terça-feira, 6 de novembro de 2012

Enterrado e Bem Morto (Vivo)

Eu a conheci há algum tempo. Não parecia - não parecia mesmo! -, mas algumas vezes ela sofria. Parecia sincera, honesta, tranquila; uma boa pessoa, pra quem poucas coisas faltavam - se é que faltavam. Na verdade ela não sabia quem era - ou o que era. Ela quase não existia; não por inteiro. Parecia a união de vários pedaços dela mesma que foram sendo encontrados caídos pelos cantos com o passar dos anos.

 Ela era quem estava sempre certa; nao errava. Nunca! Tinha todas as respostas, para todas as coisas; ou pelo menos as justificativas.  Sempre pronta a rebater, uma vez após outra, incansavelmente. Cega! Louca! Ela achava que conhecia o amor de verdade, mas só conhecia o amor-próprio. Não! Nem isso! O que ela acreditava ser amor, não passava de egoísmo. Orgulho inabalável, ego gigantesco e puro egoísmo.

 Eu a encontrei pelo caminho de volta para casa em uma manhã, voltando de um bar. Conversamos um pouco e assim passei a conhecê-la; cada vez mais. Cada vez que eu a encontrava naquele mesmo caminho, eu a conhecia mais. Até que em certo ponto percebi que nossa proximidade estava tornando-se (no mínimo) desconfortável. Tudo aquilo que ela era, e que fui percebendo aos pouco, criava uma pesada, sufocante e agoniante atmosfera sobre mim. Tentei não encontrá-la mais; mas aquele caminho pelo qual eu seguia era inevitável. Assim, encontrá-la, vez ou outra, também era inevitável. Até chegar ao ponto em que decidi matá-la. Mas foi mais fácil decidir do que fazer. Na última vez que a vi, naquele mesmo caminho de terra, com aquelas mesmas árvores silenciosas em volta, andamos um pouco até chegar a um banco de madeira próximo de nós. Sentamos e não falamos nada. Eu nem podia: Minha garganta já sufocava com aquela atmosfera que ela gerava em torno de mim. Desci meu braço para apanhar a pá que havia deixado escondida ali fazia um pouco mais de um mês, esperando a próxima vez que ela aparecesse pelo caminho. Então, girei a pá ao mesmo tempo em que me levantava e acertei-lhe à altura da têmpora. Ela caiu no chão. Inerte. Mas não consegui terminar o que comecei; não totalmente. Talvez - mas só talvez - eu sentisse alguma simpatia de alguma espécie por ela. Cavei um buraco naquele chão. Não a matei. Atirei-a ali e a cobri com terra, ao lado da estradinha mesmo. Quando me afastei, cansado, desanimado e um pouco aliviado, pensei ter ouvido alguma coisa, distante: talvez um grito, um resmungo ou apenas minha imaginação.

 Não era apenas imaginação. Algumas vezes voltando por ali, eu ouvia e sentia batidas surdas vindas do chão. Outras vezes era sua voz chingando, reclamando ou suplicando. Acontecia, com menos frequência, mas acontecia, de ela conseguir tirar sua mão para fora da terra e me puxar pelo tornozelo. Mas o pior era quando enquanto eu tentava fugir de suas mãos, ela acabava por conseguir tirar sua cabeça para fora da terra, de tão forte que se segurava em mim. Aí não havia outro jeito: eu tinha que parar de tentar fugir e ficava ali chutando e pisando em sua cabeça até conseguir que ela voltasse de volta para o buraco.

 É... alguns dias não são fáceis. Mas outros, quando só ouço sua voz, bem longe, acho que quase me acostumei.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Mochileiro Das Galáxias

 Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algoa ainda mais estranho e inexplicável.

***

 Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.

mochileiro das galaxias

Resolvi homenagear a série de livros do mochileiro das galáxias, de Douglas Adams. vou postar por aqui, de vez em quando, alguma coisa interessante (ou mais ou menos isso).

