fascismo. Ele age visando os objetivos que pensa serem os melhores para essa sociedade, passando por cima seja do que ou de quem for - Maquiavel.

  Nessa “terra-de-ninguém”, os indivíduos mais egoístas tem mais dificuldade em se organizar e tentam a todo custo reaver um modo de vida que seja o mais próximo do sistema capitalista, agora inexistente. Os indivíduos mais altruístas conseguem se organizar mais rapidamente e têm mais facilidade em manter a paz interna do grupo.

  The walking Dead é uma crítica à sociedade atual, como mostram muitas análises que podem ser encontradas pela internet, mas também uma aula sobre a humanidade, sob um contexto muito mais abrangente. Isso sem tocar nos aspectos psicológicos, sobre os quais não possuo conhecimento suficiente para discorrer muito a respeito. Quem não parou para analisar a série além de seus aspectos técnicos, talvez agora possa aproveitá-la com um olhar um pouco mais profundo, ao se deter a esses “detalhes”, que se encontram tão fundo na série.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Manifestação Partida

 Devemos ter cuidado com essa atual aversão aos partidos políticos durante as manifestações. Entendo a repulsa que o governo do nosso país nos causa, mas não podemos deixar que isso seja usado contra nós. Vejo a falta de partidos políticos levando a 2 caminhos bem distintos: anarquia -
extrema esquerda - e ditadura - extrema direita. Como em um território tão grande quanto o Brasil um governo anárquico não seria viável, resta-nos o ditatorial. Muitos adeptos da ditadura já cogitam a volta dos militares ao poder. Durante a ditadura o governo tentou acabar com os partidos políticos e ainda assim as pessoas se organizavam às escondidas. Agora vamos nós mesmos abandonar esse direito?

 Ainda há outra questão: já repararam o quanto as emissoras de televisão, como a globo, exaltam as ações não apenas apartidárias mas também antipartidárias por parte dos manifestantes? O que um sistema de direita como esse pode estar querendo com isso? O que sempre quer: mais poder e manutenção do poder que tem. Querem a alienação do povo, querem poder escolher quem sobe ao poder por meio de suas manipulações, não querem correr o risco de que suba ao poder algum partido político que não os favoreça. Há sempre os que querem se aproveitar da visibilidade dada ao movimento para se promoverem apenas, mas aí deveríamos apenas acabar com o sistema democrático? Acho complicado isso enquanto não surge uma opção melhor. Querem além de que não tenhamos partidos políticos, não tenhamos nem lado definido, mas isso porque o lado na manifestação é um só: esquerda. Se você está lá, se apóia o movimento, se exige seus direitos ou se é contra o atual governo, você está sendo de esquerda, por mais que isso não reflita sua ideologia política habitual. E isso eles querem menos ainda que você veja: você está sendo parte de um movimento de esquerda de proporções gigantescas, contra um governo q "se diz" de esquerda - mas obviamente deixou de ser no momento que chegou ao poder - e isso não fez de você nenhum ser monstruoso das trevas. Porque essa iluminação da consciência popular não é boa pra eles.


 No fim, a mídia, no geral de direita, quer a despolitização do povo, mesmo. E o povo tem uma

tendência grande em abraçar essa sugestão, pois é muito mais fácil expulsar todos os militantes e queimar todas as bandeiras partidárias do que pesquisar sobre os partidos, seus integrantes, suas ações. Acho bem legal essa movimentação de uma única voz, o fato de não haver líderes bem definidos também dificulta que o movimento seja contido, mas por mais fervorosa que seja a manifestação, não é negando a política que se torna politizado num Estado democrático.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Drunken Bike

 Era uma manhã quente e nenhuma nuvem à vista. Resolvemos dar uma volta, ir para algum lugar diferente. Eu e Leli fomos com o William no carro dele para uma cidade próxima, munidos de vodka, conhaque, refrigerante, suco, gelo e narguile. Era uma cidade pequena, nos afastamos do centro e acabamos em uma estrada de terra. Paramos em um local com gramado, alguns arbustros, poucas árvores; o outro lado da rua margeado por barrancos de terra vermelha.

