Era uma manhã quente e nenhuma nuvem à vista. Resolvemos dar uma
volta, ir para algum lugar diferente. Eu e Leli fomos com o William no
carro dele para uma cidade próxima, munidos de vodka, conhaque,
refrigerante, suco, gelo e narguile. Era uma cidade pequena, nos
afastamos do centro e acabamos em uma estrada de terra. Paramos em um
local com gramado, alguns arbustros, poucas árvores; o outro lado da
rua margeado por barrancos de terra vermelha.
Ficamos embaixo
de uma das árvores preparando as bebidas e o narguile. Conversamos,
bebemos, fumamos, bebemos, tocamos violão e cantamos, bebemos. Depois
de certo tempo nessa rotina, juntou-se a nós uma garota, conhecida do
william: andressa - que já parecia meio alta quando chegou lá.
Com
Andressa veio outro cara que não me lembro o nome. Ele estava de
bicleta e foi conversar com a Leli. Ele parecia estar dando em cima
dela, mas ela como normalmente fazia, disse depois não ter percebido
nada. Ela já tinha bebido bastante e, teve a brilhante idéia de andar
com a bicleta de seu novo amigo. Ele pareceu meio preocupado, mas
deixou. Ela foi em direção aos barrancos do outro lado da rua. Ela
queria subir por eles com a bicicleta, a qualquer custo. Os barrancos
eram razoavelmente íngrimes, 2 a 3 metros de altura mais ou menos, e a
terra vermelha deslizava com muita facilidade.
Na primeira
tentativa o pneu dianteiro afundou em um pouco de terra que estava mais
fofa, fazendo o guidom girar para a direita, desequilibrando Leli, que
teve sua queda amortecida pelo seu rosto contra o chão. Ela levantou
cambaleante, rosto sujo e arranhado e um pouco de sangue no lábio. O
cara com ela a ajudou a levantar-se e tentou - sem sucesso -
convencê-la a deixar a bicicleta.
As tentativas continuaram; os
tombos também. Nós gritávamos, entre um trago e outro, para que ela
parasse. Ela não parava, e seu estado estava cada vez pior. Quando já
parecia quase esgotada subiu mais vez na bicicleta, tomou impulso, e
correu, subiu quase tudo (quase); quando a roda da frente ultrapassou
os 2 metros à sua frente, a bicleta girou para a esquerda e ambas
(bicicleta e leli) caíram rolando.
Leli, deitada de bruços,
levantou a cabeça em meio ao pó e sofregamente começou a se arrastar em
direção à estrada de chão. Ela estava coberta de vermelho, a calça com
vários rasgos, na camiseta também havia um furo ou outro; seus
cotovelos, joelhos e ombros estavam todos ralados e com sangue. Ela
conseguiu se levantar (ou o mais próximo disso) e, com a altivez que
talvez tivesse um zumbi depois de pasar por umas boas, ela parou,
aguardando um carro que se aproximava. Ela começou a acenar com o braço
menos machucado para que o carro parasse para levá-la a algum médico -
william e eu não estávamos em condições de dirigir. O carro diminuiu a
velocidade, mas não o suficiente, acertou-lhe em cheio, mas não muito
forte. Após cair no chão, Leli ajoelhou-se, com uma cara que misturava
expressões de indignação, surpresa, riso, raiva e mais alguma coisa que
não pude identificar. Ela olhou ao redor, olhou para nós e disse com
essa mistura de expressões em meio ao que pareciam ser risos:
- Ele me atropelou! Vocês viram?! Eu não acrredito! Olha o meu estado! E ele me atropelou!
O
carro, com o parachoque na altura mais ou menos da testa de Leli,
acelerou um pouco encostando nela. Mas ela consegiu afastar-se um pouco
a tempo de avitar o choque em sua cabeça, acertando-lhe apenas o ombro,
de leve. O motorista estava com uma cara de quem espera o sinal de
transito abrir, parecia um pouco entediado, um esboço de sorriso no
canto do rosto, ou apenas tédio. Ela gritou ao motorista:
- Tá bom! Tá bom! Já entendi! Já tô saindo.
E arrastou-se até onde estávamos.
O
motorista olhou para o lado, ela saiu da pista, ele balançou a cabeça -
o aparente sorriso no canto da boca pareceu evidenciar-se um pouco -
e seguiu viagem.
Contos, crônicas, poesias, literatura em geral. Textos próprios baseados nas experiências daquele intervalo que existe entre a realidade e a ficção, naquele sonho no qual você ainda está acordado.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Pelo amor de Deus
Eu andava perdido, sem objetivos ou aspirações. Os dias passavam
cinzentos por mim. Certa vez, andando pelas ruas sem destino definido,
encontrei um templo. Era muito bonito, algumas torres se erguiam dele,
até muito alto. Era alvo com detalhes em ouro e prata. Observei-o por
bastante tempo, então fui até suas portas frontais. Lá encontrava-se um
velho sentado em um banco de madeira. O velho usava roupas largas, uma
blusa com um capuz longo sobre sua cabeça. Falei-lhe:
- Olá. Tudo Bom?
Ele acenou com a cabeça. Continuei:
- Nunca tinha reparado nesse templo
Apenas silêncio.
- É muito bonito - Disse eu ao velho.
Ele pareceu se esforçar para esboçar um sorriso.
- Talvez eu volte outro dia.
Em resposta o velho acenou com a cabeça mais uma vez e eu saí dali meio sem jeito.
Nos próximos dias fui ganhando a confiança do homem. Sempre passava por ali e o cumprimentava. Ele sempre respondia com o seu peculiar e sutil movimento de cabeça. Em um desses dias as portas do templo estavam abertas de par em par. Aproximei-me da entrada, o velho homem não me dirigiu o olhar. Passei pelas portas e cheguei a um alto e amplo salão, suntuosamente decorado. Havia arabescos, pinturas do que pareciam espécies de divindades; algumas claras e iluminadas, outras obscuras entre sombras. Havia também algumas estátuas dando continuidade aos detalhes contrastantes do restante da decoração. Do outro lado desse salão, vi uma porta , a única passagem existente além da entrada principal. Fui até essa porta e acima dela notei o que parecia ser uma inscrição em símbolos totalmente desconhecidos para mim.
Do outro lado, um senhor, muito parecido com o da entrada, disse-me:
- Este é o início do labirinto para se chegar ao altar de Deus.
- Labirinto? Mas por que um labirinto? Deus não deveria esta ao alcance de todos?
- Ele está; ao alcance de todos que estão preparados; ao alcance de todos que fizeram por merecer tal encontro.
- Como eu saberei se estou preparado?
- Se você chegar até Deus, você está preparado. Não pŕecisa se preocupar em procurar o caminho de volta, pois o labirinto foi construído de tal forma que todos os caminhos que não forem corretos retornam ao início.