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Julgado

 Abro meus olhos devagar, com um pouco de dificuldade. A luz do sol me ofusca, aos poucos vou percebendo a cor purpúrea do céu. Nesse mesmo instante sinto uma dor do lado esquerdo da minha cabeça, que está no chão, dor que vai se irradiando levemente. O calor do sol pela manhã é agradável. Levanto-me um pouco desequilibrado, olho ao redor: estou no centro da cidade, mais especificamente encostado na parede externa de uma biblioteca. Ainda há pouco movimento de pessoas nas ruas, passando por mim sem me notar. Deve ser bem cedo, vejo as horas e o dia da semana no celular: 08:10hs,  domingo, o que também justifica o pouco trânsito de pessoas.
 Sinto sede, começo a caminhar, seria bom tomar uma cerveja agora. Vou ao banco retirar algum dinheiro. Entro, e vou em direção ao caixa eletrônico, porém, antes de chegar a ele, sou abordado por um homem. Ele é alto, usa roupa social e tem um ar variando entre o sério e severo.
 - Billy Gandolfi ?
 - Sim?
 - Você foi convocado a depor hoje à tarde. Compareça neste endereço no horário marcado. Compareça! E não se atrase!
 O homem se vira e sai. Olho o cartão, o endereço não é muito longe de onde estou: uns 30 minutos de caminhada. Não sei do que se trata, então começo a tentar lembrar o que aconteceu na noite anterior. Lembro que fui a uma festa com alguns amigos, no apartamento de alguém que eu não conhecia. Depois de algumas horas resolvemos sair comprar mais bebida e ficamos andando e bebendo pela rua. Depois disso, eu acordo nessa manha de domingo.
 Saio do banco e continuo meu caminho para o bar. Nos semáforos há alguns malabaristas trabalhando, em meio às buzinas de alguns carros que disputam seu lugar nas ruas com alguns cavalos e seus respectivos montadores. Pego um jornal pelo caminho, distribuído gratuitamente. A matéria principal fala como alguns estudos científicos associam o aumento do efeito estufa ao contínuo aumento do uso de cavalos no trânsito, além do aumento de acidentes, principalmente nas estradas, pelo depósito de dejetos animais em grande volume em alguns pontos, que acabam por tornar as pistas escorregadias e mais perigosas. É algo a se pensar, realmente faz sentido os argumentos apresentados na matéria, mas em contrapartida, um dos principais patrocinadores do jornal é a maior indústria de automóveis no país.
 Chego ao bar. O ucraniano no caixa me atende. É um homem aparentando seus 50 anos de idade, aspecto meio sujo, meio maltrapilho, carrancudo, como se implorasse para que o próximo dia não chegasse. Peço um pão e um bolinho de carne. Ele grita alguma coisa que eu não entendo – provavelmente na língua de seu país de origem - para uma menina que deve ser sua filha. Ela traz o pão aberto, coloco o bolinho dentro, dou uma mordida e peço um café. Como e bebo, estava bom.
 - Me vê um chineque, uma dose de conhaque e uma cerveja?
 Agradeço, pago e saio do bar, me sentindo bem melhor. O peso nos meus olhos e o leve cansaço que eu sentia diminuíram bastante. Mas de alguma forma ainda me sinto um pouco estranho, como se estivesse faltando alguma coisa em algum lugar e eu não sei bem o que é. Olho para o céu, que já esta com seu alaranjado característico e um esverdeado bem próximo do horizonte, que se consegue ver de vez em quando, em alguns pontos mais altos da cidade. Está quase na hora do meu “depoimento”, seja lá o que isso queira dizer. Vou até o endereço indicado no cartão: um prédio antigo, com 3 andares, ocupando meia quadra; paredes que devem ter sido brancas algum dia, mas agora estão sujas e em muitos pontos, principalmente nos cantos e nos detalhes arquitetônicos, enegrecidas e com aparência úmida. De duas janelas no 2º andar, duas