 Ficamos embaixo de uma das árvores preparando as bebidas e o narguile. Conversamos, bebemos, fumamos, bebemos, tocamos violão e cantamos, bebemos. Depois de certo tempo nessa rotina, juntou-se a nós uma garota, conhecida do william: andressa - que já parecia meio alta quando chegou lá.

 Com Andressa veio outro cara que não me lembro o nome. Ele estava de bicleta e foi conversar com a Leli. Ele parecia estar dando em cima dela, mas ela como normalmente fazia, disse depois não ter percebido nada. Ela já tinha bebido bastante e, teve a brilhante idéia de andar com a bicleta de seu novo amigo. Ele pareceu meio preocupado, mas deixou. Ela foi em direção aos barrancos do outro lado da rua. Ela queria subir por eles com a bicicleta, a qualquer custo. Os barrancos eram razoavelmente íngrimes, 2 a 3 metros de altura mais ou menos, e a terra vermelha deslizava com muita facilidade.

 Na primeira tentativa o pneu dianteiro afundou em um pouco de terra que estava mais fofa, fazendo o guidom girar para a direita, desequilibrando Leli, que teve sua queda amortecida pelo seu rosto contra o chão. Ela levantou cambaleante, rosto sujo e arranhado e um pouco de sangue no lábio. O cara com ela a ajudou a levantar-se e tentou - sem sucesso - convencê-la a deixar a bicicleta.

 As tentativas continuaram; os tombos também. Nós gritávamos, entre um trago e outro, para que ela parasse. Ela não parava, e seu estado estava cada vez pior. Quando já parecia quase esgotada subiu mais vez na bicicleta, tomou impulso, e correu, subiu quase tudo (quase); quando a roda da frente ultrapassou os 2 metros à sua frente, a bicleta girou para a esquerda e ambas (bicicleta e leli) caíram rolando.

 Leli, deitada de bruços, levantou a cabeça em meio ao pó e sofregamente começou a se arrastar em direção à estrada de chão. Ela estava coberta de vermelho, a  calça com vários rasgos, na camiseta também havia um furo ou outro; seus cotovelos, joelhos e ombros estavam todos ralados e com sangue. Ela conseguiu se levantar (ou o mais próximo disso) e,  com a altivez que talvez tivesse um zumbi depois de pasar por umas boas, ela parou, aguardando um carro que se aproximava. Ela começou a acenar com o braço menos machucado para que o carro parasse para levá-la a algum médico - william e eu não estávamos em condições de dirigir. O carro diminuiu a velocidade, mas não o suficiente, acertou-lhe em cheio, mas não muito forte. Após cair no chão, Leli ajoelhou-se, com uma cara que misturava expressões de indignação, surpresa, riso, raiva e mais alguma coisa que não pude identificar. Ela olhou ao redor, olhou para nós e disse com essa mistura de expressões em meio ao que pareciam ser risos:
 - Ele me atropelou! Vocês viram?! Eu não acrredito! Olha o meu estado! E ele me atropelou!

 O carro, com o parachoque na altura mais ou menos da testa de Leli, acelerou um pouco encostando nela. Mas ela consegiu afastar-se um pouco a tempo de avitar o choque em sua cabeça, acertando-lhe apenas o ombro, de leve. O motorista estava com uma cara de quem espera o sinal de transito abrir, parecia um pouco entediado, um esboço de sorriso no canto do rosto, ou apenas tédio. Ela gritou ao motorista:
 - Tá bom! Tá bom! Já entendi! Já tô saindo.
 E arrastou-se até onde estávamos.
 O motorista olhou para o lado, ela saiu da pista, ele balançou a cabeça - o aparente sorriso no canto da boca pareceu evidenciar-se um pouco - e seguiu viagem.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pelo amor de Deus

 Eu andava perdido, sem objetivos ou aspirações. Os dias passavam  cinzentos por mim. Certa vez, andando pelas ruas sem destino definido, encontrei um templo. Era muito bonito, algumas torres se erguiam dele, até muito alto. Era alvo com detalhes em ouro e prata. Observei-o por bastante tempo, então fui até suas portas frontais. Lá encontrava-se um velho sentado em um banco de madeira. O velho usava roupas largas, uma blusa com um capuz longo sobre sua cabeça. Falei-lhe:
 - Olá. Tudo Bom?
 Ele acenou com a cabeça. Continuei:
 - Nunca tinha reparado nesse templo
 Apenas silêncio.
 - É muito bonito - Disse eu ao velho.
 Ele pareceu se esforçar para esboçar um sorriso.
 - Talvez eu volte outro dia.
 Em resposta o velho acenou com a cabeça mais uma vez e eu saí dali meio sem jeito.