Começo minha caminhada pelo labirinto. Ele é um pouco estreito, ao ponto de duas pessoas nao poderem andar lado a lado, mas onde uma pode andar confortavelmente. As paredes são de rocha maciça e clara, com algumas tochas presas às paredes. Após mais ou menos 15 minutos, chego à entrada novamente, com o velho a minha frente. Saio do templo e vou para minha casa.
Nos dias que se seguem, continuo minha peregrinação pelo labirinto. Alguns dias eu avançava mais, outros menos. Após alguns meses, percebi que o labirinto também estava dividido em alguns níveis. Não sei ao certo quanto eu precisava andar antes de chegar às escadas que desciam ao nível seguinte, mas a impressão, era de que quanto mais eu avançava, menor era o caminho a percorrer e mais complexo os caminhos do labirinto. Ao início de cada novo nível, aguardava uma figura de idade avançada, mas que era difícil dizer ao certo quantos anos tinha. Parecia-me que tais pessoas eram sacerdotes de algum tipo, e que quanto mais experientes eram, mais dentro do templo se encontravam. Esses conversavam comigo a respeito dos mistérios, compartilhavam algumas de suas experiências e, pelos corredores do labirinto, também havia alguns iniciados que também estavam em sua busca pessoal. Cada um seguia seu próprio caminho, pois foi-me revelado que a cada um é destinado seu próprio Deus.
Cerca de 3 anos se passaram desde a primeira vez que cheguei ao templo. Muitas coisas aconteceram nesse tempo, mas finalmente chguei à entrada do altar de Deus. Apesar de tudo estar muito cuidado e ser de grande beleza, a princípio não era nada além de mais uma sala com suas decorações e um altar de onde se levantava uma estátua. Caminho até a estátua e a toco. Nesse instante a estátua se iluminou, tudo ao meu redor tornou-se brilhante até cergar-me por alguns segundos. Tornei-me pleno de felicidade, paz, amor. Passaram-se alguns segundos durante toda essa experiência, mas eu senti como se tivessem se passado horas. Não houve uma conversa com palavras, foi uma conversa de sensações, sentidos, sentimentos, um entendimento de coisas que transcendem o próprio entender - ao menos foi o que senti. Afastei minha mão da estátua, tudo voltara à austeridade anterior. Eu estava extasiado. Dirigi-me à saída do templo com a certeza de que agora tudo na minha vida seria diferente, seria perfeito.
No dia seguinte retornei ao templo. segui instintivamente o caminho que levava a Deus. Chegando lá, contemplei sua imagem, prolongando o momento, aproveitando os instantes que antecediam o momento em que eu entraria em comunhão com Ele. Então um leve brilho emanou da estátua, e uma voz ressou direto na minha cabeça, no meu corpo:
- Volte! Você não deve procurar-me novamente. O que aconteceu ontem, aconteceu, e está feito, e é isso.
- Por quê!? O que eu fiz? Por que me abandona?
- Você possui outros deuses, outras crenças e agora deve voltar para seu amor por essas divindades.
- Mas minha dedicação é a você. Há anos. Renuncio a tudo e qualquer coisa por ti.
- Não acredito em você. Então agora parte. E você não voltará a me encontrar.
Fico desconsolado e saio completamente atordoado, sem entender os planos de Deus.
Passaram-se dois anos desde o meu último encontro com Deus. Continuei a andar por seus labirintos, sem nunca mais poder encontrá-lo, assim como Ele havia me dito. Acabei por me filiar a uma outra ordem, porque era o que havia para mim, minha vida precisava serguir e, alguns dias após minha graduação nessa ordem, andando pelos labirintos do antigo templo, inadvertidamente chego novamente ao altar de Deus. Não entendo bem o porquê, sei apenas que aconteceu e, quando toquei com meu pé o chão de sua câmara, a luz da estátua me tomou, fui em sua direçao e a toquei, e de repente o chão sumiu, bem como as paredes, a câmara toda e o próprio tempo. Dessa vez passaram-se horas, mas para mim foi como se tivesse passado toda uma vida. Novamente não houve palavras, e não haveria palavras suficientes para descrever tal "diálogo". Não foi como o primeiro encontro, foi absurdo, foi tudo o que poderia ser e o que não poderia também. Abro os olhos, estou no chão. A estátua ainda brilha, e sua voz irradia através de sua luz para dentro de mim:
- Aconteceu o que teve de acontecer, e você agora deve partir.
- Não quero partir! Quero sua paz sempre comigo!
- De que maneira? Você tem outro Deus, com o qual você é comungado, para a vida toda.
- Tu não crês em mim? Ainda não? Eu digo que renuncio a tudo, à toda essa vida perdida e vazia, na qual eu tento inutilmente, há anos, preencher o vazio que tu deixastes. E ainda assim, não é o suficiente? nunca será?
- Não sei. Não está em meus planos. Faço com que as coisas sejam do modo como acho corretas. Digo o que acho que deve ser dito. E faço o que acho que devo fazer. Talvez não seja realmente o melhor. Mas é o que acho mais coreto. Eu sou um Deus de compaixão, eu sinto a culpa das almas sofridas e acolho suas dores. Você, apesar de sua dor, não precisa de mim. Adeus.
Uma forte luz me faz fechar os olhos, quando os abro, a minha frente está a passagem do labirinto que dá para o salão de entrada do templo. Saio. Vou para minha casa pensando a respeito de tudo o que aconteceu por todo esse tempo. Não entendo os planos de Deus, mas aguardo sua luz novamente. Aguardo o dia em que sua luz brilhará para sempre em mim e quando minha intenções parecerão verdadeiras aos seus olhos. Continuo andando por seus labirintos, tentando encontrá-lo. Acho injustas suas dúvidas sobre mim, mas nada posso fazer além de continuar andando e procurando. Uma vez, um oráculo do templo me disse que apesar de meu futuro ser incerto, ele me via encontrando Deus e nele permanecendo. Me pergunto: estarei vivo até lá?
- Olá. Tudo Bom?
Ele acenou com a cabeça. Continuei:
- Nunca tinha reparado nesse templo
Apenas silêncio.
- É muito bonito - Disse eu ao velho.
Ele pareceu se esforçar para esboçar um sorriso.
- Talvez eu volte outro dia.
Em resposta o velho acenou com a cabeça mais uma vez e eu saí dali meio sem jeito.