vizinhas conversam com voz alta e estridente. Na entrada há uma porta dupla, alta e de madeira gasta, com a pintura verde claro quase toda descascada. Passando pela porta há um corredor estreito e escuro que dá para duas escadas: uma subindo, à esquerda; e a outra descendo, à direita. As paredes do corredor estão quase completamente pretas, emboloradas e parecem escorrer umidade de algum ponto. Pego a escada da esquerda. Do alto da escada vejo que estou em uma passarela que circunda um pátio interno, que dá a impressão do prédio ter sido um antigo colégio.
 Continuo subindo as escadas, pelo caminho vejo algumas crianças brincando. Algumas rolam pelo chão brincando com seus porcos de estimação. No último andar sigo pela passarela até chegar a um portão de ferro, passo por ele, ando por um pequeno corredor que dobra a direita e tem duas portas de cada lado e uma à frente. Entro na porta que está à frente, lá dentro há um homem sentado atrás de uma mesa, escrevendo alguma coisa em uma máquina de escrever. Ele usa óculos de grau pequenos e redondos, tem cabelos com aparência oleosa, lisos, finos e ralos sobre sua cabeça. Na mesa há um cinzeiro com algumas bitucas de cigarro, de uma delas ainda sai um pouco de fumaça. Aguardo em frente à mesa, ele continua escrevendo por mais alguns segundos, pára e me olha com indiferença:
 - Pois não?
 - Fui chamado a depor.
 Entrego-lhe o cartão. O homem o examina com o mesmo interesse com o qual me atendeu.
 - Pode seguir em frente.
 Sigo em frente. A sala toda cheira a algo bem velho. Aquele cheiro da umidade junto ao cigarro, aos móveis de madeira, ao sofá de tecido empoeirado em um dos cantos, a fraca luz alaranjada vinda de um único foco e a luz e o ar do dia que mal entrava pela única e pequena janela da sala: o cheiro parecia vir direto para o cérebro através dos poros. Abro a porta seguinte. É uma sala ampla e bem iluminada pelo que parece ser a luz do dia vinda pelo teto de vidro jateado. O tempo parece ter mudado, porque a luz vem clara e acinzentada. Parece uma espécie de tribunal, no estilo daqueles de filmes americanos, mas com poucas pessoas assistindo, algumas parecem levemente alcoolizadas. O homem no alto do tribunal fala com voz alta e autoritária:
 - Billy Gandolfi, você foi chamado aqui diante desse tribunal para responder pelo crime de assassinato.
 - Assassinato?! Mas eu...
 - Silêncio! Responda apenas quando lhe for pedido que o faça! Como você se declara?
 - Inocente! Na verdade eu nem sei de que assassinado o senhor...
 - Silêncio! Não o alertarei novamente. E dirija-se a mim como meritíssimo! Diante das provas apresentadas aqui, o senhor está impedido de sair do Estado até o fim das investigações. Aguarde ser chamado nas próximas semanas ou meses. Pode se retirar.
 - Mas merit...
 - Está dispensado - por hora! - senhor. Ou eu terei que pedir que o acompanhem?
 Viro-me e saio. Ao sair, reparo que na ante-sala há algumas galinhas que eu não havia notado antes. Elas ciscam o carpete e andam pelos cantos. Ao sair do prédio vejo que o céu está nublado, mas ainda claro. Encontro um amigo meu andando pela calçada. Ele vem falar comigo:
 - E ae Billy! Que cê tava fazendo aí?
 - Fui convocado a depor.
 - Sobre o que?
 - Não sei.
 - Como assim? você foi chamado pra depor e não sabe sobre o que?!
 - Ah, é alguma coisa sobre assassinato.
 - O que que você tem a ver com isso?
 - Não sei.
 - Humm... vamo chegar lá no bar na frente da facul. A galera vai lá hoje.
 - Beleza.
  Afastamos-nos do prédio antigo. Dou uma olhada para trás. Em uma das janelas do 1º andar, o homem alto que me encontrou no banco nos observa, com a mesma expressão variando entre sério e severo.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