  Nos próximos dias fui ganhando a confiança do homem. Sempre passava por ali e o cumprimentava. Ele sempre respondia com o seu peculiar e sutil movimento de cabeça. Em um desses dias as portas do templo estavam abertas de par em par. Aproximei-me da entrada, o velho homem não me dirigiu o olhar. Passei pelas portas e cheguei a um alto e amplo salão, suntuosamente decorado. Havia arabescos, pinturas do que pareciam espécies de divindades; algumas claras e iluminadas, outras obscuras entre sombras. Havia também algumas estátuas dando continuidade aos detalhes contrastantes do restante da decoração. Do outro lado desse salão, vi uma porta , a única passagem existente além da entrada principal. Fui até essa porta e acima dela notei o que parecia ser uma inscrição em símbolos totalmente desconhecidos para mim.

 Do outro lado, um senhor, muito parecido com o da entrada, disse-me:
 - Este é o início do labirinto para se chegar ao altar de Deus.
 - Labirinto? Mas por que um labirinto? Deus não deveria esta ao alcance de todos?
 - Ele está; ao alcance de todos que estão preparados; ao alcance de todos que fizeram por merecer tal encontro.
 - Como eu saberei se estou preparado?
 - Se você chegar até Deus, você está preparado. Não pŕecisa se preocupar em procurar o caminho de volta, pois o labirinto foi construído de tal forma que todos os caminhos que não forem corretos retornam ao início.

 Começo minha caminhada pelo labirinto. Ele é um pouco estreito, ao ponto de duas pessoas nao poderem andar lado a lado, mas onde uma pode andar confortavelmente. As paredes  são de rocha maciça e clara, com algumas tochas presas às paredes. Após mais ou menos 15 minutos, chego à entrada novamente, com o velho a minha frente. Saio do templo e vou para minha casa.

 Nos dias que se seguem, continuo minha peregrinação pelo labirinto. Alguns dias eu avançava mais, outros menos. Após alguns meses, percebi que o labirinto também estava dividido em alguns níveis. Não sei ao certo quanto eu precisava andar antes de chegar às escadas que desciam ao nível seguinte, mas a impressão, era de que quanto mais eu avançava, menor era o caminho a percorrer e mais complexo os caminhos do labirinto. Ao início de cada novo nível, aguardava uma figura de idade avançada, mas que era difícil dizer ao certo quantos anos tinha. Parecia-me que tais pessoas eram sacerdotes de algum tipo, e que quanto mais experientes eram, mais dentro do templo se encontravam. Esses conversavam comigo a respeito dos mistérios, compartilhavam algumas de suas experiências e, pelos corredores do labirinto, também havia alguns iniciados que também estavam em sua busca pessoal. Cada um seguia seu próprio caminho, pois foi-me revelado que a cada um é destinado seu próprio Deus.

 Cerca de 3 anos se passaram desde a primeira vez que cheguei ao templo. Muitas coisas aconteceram nesse tempo, mas finalmente chguei à entrada do altar de Deus. Apesar de tudo estar muito cuidado e ser de grande beleza, a princípio não era nada além de mais uma sala com suas decorações e um altar de onde se levantava uma estátua. Caminho até a estátua e a toco. Nesse instante a estátua se iluminou, tudo ao meu redor tornou-se brilhante até cergar-me por alguns segundos. Tornei-me pleno de felicidade, paz, amor. Passaram-se alguns segundos durante toda essa experiência, mas eu senti como se tivessem se passado horas. Não houve uma conversa com palavras, foi uma conversa de sensações, sentidos, sentimentos, um entendimento de coisas que transcendem o próprio entender - ao menos foi o que senti. Afastei minha mão da estátua, tudo voltara à austeridade anterior. Eu estava extasiado. Dirigi-me à saída do templo com a certeza de que agora tudo na minha vida seria diferente, seria perfeito.