Nos próximos dias fui ganhando a confiança do homem. Sempre passava por ali e o cumprimentava. Ele sempre respondia com o seu peculiar e sutil movimento de cabeça. Em um desses dias as portas do templo estavam abertas de par em par. Aproximei-me da entrada, o velho homem não me dirigiu o olhar. Passei pelas portas e cheguei a um alto e amplo salão, suntuosamente decorado. Havia arabescos, pinturas do que pareciam espécies de divindades; algumas claras e iluminadas, outras obscuras entre sombras. Havia também algumas estátuas dando continuidade aos detalhes contrastantes do restante da decoração. Do outro lado desse salão, vi uma porta , a única passagem existente além da entrada principal. Fui até essa porta e acima dela notei o que parecia ser uma inscrição em símbolos totalmente desconhecidos para mim.
Do outro lado, um senhor, muito parecido com o da entrada, disse-me:
- Este é o início do labirinto para se chegar ao altar de Deus.
- Labirinto? Mas por que um labirinto? Deus não deveria esta ao alcance de todos?
- Ele está; ao alcance de todos que estão preparados; ao alcance de todos que fizeram por merecer tal encontro.
- Como eu saberei se estou preparado?
- Se você chegar até Deus, você está preparado. Não pŕecisa se preocupar em procurar o caminho de volta, pois o labirinto foi construído de tal forma que todos os caminhos que não forem corretos retornam ao início.
Começo minha caminhada pelo labirinto. Ele é um pouco estreito, ao ponto de duas pessoas nao poderem andar lado a lado, mas onde uma pode andar confortavelmente. As paredes são de rocha maciça e clara, com algumas tochas presas às paredes. Após mais ou menos 15 minutos, chego à entrada novamente, com o velho a minha frente. Saio do templo e vou para minha casa.
Nos dias que se seguem, continuo minha peregrinação pelo labirinto. Alguns dias eu avançava mais, outros menos. Após alguns meses, percebi que o labirinto também estava dividido em alguns níveis. Não sei ao certo quanto eu precisava andar antes de chegar às escadas que desciam ao nível seguinte, mas a impressão, era de que quanto mais eu avançava, menor era o caminho a percorrer e mais complexo os caminhos do labirinto. Ao início de cada novo nível, aguardava uma figura de idade avançada, mas que era difícil dizer ao certo quantos anos tinha. Parecia-me que tais pessoas eram sacerdotes de algum tipo, e que quanto mais experientes eram, mais dentro do templo se encontravam. Esses conversavam comigo a respeito dos mistérios, compartilhavam algumas de suas experiências e, pelos corredores do labirinto, também havia alguns iniciados que também estavam em sua busca pessoal. Cada um seguia seu próprio caminho, pois foi-me revelado que a cada um é destinado seu próprio Deus.
Cerca de 3 anos se passaram desde a primeira vez que cheguei ao templo. Muitas coisas aconteceram nesse tempo, mas finalmente chguei à entrada do altar de Deus. Apesar de tudo estar muito cuidado e ser de grande beleza, a princípio não era nada além de mais uma sala com suas decorações e um altar de onde se levantava uma estátua. Caminho até a estátua e a toco. Nesse instante a estátua se iluminou, tudo ao meu redor tornou-se brilhante até cergar-me por alguns segundos. Tornei-me pleno de felicidade, paz, amor. Passaram-se alguns segundos durante toda essa experiência, mas eu senti como se tivessem se passado horas. Não houve uma conversa com palavras, foi uma conversa de sensações, sentidos, sentimentos, um entendimento de coisas que transcendem o próprio entender - ao menos foi o que senti. Afastei minha mão da estátua, tudo voltara à austeridade anterior. Eu estava extasiado. Dirigi-me à saída do templo com a certeza de que agora tudo na minha vida seria diferente, seria perfeito.
No dia seguinte retornei ao templo. segui instintivamente o caminho que levava a Deus. Chegando lá, contemplei sua imagem, prolongando o momento, aproveitando os instantes que antecediam o momento em que eu entraria em comunhão com Ele. Então um leve brilho emanou da estátua, e uma voz ressou direto na minha cabeça, no meu corpo:
- Volte! Você não deve procurar-me novamente. O que aconteceu ontem, aconteceu, e está feito, e é isso.
- Por quê!? O que eu fiz? Por que me abandona?
- Você possui outros deuses, outras crenças e agora deve voltar para seu amor por essas divindades.
- Mas minha dedicação é a você. Há anos. Renuncio a tudo e qualquer coisa por ti.
- Não acredito em você. Então agora parte. E você não voltará a me encontrar.
Fico desconsolado e saio completamente atordoado, sem entender os planos de Deus.
Passaram-se dois anos desde o meu último encontro com Deus. Continuei a andar por seus labirintos, sem nunca mais poder encontrá-lo, assim como Ele havia me dito. Acabei por me filiar a uma outra ordem, porque era o que havia para mim, minha vida precisava serguir e, alguns dias após minha graduação nessa ordem, andando pelos labirintos do antigo templo, inadvertidamente chego novamente ao altar de Deus. Não entendo bem o porquê, sei apenas que aconteceu e, quando toquei com meu pé o chão de sua câmara, a luz da estátua me tomou, fui em sua direçao e a toquei, e de repente o chão sumiu, bem como as paredes, a câmara toda e o próprio tempo. Dessa vez passaram-se horas, mas para mim foi como se tivesse passado toda uma vida. Novamente não houve palavras, e não haveria palavras suficientes para descrever tal "diálogo". Não foi como o primeiro encontro, foi absurdo, foi tudo o que poderia ser e o que não poderia também. Abro os olhos, estou no chão. A estátua ainda brilha, e sua voz irradia através de sua luz para dentro de mim:
- Aconteceu o que teve de acontecer, e você agora deve partir.
- Não quero partir! Quero sua paz sempre comigo!
- De que maneira? Você tem outro Deus, com o qual você é comungado, para a vida toda.
- Tu não crês em mim? Ainda não? Eu digo que renuncio a tudo, à toda essa vida perdida e vazia, na qual eu tento inutilmente, há anos, preencher o vazio que tu deixastes. E ainda assim, não é o suficiente? nunca será?
- Não sei. Não está em meus planos. Faço com que as coisas sejam do modo como acho corretas. Digo o que acho que deve ser dito. E faço o que acho que devo fazer. Talvez não seja realmente o melhor. Mas é o que acho mais coreto. Eu sou um Deus de compaixão, eu sinto a culpa das almas sofridas e acolho suas dores. Você, apesar de sua dor, não precisa de mim. Adeus.
Uma forte luz me faz fechar os olhos, quando os abro, a minha frente está a passagem do labirinto que dá para o salão de entrada do templo. Saio. Vou para minha casa pensando a respeito de tudo o que aconteceu por todo esse tempo. Não entendo os planos de Deus, mas aguardo sua luz novamente. Aguardo o dia em que sua luz brilhará para sempre em mim e quando minha intenções parecerão verdadeiras aos seus olhos. Continuo andando por seus labirintos, tentando encontrá-lo. Acho injustas suas dúvidas sobre mim, mas nada posso fazer além de continuar andando e procurando. Uma vez, um oráculo do templo me disse que apesar de meu futuro ser incerto, ele me via encontrando Deus e nele permanecendo. Me pergunto: estarei vivo até lá?