La vita è bella?

 Considerações pessoais sobre o filme "La vita è bella" de Roberto Benigni:


 Os animais, de forma geral, são seres acomodados por natureza. Dificilmente saem de sua zona de conforto, a não ser quando esta zona vai se aproximando do desconforto, seja um cachorro, um ser humano, ou um ornitorrinco. São poucos os que se destacam na multidão, que permanecem com um brilho no olhar, que se negam a simplesmente fazer parte do rebanho.

 Guido Orefice (Roberto Benigni) é uma dessas excessões, que não se permite deixar levar pelos (distorcidos) valores vigentes. Guido não é um figurante em sua vida , ou alguém embalado por uma música. Ele faz as coisas acontecerem, é quem conduz a música, quem não se mantém passivo diante de qualquer situação.

 Seu olhar é o olhar do artista, o olhar transformador: como diz o ditado, você pode simplesmente chupar os limões que a vida lhe atira, ou juntar gelo, açúcar e cachaça. Você pode encontrar seu "cavalo judeu" pintado de verde e ficar se lamuriando, ou usá-lo para que o torne um príncipe ao resgate de sua principessa. Todo o filme mostra essa tranformaçao da realidade, que antes de tudo é interna, para apenas depois mostrar seu reflexo na realidade concreta.

 Algo que me chamou bastante a atenção, foi o cuidado com a cenografia, que assim como Guido, Dora (Nicoletta Braschi) e Giosuè (Giorgio Cantarini - excelente atuação), foge à realidade dura, à conformação. Ela reflete uma percepção íntima: talvez a forma que Giosuè Orefice encarava o mundo, e parte de como seu pai fazia com que o mundo lhe parecesse. O cenário do filme nao tenta parecer uma cópia fiel da realidade, ele causa uma sensaçao de que algo não está no lugar, mas é perfeitamente adaptado à realidade dos personagens principais, de como encaram a vida.

 O filme me falou principalmente de entrega. Entrega à vida, ao amor, aos valores realmente importantes (isso deve variar de pessoa pra pessoa); de tornar cada dia único, nos atos que parecem gandes ou pequenos, porque no fim é a importância que você lhes confere que os torna maiores ou menores. É como se a todo momento o filme gritasse: Não seja mais um! Mas não entendamos errado o recado. Não se trata de fazer coisas que comumente se considera importantes. Não fala de ser o príncipe de uma nação mas, por exemplo, de ser o príncipe de seu principado, de sua princesa.

 A entrega sincera não traz arrepedimentos, porque não espera reconpensa. Os "sacrifícios" de Guido, na verdade não são sacrifícios. Neles não há tristeza, sentimento de obrigação. Seus atos dizem respeito ao viver plenamente, com o que lhe é importante, com o amor por sua vida e pelo que e quem faz parte dela. É a todo momento expressão de felicidade, um ar que paira durante todo o filme, mesmo nos momentos mais tensos.

 Me incomodou um pouco a imagem do americano à la Marlon Brando, com um inglês pronunciado perfeitamente, sorriso de orelha à orelha e um ar de super-herói equivalente ao de um Capitão América. Mas essa imagem até se justifica diante da imagem que os judeus deviam ter dos nazistas no campo de concentração.

 Por sorte (para nós: telespoectadores), a cena final chega quase a acabar com esse estranhamento causado pelo personagem americano, trazendo para o filme a manutenção desse olhar intimista que começa com Guido e termina com Giosuè, trazendo a unidade desse olhar particular para o filme do início ao fim. Não é simplesmente uma fantasia, é mais uma perspectiva diferenciada.

 A vida è bela? Não é uma pergunta para ser respondida (a Arte não busca respostas, busca reflexão. Enquanto a resposta é um fim, o questionamento traz continuidade). A vida simplesmente "é". O que faz diferença é como você encara as adversidades (oportunidades), e o que faz delas. Enfim: não seja gado, não se deixe levar pelo cotidiano cíclico e morno. Faça a diferença no mundo todos os dias, seja qual mundo for, ou o de quem for. E antes de tudo, não siga regras estabelecidas e estáticas (incluindo essas); não existe receita ou manual, existe o que faz bem e o que não faz . O que voce faz da sua vida?

segunda-feira, 19 de março de 2012

Guest post

 Estou abrindo espaço às pessoas que querem publicar textos próprios aqui no blog. podem mandar seu texto para sandman-.-@hotmail.com ou deixar nos "comentários" deste post. Se seu texto for considerado adequado - por uma análise deste que vos escreve -, ele será publicado aqui e divulgado junto com o endereço de seu blog, site, etc..