 No dia seguinte retornei ao templo. segui instintivamente o caminho que levava a Deus. Chegando lá, contemplei sua imagem, prolongando o momento, aproveitando os instantes que antecediam o momento em que eu entraria em comunhão com Ele. Então um leve brilho emanou da estátua, e uma voz ressou direto na minha cabeça, no meu corpo:
 - Volte! Você não deve procurar-me novamente. O que aconteceu ontem, aconteceu, e está feito, e é isso.
 - Por quê!? O que eu fiz? Por que me abandona?
 - Você possui outros deuses, outras crenças e agora deve voltar para seu amor por essas divindades.
 - Mas minha dedicação é a você. Há anos. Renuncio a tudo e qualquer coisa por ti.
 - Não acredito em você. Então agora parte. E você não voltará a me encontrar.
 Fico desconsolado e saio completamente atordoado, sem entender os planos de Deus.

 Passaram-se dois anos desde o meu último encontro com Deus. Continuei a andar por seus labirintos, sem nunca mais poder encontrá-lo, assim como Ele havia me dito. Acabei por me filiar a uma outra ordem, porque era o que havia para mim, minha vida precisava serguir e, alguns dias após minha graduação nessa ordem, andando pelos labirintos do antigo templo, inadvertidamente chego novamente ao altar de Deus. Não entendo bem o porquê, sei apenas que aconteceu e, quando toquei com meu pé o chão de sua câmara, a luz da estátua me tomou, fui em sua direçao e a toquei, e de repente o chão sumiu, bem como as paredes, a câmara toda e o próprio tempo. Dessa vez passaram-se horas, mas para mim foi como se tivesse passado toda uma vida. Novamente não houve palavras, e não haveria palavras suficientes para descrever tal "diálogo". Não foi como o primeiro encontro, foi absurdo, foi tudo o que poderia ser e o que não poderia também. Abro os olhos, estou no chão. A estátua ainda brilha, e sua voz irradia através de sua luz para dentro de mim:
 - Aconteceu o que teve de acontecer, e você agora deve partir.
 - Não quero partir! Quero sua paz sempre comigo!
 - De que maneira? Você tem outro Deus, com o qual você é comungado, para a vida toda.
 - Tu não crês em mim? Ainda não? Eu digo que renuncio a tudo, à toda essa vida perdida e vazia, na qual eu tento inutilmente, há anos, preencher o vazio que tu deixastes. E ainda assim, não é o suficiente? nunca será?
 - Não sei. Não está em meus planos. Faço com que as coisas sejam do modo como acho corretas. Digo o que acho que deve ser dito. E faço o que acho que devo fazer. Talvez não seja realmente o melhor. Mas é o que acho mais coreto. Eu sou um Deus de compaixão, eu sinto a culpa das almas sofridas e acolho suas dores. Você, apesar de sua dor, não precisa de mim. Adeus.

 Uma forte luz me faz fechar os olhos, quando os abro, a minha frente está a passagem do labirinto que dá para o salão de entrada do templo. Saio. Vou para minha casa pensando a respeito de tudo o que aconteceu por todo esse tempo. Não entendo os planos de Deus, mas aguardo sua luz novamente. Aguardo o dia em que sua luz brilhará para sempre em mim e quando minha intenções parecerão verdadeiras aos seus olhos. Continuo andando por seus labirintos, tentando encontrá-lo. Acho injustas suas dúvidas sobre mim, mas nada posso fazer além de continuar andando e procurando. Uma vez, um oráculo do templo me disse que apesar de meu futuro ser incerto, ele me via encontrando Deus e nele permanecendo. Me pergunto: estarei vivo até lá?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

1, 3, 0



 Estava escuro, mas havia
 Alguma
 Luz
 Que vinha de algum lugar
 Eu acho

 Comecei a mudar, inconscientemente
 De repente, meu corpo dobrou de tamanho
 Eu tinha duas cabeças
 E,
 Nova surpresa:
 Três corpos

 E agora três cabeças, braços e pernas
 Vários!
 Balançando
 Meu corpo pesa, tento me mover
 Movo-me
 Em todas as direções
 Nas direções do meu corpo

 Uma lágrima escorre
 Sinto-me perdendo
 Parte
 De meu corpo
 Sou quase um
 Um pouco mais

 Sim! Mais que completo
 Mas
 Continuo a me dividir!
 Quando me dou conta
 Não sou
 Um

 Talvez meio
 Talvez nada
 Talvez

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Recanto das Letras

http://www.recantodasletras.com.br/autores/sandman

Artista da Sede

 Eu gostava muito de Arte, pricipalmente pinturas. Gostava de apreciar sua forma, estrutura, cor, conceito... Eu andava por alguns museus e vernisages passando um bom tempo com essas obras enquanto bebia, comia e... bebia.