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contos: amor?,
contos: um pouquinho de drama
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
1, 3, 0
Estava escuro, mas havia
Alguma
Luz
Que vinha de algum
lugar
Eu acho
Comecei a mudar,
inconscientemente
De repente, meu corpo
dobrou de tamanho
Eu tinha duas cabeças
E,
Nova surpresa:
Três corpos
E agora três cabeças,
braços e pernas
Vários!
Balançando
Meu corpo pesa, tento me mover
Movo-me
Em todas as direções
Nas direções do meu
corpo
Uma lágrima escorre
Sinto-me perdendo
Parte
De meu corpo
Sou quase um
Um pouco mais
Sim! Mais que
completo
Mas
Continuo a me dividir!
Quando me dou conta
Não sou
Um
Talvez meio
Talvez nada
Talvez
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Recanto das Letras
Marcadores:
analisando,
contos billy,
contos: amor?,
contos: um pouquinho de drama,
crônicas,
pensando,
poesias
Artista da Sede
Eu gostava muito de Arte, pricipalmente pinturas. Gostava de apreciar
sua forma, estrutura, cor, conceito... Eu andava por alguns museus e
vernisages passando um bom tempo com essas obras enquanto bebia, comia
e... bebia.
Certa vez me falaram de um quadro novo em nosso meio. Me disseram que era muito interessante, que tinha qualidade. Eu contei que ja tinha passado rapidamente por essa pintura e não tinha gostado muito, a princípio. Mas me propus a voltar a olhá-la com mais atenção.
Fiquei ali, em sua frente, por alguns minutos. Tentava buscar seu sentido, mas tudo nela parecia tentar causar um pouco de aversão; não chegava a parecer agressiva, mas era quase antipática; com certeza queria repulsar quem parava à sua frente. Saí daquela sala um pouco frustado. Não sei explicar direito, mas não me sentia muito bem.
No entanto, em minhas idas e vindas de obra em obra, passava por aquela pintura, que apesar de tudo, chamava certa atenção. Em um desses dias, quando o salão estava sendo fechado, dei uma última olhada para o lado de dentro, pelo vidro da porta, e vi a pintura brilhar. Não parecia reflexo da luz, parecia que... ela simplesmente brilhou... em minha direção. No dia seguinte lá estava eu: olhando, procurando não sei bem o quê. De repente, uma listra de tinta no canto inferior esquerdo da pintura intensificou sua cor e voltou ao normal. Nesse instante, pareceu-me que um véu foi retirado da frente do quadro e várias linhas e cores passaram a conversar entre si. Comecei a entender, e a obra começou a conversar comigo. Percebi de onde vinha a impressão de repulsão (proposital), as linhas sobrespostas em meio às sombras, em um limite entre tristeza, desepero e raiva. E eu dizia "Te entendo completamente!", e a obra me dizia "Nossa! Você me entende completamente". E eu vi, depois de certo tempo, que não era apenas tristeza; também havia movimento e cores mais alegres disfarçadas entre pseudo-olhos esfumaçados. Ora as cores pareciam avermelhadas, ora douradas, ora alaranjadas e até chegavam a tons terrosos. Os dias foram passando e a cada conversa eu aprendia mais. Percebi até a delicadeza na fina camada de gesso branco espalhado em determinadas regiões. Por último, percebi um pedaço estreito de renda cobrindo a lateral direita da tela. Era difícil perceber em meio àquela composição toda, mas depois de tanto tempo eu via sensualidade ali e, reparando bem, via-se que acabava por recobrir o quadro todo.
No dia seguinte à apreensão do quadro, senti que a pintura me chamava, baixinho. Retirei a tela, a enrolei e levei comigo. Saí pela noite com ela embaixo do braço. Encontrei um pessoal conhecido com quem fiquei bebendo vinho por algumas horas. A pintura estava ali ao lado, aberta. Conversávamos, conversávamos com ela também. Quando acabou nosso dinheiro, cochilei encostado à uma parede, com a tela entre a parede e eu. Após umas 2 horas começou a amanhecer, levantei e estendi minha mão em direçao à obra. Ela pareceu se afastar e disse "Não... isso tudo foi um engano", eu disse "Como engano? Eu não te entendo completamente? Nós não conversamos e desvendamos caminhos toruosos da Arte?" e a pintura disse "Não. Você na realidade só acha que entende. E o que você achou que eu disse, na verdade você também entendeu errado. Eu vou com ele", e apontou. Eu vi um cara que era uma mistura de hippie, morador de rua, louco e um quê de filósofo (o "quê" de filósofo devia ser o cabelo ou algo assim), que passou a noite bebendo e conversando conosco. Não parecia ser má pessoa, não mesmo, mas estava bem longe de ser um genial expoente da Arte.
Fiquei razoavelmente chocado com a inesperada situação. Virei-me e fui para casa. Passei o mês todo tentando entender o que aconteceu, qual era o problema, mas não via resposta. Por fim, já esgotado de tanto andar em círculos, mudei o veio artístico: passei um tempo com a música. Foram alguns dias divertidos, novos, empolgantes. Tudo bem que a música era um meio bem mais democrático e concorrido, e a sua apreciação era de certa forma menos íntima e exclusiva, mas era "o que tinha pra hoje".
Então, encontro novamente a tela de antes. Encostada em uma árvore, ao lado da "mistura de hippie, morador de rua, louco e um quê de filósofo". Ela me diz "Eu sabia que você não sabia nada desta Arte. Ainda bem que eu não caí na sua. Agora eu estaria jogada em algum canto escuro e úmido enquanto você ficaria por aí às voltas com a música".
Pasmo novamente. Vou embora. Quem vai entender a Arte? Quem sabe um dia a Arte me entenda.
Certa vez me falaram de um quadro novo em nosso meio. Me disseram que era muito interessante, que tinha qualidade. Eu contei que ja tinha passado rapidamente por essa pintura e não tinha gostado muito, a princípio. Mas me propus a voltar a olhá-la com mais atenção.
Fiquei ali, em sua frente, por alguns minutos. Tentava buscar seu sentido, mas tudo nela parecia tentar causar um pouco de aversão; não chegava a parecer agressiva, mas era quase antipática; com certeza queria repulsar quem parava à sua frente. Saí daquela sala um pouco frustado. Não sei explicar direito, mas não me sentia muito bem.