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pirataria existencial

 Nesse barco desancorado, onde os ventos e as marés levam. Vivendo assim, como um pirata que vive quase sem saques, sem mesmo grande prazer na navegaçao. Momentos bons? Sim, nas loucuras comedidas, na sutilieza desvairada. Mas normalmente nos excessos. Neles o sangue corre nas veias e as ondas arrebentam com força. Aí acaba o cansaço das tardes mornas, preguiçosas, da comodidade estúpida e forçada garganta abaixo.
 Sim! Vivas ao excesso!
 Quando se faz necessário, a força também se faz, mas ela flui com facilidade, natural e, visceral. E o objetivo é só manter o nível, pelo máximo de tempo que puder, até seu corpo cair inerte no chão, na madeira cheirando a mofo, enquanto o mar te leva, com o sol quente te fazendo escorrer entre os vãos sob seus pés.
 Sim! Vivas ao excesso!
 Vivo a vida como quem vive um jogo, sem save ou load. Nem sempre da certo, mas, sem a pressão no peito, o queimar no estômago, o estrangular da garganta, quem te garante que se está vivo. Viver sem se importar com o amanha? Não. Mas sim, viver se importando em viver. Tranformar o balanço nauseante que te mantém dócil em energia para saltar dessa prisão quase sem grades. Mas isso é comigo. Ah, o ócio... Quem disse que não mata? Em certas mãos, realmente pode ser algo perigoso.
 Sim! Vivas ao excesso!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A dama (na puta que a pariu!) na água

 Ontem tive uma experiência cinematográfica muito interessante. Assisti a um filme que na ocasião considerei o pior que ja havia visto em toda minha vida. Como não quero ser injusto, talvez meu senso crítico esteja mais apurado, ou minha capacidade de tolerância diminuída (o que é mais provável), assim, digo apenas que com certeza foi um dos piores: A dama na água. Do início ao fim, há um asequência inacreditável de tudo que se possa imaginar para deixar o filme cada vez pior.
 Ele não tem absolutamente nada de bom? Tem. E o bom dele se resume a uma visão otimista, esperançosa e politicamente correta, que o roteirista tenta compartilhar. Ou seja, questão de princípios. Um monte de gente acha péssimo o otimismo a esperança e o politicamente correto.
 As atuações são péssimas, fica difícil entender os personagens, talvez eu tenha tido essa impressão porque esperava como personagens pessoas um mínimo próximas do real. Mas eram todos esteriotipados, fracos, com atitudes estranhas. A cada nova cena que exigia alguma atuação dos atores, eu só conseguia pensar: "quem em sã consciência age assim?!". No começo achei que era um problema de roteiro, mal escrito, história mal elaborada, diálogos muito ruins. Mas quanto mais eu assistia, mais eu tinha certeza de que talvez (mas só talvez) a história nao fosse tão ruim (as falas dos personagens são inquestionávelmente ruins) e de que a culpa era do diretor.
 Não há aprofundamento nos personagens, nós não sabemos quem eles são realmente, apenas aquele esteriótipo que no início parecia proposital, para fazer graça, mas depois eu não sabia mais o que era. Achei que era um filme com baixo orçamento, e acabaram contratando atores ruins, diretor ruim e seguindo a mesma lógica, equipe técnica ruim também. O que parecia um contraste apenas com o monstro vilão da história, que achei bom, mas tenho uma grande sensação de que essa impressão foi devida a minha impressão com todo o resto do filme.
 Decidi pesquisar alguma coisa sobre a personagem principal do filme, uma "narf". Não por interesse no filme, mas sim em mitologia. Eu queria ver se eles realmente estragaram alguma coisa que possuía certo valor. Eis então que começa a aflorar minha indignação. Um blog após outro defendendo o filme e o diretor que também era o roteirista, produtor e um dos atores (como minha namorada me disse uma vez, caras assim devem ter orgasmos múltiplos quando sobem  os créditos do filme). Descobri que o roteiro surgiu de uma história de ninar que o diretor contava para suas filhas. Aí ele se achou o Lewes Carol e resolveu começar o desastre. Aí descobri o mais estarrecedor, o diretor, produtor, roteirsta e ator é Manoj Nelliattu Shyamalan, conhecido também como M. Night Shyamalan, famoso por "sinais", "a vila" e "sexto sentido". Dos seus filmes, assisti quatro até hoje, e a qualidade definitivamente piorou gradativamente (apesar desse em questão ser um verdadeiro salto em sua filmografia).
  Descobrir quem era o diretor me tranquilizou um pouco, pois imagino que seus defensores, são GRANDES fãs. O que me tranquilizou ainda mais, foi descobrir que o filme foi indicado ao framboesa de ouro por pior filme e o Shyamalan por pior diretor e ator coadjuvante.
 Não comentarei sobre a história, a sinopse não é difícil encontrar. Enfim, não estou sendo maldoso, na verdade eu tenho grande capacidade de encontrar coisas boas em produções artísticas em geral, mas esse realmente é muito ruim. Acho que se alguém se esforçasse muito pra fazer um filme ruim, ele seria mais interessante que "a dama na água".