 Certa vez me falaram de um quadro novo em nosso meio. Me disseram que era muito interessante, que tinha qualidade. Eu contei que ja tinha passado rapidamente por essa pintura e não tinha gostado muito, a princípio. Mas me propus a voltar a olhá-la com mais atenção.

 Fiquei ali, em sua frente, por alguns minutos. Tentava buscar seu sentido, mas tudo nela parecia tentar causar um pouco de aversão; não chegava a parecer agressiva, mas era quase antipática; com certeza queria repulsar quem parava à sua frente. Saí daquela sala um pouco frustado. Não sei explicar direito, mas não me sentia muito bem.

 No entanto, em minhas idas e vindas de obra em obra, passava por aquela pintura, que apesar de tudo, chamava certa atenção. Em um desses dias, quando o salão estava sendo fechado, dei uma última olhada para o lado de dentro, pelo vidro da porta, e vi a pintura brilhar. Não parecia reflexo da luz, parecia que... ela simplesmente brilhou... em minha direção. No dia seguinte lá estava eu: olhando, procurando não sei bem o quê. De repente, uma listra de tinta no canto inferior esquerdo da pintura intensificou sua cor e voltou ao normal. Nesse instante, pareceu-me que um véu foi retirado da frente do quadro e várias linhas e cores passaram a conversar entre si. Comecei a entender, e a obra começou a conversar comigo. Percebi de onde vinha a impressão de repulsão (proposital), as linhas sobrespostas em meio às sombras, em um limite entre tristeza, desepero e raiva. E eu dizia "Te entendo completamente!",  e a obra me dizia "Nossa! Você me entende completamente". E eu vi, depois de certo tempo, que não era apenas tristeza; também havia movimento e cores mais alegres disfarçadas entre pseudo-olhos esfumaçados. Ora as cores pareciam avermelhadas, ora douradas, ora alaranjadas e até chegavam a tons terrosos. Os dias foram passando e a cada conversa eu aprendia mais. Percebi até a delicadeza na fina camada de gesso branco espalhado em determinadas regiões. Por último, percebi um pedaço estreito de renda cobrindo a lateral direita da tela. Era difícil perceber em meio àquela composição toda, mas depois de tanto tempo eu via sensualidade ali e, reparando bem, via-se que acabava por recobrir o quadro todo.

 No dia seguinte à apreensão do quadro, senti que a pintura me chamava, baixinho. Retirei a tela, a enrolei e levei comigo. Saí pela noite com ela embaixo do braço. Encontrei um pessoal conhecido com quem fiquei bebendo vinho por algumas horas. A pintura estava ali ao lado, aberta. Conversávamos, conversávamos com ela também. Quando acabou nosso dinheiro, cochilei encostado à uma parede, com a tela entre a parede e eu. Após umas 2 horas começou a amanhecer, levantei e estendi minha mão em direçao à obra. Ela pareceu se afastar e disse "Não... isso tudo foi um engano", eu disse "Como engano? Eu não te entendo completamente? Nós não conversamos e desvendamos caminhos toruosos da Arte?" e a pintura disse "Não. Você na realidade só acha que entende. E o que você achou que eu disse, na verdade você também entendeu errado. Eu vou com ele", e apontou. Eu vi um cara que era uma mistura de hippie, morador de rua, louco e um quê de filósofo (o "quê" de filósofo devia ser o cabelo ou algo assim), que passou a noite bebendo e conversando conosco. Não parecia ser má pessoa, não mesmo, mas estava bem longe de ser um genial expoente da Arte.
 Fiquei razoavelmente chocado com a inesperada situação. Virei-me e fui para casa. Passei o mês todo tentando entender o que aconteceu, qual era o problema, mas não via resposta. Por fim, já esgotado de tanto andar em círculos, mudei o veio artístico: passei um tempo com a música. Foram alguns dias divertidos, novos, empolgantes. Tudo bem que a música era um meio bem mais democrático e concorrido, e a sua apreciação era de certa forma menos íntima e exclusiva,  mas era "o que tinha pra hoje".