No entanto, em minhas idas e vindas de obra em obra, passava por aquela pintura, que apesar de tudo, chamava certa atenção. Em um desses dias, quando o salão estava sendo fechado, dei uma última olhada para o lado de dentro, pelo vidro da porta, e vi a pintura brilhar. Não parecia reflexo da luz, parecia que... ela simplesmente brilhou... em minha direção. No dia seguinte lá estava eu: olhando, procurando não sei bem o quê. De repente, uma listra de tinta no canto inferior esquerdo da pintura intensificou sua cor e voltou ao normal. Nesse instante, pareceu-me que um véu foi retirado da frente do quadro e várias linhas e cores passaram a conversar entre si. Comecei a entender, e a obra começou a conversar comigo. Percebi de onde vinha a impressão de repulsão (proposital), as linhas sobrespostas em meio às sombras, em um limite entre tristeza, desepero e raiva. E eu dizia "Te entendo completamente!", e a obra me dizia "Nossa! Você me entende completamente". E eu vi, depois de certo tempo, que não era apenas tristeza; também havia movimento e cores mais alegres disfarçadas entre pseudo-olhos esfumaçados. Ora as cores pareciam avermelhadas, ora douradas, ora alaranjadas e até chegavam a tons terrosos. Os dias foram passando e a cada conversa eu aprendia mais. Percebi até a delicadeza na fina camada de gesso branco espalhado em determinadas regiões. Por último, percebi um pedaço estreito de renda cobrindo a lateral direita da tela. Era difícil perceber em meio àquela composição toda, mas depois de tanto tempo eu via sensualidade ali e, reparando bem, via-se que acabava por recobrir o quadro todo.
No dia seguinte à apreensão do quadro, senti que a pintura me chamava, baixinho. Retirei a tela, a enrolei e levei comigo. Saí pela noite com ela embaixo do braço. Encontrei um pessoal conhecido com quem fiquei bebendo vinho por algumas horas. A pintura estava ali ao lado, aberta. Conversávamos, conversávamos com ela também. Quando acabou nosso dinheiro, cochilei encostado à uma parede, com a tela entre a parede e eu. Após umas 2 horas começou a amanhecer, levantei e estendi minha mão em direçao à obra. Ela pareceu se afastar e disse "Não... isso tudo foi um engano", eu disse "Como engano? Eu não te entendo completamente? Nós não conversamos e desvendamos caminhos toruosos da Arte?" e a pintura disse "Não. Você na realidade só acha que entende. E o que você achou que eu disse, na verdade você também entendeu errado. Eu vou com ele", e apontou. Eu vi um cara que era uma mistura de hippie, morador de rua, louco e um quê de filósofo (o "quê" de filósofo devia ser o cabelo ou algo assim), que passou a noite bebendo e conversando conosco. Não parecia ser má pessoa, não mesmo, mas estava bem longe de ser um genial expoente da Arte.
Fiquei razoavelmente chocado com a inesperada situação. Virei-me e fui para casa. Passei o mês todo tentando entender o que aconteceu, qual era o problema, mas não via resposta. Por fim, já esgotado de tanto andar em círculos, mudei o veio artístico: passei um tempo com a música. Foram alguns dias divertidos, novos, empolgantes. Tudo bem que a música era um meio bem mais democrático e concorrido, e a sua apreciação era de certa forma menos íntima e exclusiva, mas era "o que tinha pra hoje".
Então, encontro novamente a tela de antes. Encostada em uma árvore, ao lado da "mistura de hippie, morador de rua, louco e um quê de filósofo". Ela me diz "Eu sabia que você não sabia nada desta Arte. Ainda bem que eu não caí na sua. Agora eu estaria jogada em algum canto escuro e úmido enquanto você ficaria por aí às voltas com a música".
Pasmo novamente. Vou embora. Quem vai entender a Arte? Quem sabe um dia a Arte me entenda.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Enterrado e Bem Morto (Vivo)
Eu a conheci há algum tempo. Não parecia - não parecia mesmo! -,
mas algumas vezes ela sofria. Parecia sincera, honesta, tranquila; uma
boa pessoa, pra quem poucas coisas faltavam - se é que faltavam. Na
verdade ela não sabia quem era - ou o que era. Ela quase não existia;
não por inteiro. Parecia a união de vários pedaços dela mesma que foram
sendo encontrados caídos pelos cantos com o passar dos anos.
Ela era quem estava sempre certa; nao errava. Nunca! Tinha todas as respostas, para todas as coisas; ou pelo menos as justificativas. Sempre pronta a rebater, uma vez após outra, incansavelmente. Cega! Louca! Ela achava que conhecia o amor de verdade, mas só conhecia o amor-próprio. Não! Nem isso! O que ela acreditava ser amor, não passava de egoísmo. Orgulho inabalável, ego gigantesco e puro egoísmo.
Eu a encontrei pelo caminho de volta para casa em uma manhã, voltando de um bar. Conversamos um pouco e assim passei a conhecê-la; cada vez mais. Cada vez que eu a encontrava naquele mesmo caminho, eu a conhecia mais. Até que em certo ponto percebi que nossa proximidade estava tornando-se (no mínimo) desconfortável. Tudo aquilo que ela era, e que fui percebendo aos pouco, criava uma pesada, sufocante e agoniante atmosfera sobre mim. Tentei não encontrá-la mais; mas aquele caminho pelo qual eu seguia era inevitável. Assim, encontrá-la, vez ou outra, também era inevitável. Até chegar ao ponto em que decidi matá-la. Mas foi mais fácil decidir do que fazer. Na última vez que a vi, naquele mesmo caminho de terra, com aquelas mesmas árvores silenciosas em volta, andamos um pouco até chegar a um banco de madeira próximo de nós. Sentamos e não falamos nada. Eu nem podia: Minha garganta já sufocava com aquela atmosfera que ela gerava em torno de mim. Desci meu braço para apanhar a pá que havia deixado escondida ali fazia um pouco mais de um mês, esperando a próxima vez que ela aparecesse pelo caminho. Então, girei a pá ao mesmo tempo em que me levantava e acertei-lhe à altura da têmpora. Ela caiu no chão. Inerte. Mas não consegui terminar o que comecei; não totalmente. Talvez - mas só talvez - eu sentisse alguma simpatia de alguma espécie por ela. Cavei um buraco naquele chão. Não a matei. Atirei-a ali e a cobri com terra, ao lado da estradinha mesmo. Quando me afastei, cansado, desanimado e um pouco aliviado, pensei ter ouvido alguma coisa, distante: talvez um grito, um resmungo ou apenas minha imaginação.
Não era apenas imaginação. Algumas vezes voltando por ali, eu ouvia e sentia batidas surdas vindas do chão. Outras vezes era sua voz chingando, reclamando ou suplicando. Acontecia, com menos frequência, mas acontecia, de ela conseguir tirar sua mão para fora da terra e me puxar pelo tornozelo. Mas o pior era quando enquanto eu tentava fugir de suas mãos, ela acabava por conseguir tirar sua cabeça para fora da terra, de tão forte que se segurava em mim. Aí não havia outro jeito: eu tinha que parar de tentar fugir e ficava ali chutando e pisando em sua cabeça até conseguir que ela voltasse de volta para o buraco.
É... alguns dias não são fáceis. Mas outros, quando só ouço sua voz, bem longe, acho que quase me acostumei.
Ela era quem estava sempre certa; nao errava. Nunca! Tinha todas as respostas, para todas as coisas; ou pelo menos as justificativas. Sempre pronta a rebater, uma vez após outra, incansavelmente. Cega! Louca! Ela achava que conhecia o amor de verdade, mas só conhecia o amor-próprio. Não! Nem isso! O que ela acreditava ser amor, não passava de egoísmo. Orgulho inabalável, ego gigantesco e puro egoísmo.
Eu a encontrei pelo caminho de volta para casa em uma manhã, voltando de um bar. Conversamos um pouco e assim passei a conhecê-la; cada vez mais. Cada vez que eu a encontrava naquele mesmo caminho, eu a conhecia mais. Até que em certo ponto percebi que nossa proximidade estava tornando-se (no mínimo) desconfortável. Tudo aquilo que ela era, e que fui percebendo aos pouco, criava uma pesada, sufocante e agoniante atmosfera sobre mim. Tentei não encontrá-la mais; mas aquele caminho pelo qual eu seguia era inevitável. Assim, encontrá-la, vez ou outra, também era inevitável. Até chegar ao ponto em que decidi matá-la. Mas foi mais fácil decidir do que fazer. Na última vez que a vi, naquele mesmo caminho de terra, com aquelas mesmas árvores silenciosas em volta, andamos um pouco até chegar a um banco de madeira próximo de nós. Sentamos e não falamos nada. Eu nem podia: Minha garganta já sufocava com aquela atmosfera que ela gerava em torno de mim. Desci meu braço para apanhar a pá que havia deixado escondida ali fazia um pouco mais de um mês, esperando a próxima vez que ela aparecesse pelo caminho. Então, girei a pá ao mesmo tempo em que me levantava e acertei-lhe à altura da têmpora. Ela caiu no chão. Inerte. Mas não consegui terminar o que comecei; não totalmente. Talvez - mas só talvez - eu sentisse alguma simpatia de alguma espécie por ela. Cavei um buraco naquele chão. Não a matei. Atirei-a ali e a cobri com terra, ao lado da estradinha mesmo. Quando me afastei, cansado, desanimado e um pouco aliviado, pensei ter ouvido alguma coisa, distante: talvez um grito, um resmungo ou apenas minha imaginação.
Não era apenas imaginação. Algumas vezes voltando por ali, eu ouvia e sentia batidas surdas vindas do chão. Outras vezes era sua voz chingando, reclamando ou suplicando. Acontecia, com menos frequência, mas acontecia, de ela conseguir tirar sua mão para fora da terra e me puxar pelo tornozelo. Mas o pior era quando enquanto eu tentava fugir de suas mãos, ela acabava por conseguir tirar sua cabeça para fora da terra, de tão forte que se segurava em mim. Aí não havia outro jeito: eu tinha que parar de tentar fugir e ficava ali chutando e pisando em sua cabeça até conseguir que ela voltasse de volta para o buraco.
É... alguns dias não são fáceis. Mas outros, quando só ouço sua voz, bem longe, acho que quase me acostumei.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Mochileiro Das Galáxias
Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algoa ainda mais estranho e inexplicável.
***
Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.
***
Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.
mochileiro das galaxias
Resolvi homenagear a série de livros do mochileiro das galáxias, de Douglas Adams. vou postar por aqui, de vez em quando, alguma coisa interessante (ou mais ou menos isso).
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Julgado
Abro meus olhos devagar,
com um pouco de dificuldade. A luz do sol me ofusca, aos poucos vou percebendo
a cor purpúrea do céu. Nesse mesmo instante sinto uma dor do lado esquerdo da
minha cabeça, que está no chão, dor que vai se irradiando levemente. O calor do
sol pela manhã é agradável. Levanto-me um pouco desequilibrado, olho ao redor:
estou no centro da cidade, mais especificamente encostado na parede externa de
uma biblioteca. Ainda há pouco movimento de pessoas nas ruas, passando por mim
sem me notar. Deve ser bem cedo, vejo as horas e o dia da semana no celular:
08:10hs, domingo, o que também justifica
o pouco trânsito de pessoas.
Sinto sede, começo a
caminhar, seria bom tomar uma cerveja agora. Vou ao banco retirar algum
dinheiro. Entro, e vou em direção ao caixa eletrônico, porém, antes de chegar a
ele, sou abordado por um homem. Ele é alto, usa roupa social e tem um ar
variando entre o sério e severo.
- Billy Gandolfi ?
- Sim?
- Você foi convocado
a depor hoje à tarde. Compareça neste endereço no horário marcado. Compareça! E
não se atrase!
O homem se vira e
sai. Olho o cartão, o endereço não é muito longe de onde estou: uns 30 minutos
de caminhada. Não sei do que se trata, então começo a tentar lembrar o que
aconteceu na noite anterior. Lembro que fui a uma festa com alguns amigos, no
apartamento de alguém que eu não conhecia. Depois de algumas horas resolvemos
sair comprar mais bebida e ficamos andando e bebendo pela rua. Depois disso, eu
acordo nessa manha de domingo.
Saio do banco e
continuo meu caminho para o bar. Nos semáforos há alguns malabaristas
trabalhando, em meio às buzinas de alguns carros que disputam seu lugar nas
ruas com alguns cavalos e seus respectivos montadores. Pego um jornal pelo
caminho, distribuído gratuitamente. A matéria principal fala como alguns
estudos científicos associam o aumento do efeito estufa ao contínuo aumento do
uso de cavalos no trânsito, além do aumento de acidentes, principalmente nas
estradas, pelo depósito de dejetos animais em grande volume em alguns pontos, que
acabam por tornar as pistas escorregadias e mais perigosas. É algo a se pensar,
realmente faz sentido os argumentos apresentados na matéria, mas em
contrapartida, um dos principais patrocinadores do jornal é a maior indústria
de automóveis no país.
Chego ao bar. O ucraniano
no caixa me atende. É um homem aparentando seus 50 anos de idade, aspecto meio
sujo, meio maltrapilho, carrancudo, como se implorasse para que o próximo dia
não chegasse. Peço um pão e um bolinho de carne. Ele grita alguma coisa que eu
não entendo – provavelmente na língua de seu país de origem - para uma menina que
deve ser sua filha. Ela traz o pão aberto, coloco o bolinho dentro, dou uma
mordida e peço um café. Como e bebo, estava bom.