 Então, encontro novamente a tela de antes. Encostada em uma árvore, ao lado da "mistura de hippie, morador de rua, louco e um quê de filósofo". Ela me diz "Eu sabia que você não sabia nada desta Arte. Ainda bem que eu não caí na sua. Agora eu estaria jogada em algum canto escuro e úmido enquanto você ficaria por aí às voltas com a música".

 Pasmo novamente. Vou embora. Quem vai entender a Arte? Quem sabe um dia a Arte me entenda.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Enterrado e Bem Morto (Vivo)

Eu a conheci há algum tempo. Não parecia - não parecia mesmo! -, mas algumas vezes ela sofria. Parecia sincera, honesta, tranquila; uma boa pessoa, pra quem poucas coisas faltavam - se é que faltavam. Na verdade ela não sabia quem era - ou o que era. Ela quase não existia; não por inteiro. Parecia a união de vários pedaços dela mesma que foram sendo encontrados caídos pelos cantos com o passar dos anos.

 Ela era quem estava sempre certa; nao errava. Nunca! Tinha todas as respostas, para todas as coisas; ou pelo menos as justificativas.  Sempre pronta a rebater, uma vez após outra, incansavelmente. Cega! Louca! Ela achava que conhecia o amor de verdade, mas só conhecia o amor-próprio. Não! Nem isso! O que ela acreditava ser amor, não passava de egoísmo. Orgulho inabalável, ego gigantesco e puro egoísmo.

 Eu a encontrei pelo caminho de volta para casa em uma manhã, voltando de um bar. Conversamos um pouco e assim passei a conhecê-la; cada vez mais. Cada vez que eu a encontrava naquele mesmo caminho, eu a conhecia mais. Até que em certo ponto percebi que nossa proximidade estava tornando-se (no mínimo) desconfortável. Tudo aquilo que ela era, e que fui percebendo aos pouco, criava uma pesada, sufocante e agoniante atmosfera sobre mim. Tentei não encontrá-la mais; mas aquele caminho pelo qual eu seguia era inevitável. Assim, encontrá-la, vez ou outra, também era inevitável. Até chegar ao ponto em que decidi matá-la. Mas foi mais fácil decidir do que fazer. Na última vez que a vi, naquele mesmo caminho de terra, com aquelas mesmas árvores silenciosas em volta, andamos um pouco até chegar a um banco de madeira próximo de nós. Sentamos e não falamos nada. Eu nem podia: Minha garganta já sufocava com aquela atmosfera que ela gerava em torno de mim. Desci meu braço para apanhar a pá que havia deixado escondida ali fazia um pouco mais de um mês, esperando a próxima vez que ela aparecesse pelo caminho. Então, girei a pá ao mesmo tempo em que me levantava e acertei-lhe à altura da têmpora. Ela caiu no chão. Inerte. Mas não consegui terminar o que comecei; não totalmente. Talvez - mas só talvez - eu sentisse alguma simpatia de alguma espécie por ela. Cavei um buraco naquele chão. Não a matei. Atirei-a ali e a cobri com terra, ao lado da estradinha mesmo. Quando me afastei, cansado, desanimado e um pouco aliviado, pensei ter ouvido alguma coisa, distante: talvez um grito, um resmungo ou apenas minha imaginação.

 Não era apenas imaginação. Algumas vezes voltando por ali, eu ouvia e sentia batidas surdas vindas do chão. Outras vezes era sua voz chingando, reclamando ou suplicando. Acontecia, com menos frequência, mas acontecia, de ela conseguir tirar sua mão para fora da terra e me puxar pelo tornozelo. Mas o pior era quando enquanto eu tentava fugir de suas mãos, ela acabava por conseguir tirar sua cabeça para fora da terra, de tão forte que se segurava em mim. Aí não havia outro jeito: eu tinha que parar de tentar fugir e ficava ali chutando e pisando em sua cabeça até conseguir que ela voltasse de volta para o buraco.

 É... alguns dias não são fáceis. Mas outros, quando só ouço sua voz, bem longe, acho que quase me acostumei.