- Me vê um chineque,
uma dose de conhaque e uma cerveja?
Agradeço, pago e saio
do bar, me sentindo bem melhor. O peso nos meus olhos e o leve cansaço que eu
sentia diminuíram bastante. Mas de alguma forma ainda me sinto um pouco
estranho, como se estivesse faltando alguma coisa em algum lugar e eu não sei bem
o que é. Olho para o céu, que já esta com seu alaranjado característico e um esverdeado
bem próximo do horizonte, que se consegue ver de vez em quando, em alguns
pontos mais altos da cidade. Está quase na hora do meu “depoimento”, seja lá o
que isso queira dizer. Vou até o endereço indicado no cartão: um prédio antigo,
com 3 andares, ocupando meia quadra; paredes que devem ter sido brancas algum
dia, mas agora estão sujas e em muitos pontos, principalmente nos cantos e nos
detalhes arquitetônicos, enegrecidas e com aparência úmida. De duas janelas no
2º andar, duas vizinhas conversam com voz alta e estridente. Na entrada há uma
porta dupla, alta e de madeira gasta, com a pintura verde claro quase toda
descascada. Passando pela porta há um corredor estreito e escuro que dá para
duas escadas: uma subindo, à esquerda; e a outra descendo, à direita. As
paredes do corredor estão quase completamente pretas, emboloradas e parecem
escorrer umidade de algum ponto. Pego a escada da esquerda. Do alto da escada
vejo que estou em uma passarela que circunda um pátio interno, que dá a
impressão do prédio ter sido um antigo colégio.
Continuo subindo as
escadas, pelo caminho vejo algumas crianças brincando. Algumas rolam pelo chão
brincando com seus porcos de estimação. No último andar sigo pela passarela até
chegar a um portão de ferro, passo por ele, ando por um pequeno corredor que
dobra a direita e tem duas portas de cada lado e uma à frente. Entro na porta
que está à frente, lá dentro há um homem sentado atrás de uma mesa, escrevendo
alguma coisa em uma máquina de escrever. Ele usa óculos de grau pequenos e
redondos, tem cabelos com aparência oleosa, lisos, finos e ralos sobre sua
cabeça. Na mesa há um cinzeiro com algumas bitucas de cigarro, de uma delas
ainda sai um pouco de fumaça. Aguardo em frente à mesa, ele continua escrevendo
por mais alguns segundos, pára e me olha com indiferença:
- Pois não?
- Fui chamado a
depor.
Entrego-lhe o cartão.
O homem o examina com o mesmo interesse com o qual me atendeu.
- Pode seguir em
frente.
Sigo em frente. A sala toda
cheira a algo bem velho. Aquele cheiro da umidade junto ao cigarro, aos móveis
de madeira, ao sofá de tecido empoeirado em um dos cantos, a fraca luz
alaranjada vinda de um único foco e a luz e o ar do dia que mal entrava pela
única e pequena janela da sala: o cheiro parecia vir direto para o cérebro
através dos poros. Abro a porta seguinte. É uma sala ampla e bem iluminada pelo
que parece ser a luz do dia vinda pelo teto de vidro jateado. O tempo parece
ter mudado, porque a luz vem clara e acinzentada. Parece uma espécie de
tribunal, no estilo daqueles de filmes americanos, mas com poucas pessoas
assistindo, algumas parecem levemente alcoolizadas. O homem no alto do tribunal
fala com voz alta e autoritária:
- Billy Gandolfi, você foi
chamado aqui diante desse tribunal para responder pelo crime de assassinato.
- Assassinato?! Mas
eu...
- Silêncio! Responda
apenas quando lhe for pedido que o faça! Como você se declara?
- Inocente! Na
verdade eu nem sei de que assassinado o senhor...
- Silêncio! Não o
alertarei novamente. E dirija-se a mim como meritíssimo! Diante das provas
apresentadas aqui, o senhor está impedido de sair do Estado até o fim das
investigações. Aguarde ser chamado nas próximas semanas ou meses. Pode se
retirar.
- Mas merit...
- Está dispensado - por hora! -
senhor. Ou eu terei que pedir que o acompanhem?
Viro-me e saio. Ao
sair, reparo que na ante-sala há algumas galinhas que eu não havia notado
antes. Elas ciscam o carpete e andam pelos cantos. Ao sair do prédio vejo que o
céu está nublado, mas ainda claro. Encontro um amigo meu andando pela calçada.
Ele vem falar comigo:
- E ae Billy! Que cê
tava fazendo aí?
- Fui convocado a
depor.
- Sobre o que?
- Não sei.
- Como assim? você
foi chamado pra depor e não sabe sobre o que?!
- Ah, é alguma coisa
sobre assassinato.
- O que que você tem
a ver com isso?
- Não sei.
- Humm... vamo chegar
lá no bar na frente da facul. A galera vai lá hoje.
- Beleza.
Afastamos-nos do
prédio antigo. Dou uma olhada para trás. Em uma das janelas do 1º andar, o
homem alto que me encontrou no banco nos observa, com a mesma expressão
variando entre sério e severo.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
La vita è bella?
Considerações pessoais sobre o filme "La vita è bella" de Roberto Benigni:
Os animais, de forma geral, são seres acomodados por natureza. Dificilmente saem de sua zona de conforto, a não ser quando esta zona vai se aproximando do desconforto, seja um cachorro, um ser humano, ou um ornitorrinco. São poucos os que se destacam na multidão, que permanecem com um brilho no olhar, que se negam a simplesmente fazer parte do rebanho.
Guido Orefice (Roberto Benigni) é uma dessas excessões, que não se permite deixar levar pelos (distorcidos) valores vigentes. Guido não é um figurante em sua vida , ou alguém embalado por uma música. Ele faz as coisas acontecerem, é quem conduz a música, quem não se mantém passivo diante de qualquer situação.
Seu olhar é o olhar do artista, o olhar transformador: como diz o ditado, você pode simplesmente chupar os limões que a vida lhe atira, ou juntar gelo, açúcar e cachaça. Você pode encontrar seu "cavalo judeu" pintado de verde e ficar se lamuriando, ou usá-lo para que o torne um príncipe ao resgate de sua principessa. Todo o filme mostra essa tranformaçao da realidade, que antes de tudo é interna, para apenas depois mostrar seu reflexo na realidade concreta.
Algo que me chamou bastante a atenção, foi o cuidado com a cenografia, que assim como Guido, Dora (Nicoletta Braschi) e Giosuè (Giorgio Cantarini - excelente atuação), foge à realidade dura, à conformação. Ela reflete uma percepção íntima: talvez a forma que Giosuè Orefice encarava o mundo, e parte de como seu pai fazia com que o mundo lhe parecesse. O cenário do filme nao tenta parecer uma cópia fiel da realidade, ele causa uma sensaçao de que algo não está no lugar, mas é perfeitamente adaptado à realidade dos personagens principais, de como encaram a vida.
O filme me falou principalmente de entrega. Entrega à vida, ao amor, aos valores realmente importantes (isso deve variar de pessoa pra pessoa); de tornar cada dia único, nos atos que parecem gandes ou pequenos, porque no fim é a importância que você lhes confere que os torna maiores ou menores. É como se a todo momento o filme gritasse: Não seja mais um! Mas não entendamos errado o recado. Não se trata de fazer coisas que comumente se considera importantes. Não fala de ser o príncipe de uma nação mas, por exemplo, de ser o príncipe de seu principado, de sua princesa.
A entrega sincera não traz arrepedimentos, porque não espera reconpensa. Os "sacrifícios" de Guido, na verdade não são sacrifícios. Neles não há tristeza, sentimento de obrigação. Seus atos dizem respeito ao viver plenamente, com o que lhe é importante, com o amor por sua vida e pelo que e quem faz parte dela. É a todo momento expressão de felicidade, um ar que paira durante todo o filme, mesmo nos momentos mais tensos.
Me incomodou um pouco a imagem do americano à la Marlon Brando, com um inglês pronunciado perfeitamente, sorriso de orelha à orelha e um ar de super-herói equivalente ao de um Capitão América. Mas essa imagem até se justifica diante da imagem que os judeus deviam ter dos nazistas no campo de concentração.
Por sorte (para nós: telespoectadores), a cena final chega quase a acabar com esse estranhamento causado pelo personagem americano, trazendo para o filme a manutenção desse olhar intimista que começa com Guido e termina com Giosuè, trazendo a unidade desse olhar particular para o filme do início ao fim. Não é simplesmente uma fantasia, é mais uma perspectiva diferenciada.
A vida è bela? Não é uma pergunta para ser respondida (a Arte não busca respostas, busca reflexão. Enquanto a resposta é um fim, o questionamento traz continuidade). A vida simplesmente "é". O que faz diferença é como você encara as adversidades (oportunidades), e o que faz delas. Enfim: não seja gado, não se deixe levar pelo cotidiano cíclico e morno. Faça a diferença no mundo todos os dias, seja qual mundo for, ou o de quem for. E antes de tudo, não siga regras estabelecidas e estáticas (incluindo essas); não existe receita ou manual, existe o que faz bem e o que não faz . O que voce faz da sua vida?
Os animais, de forma geral, são seres acomodados por natureza. Dificilmente saem de sua zona de conforto, a não ser quando esta zona vai se aproximando do desconforto, seja um cachorro, um ser humano, ou um ornitorrinco. São poucos os que se destacam na multidão, que permanecem com um brilho no olhar, que se negam a simplesmente fazer parte do rebanho.
Guido Orefice (Roberto Benigni) é uma dessas excessões, que não se permite deixar levar pelos (distorcidos) valores vigentes. Guido não é um figurante em sua vida , ou alguém embalado por uma música. Ele faz as coisas acontecerem, é quem conduz a música, quem não se mantém passivo diante de qualquer situação.
Seu olhar é o olhar do artista, o olhar transformador: como diz o ditado, você pode simplesmente chupar os limões que a vida lhe atira, ou juntar gelo, açúcar e cachaça. Você pode encontrar seu "cavalo judeu" pintado de verde e ficar se lamuriando, ou usá-lo para que o torne um príncipe ao resgate de sua principessa. Todo o filme mostra essa tranformaçao da realidade, que antes de tudo é interna, para apenas depois mostrar seu reflexo na realidade concreta.
Algo que me chamou bastante a atenção, foi o cuidado com a cenografia, que assim como Guido, Dora (Nicoletta Braschi) e Giosuè (Giorgio Cantarini - excelente atuação), foge à realidade dura, à conformação. Ela reflete uma percepção íntima: talvez a forma que Giosuè Orefice encarava o mundo, e parte de como seu pai fazia com que o mundo lhe parecesse. O cenário do filme nao tenta parecer uma cópia fiel da realidade, ele causa uma sensaçao de que algo não está no lugar, mas é perfeitamente adaptado à realidade dos personagens principais, de como encaram a vida.
O filme me falou principalmente de entrega. Entrega à vida, ao amor, aos valores realmente importantes (isso deve variar de pessoa pra pessoa); de tornar cada dia único, nos atos que parecem gandes ou pequenos, porque no fim é a importância que você lhes confere que os torna maiores ou menores. É como se a todo momento o filme gritasse: Não seja mais um! Mas não entendamos errado o recado. Não se trata de fazer coisas que comumente se considera importantes. Não fala de ser o príncipe de uma nação mas, por exemplo, de ser o príncipe de seu principado, de sua princesa.
A entrega sincera não traz arrepedimentos, porque não espera reconpensa. Os "sacrifícios" de Guido, na verdade não são sacrifícios. Neles não há tristeza, sentimento de obrigação. Seus atos dizem respeito ao viver plenamente, com o que lhe é importante, com o amor por sua vida e pelo que e quem faz parte dela. É a todo momento expressão de felicidade, um ar que paira durante todo o filme, mesmo nos momentos mais tensos.
Me incomodou um pouco a imagem do americano à la Marlon Brando, com um inglês pronunciado perfeitamente, sorriso de orelha à orelha e um ar de super-herói equivalente ao de um Capitão América. Mas essa imagem até se justifica diante da imagem que os judeus deviam ter dos nazistas no campo de concentração.
Por sorte (para nós: telespoectadores), a cena final chega quase a acabar com esse estranhamento causado pelo personagem americano, trazendo para o filme a manutenção desse olhar intimista que começa com Guido e termina com Giosuè, trazendo a unidade desse olhar particular para o filme do início ao fim. Não é simplesmente uma fantasia, é mais uma perspectiva diferenciada.
A vida è bela? Não é uma pergunta para ser respondida (a Arte não busca respostas, busca reflexão. Enquanto a resposta é um fim, o questionamento traz continuidade). A vida simplesmente "é". O que faz diferença é como você encara as adversidades (oportunidades), e o que faz delas. Enfim: não seja gado, não se deixe levar pelo cotidiano cíclico e morno. Faça a diferença no mundo todos os dias, seja qual mundo for, ou o de quem for. E antes de tudo, não siga regras estabelecidas e estáticas (incluindo essas); não existe receita ou manual, existe o que faz bem e o que não faz . O que voce faz da sua vida?
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