terça-feira, 30 de agosto de 2011

(in)evitável?

 *Nota: não é meu costume explicar o que meu dedo aponta, no entanto considero necessário algum esclarecimento: a ausência de nomes no texto, se deve à impressão que tenho do quanto esse assunto é comum - o que não tira sua importância. Nas palavras de Clarice Lispector: "Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho... o de mais nada fazer."
 Me incomoda de certa maneira a narração no final de cada parte do conto, pois acho que tira um pouco da liberdade de quem lê. No entanto sinto que o texto pedia tal narração.
 Se você evitou alguma das etapas abaixo, ou não pôde evitar mas superou: parabéns! Se não: boa sorte :)



 - Por que você tá quieto?
 - Queria te falar uma coisa... Importante.
 - Então fale.
 - Já faz quatro meses que estamos juntos, nos vemos quase todos os dias, fazemos tantas coisas juntos... Fica comigo.
 - rs Mas eu fico com você.
 - Só comigo. Larga ele. Ele nem gosta de você. E você também não gosta. Vocês ficam aí se traindo e se enganando...
 - Claro que não. Ele não me trai, e nós nos gostamos sim.
 - Então por que você está esse tempo todo comigo?
 - Porque eu gosto de você também.
 - É... Você gosta de mim quando ele te faz falta. Na ausência dele é que se mostra o seu “gostar” de mim.
 - Não fala assim, eu amo você. De verdade.
 - Assim como você amou os outros antes de mim? Assim como você vai amar outros depois?! Eu cansei! Fica comigo ou vamos terminar isso agora.
 - Ai, você sabe que eu não vou terminar com meu namorado.
 O jovem com semblante pesado deixa a menina para trás. Ela o observa, com um pouco de lágrima nos olhos. Vai para a casa de seu namorado.

 Entra na casa, vai até a sala, seu namorado está assistindo televisão, um jogo de futebol. Ela chega por trás e o abraça, tenta beijar sua boca, mas alcança apenas o rosto. O namorado simula o ato de beijar, porém sem tirar os olhos do jogo e mal virando o rosto. Ela parece frustrada, senta-se no sofá ao lado da poltrona dele.
 - Tá tendo uma peça bem legal no teatro hoje. Vamo vê?
 - Ah não... To cansado, você sabe que eu fiquei a semana toda fora, trabalhando, cheguei agora e to querendo descansar.
 - Você já parou pra pensar quanto tempo faz que você só fica descansando?! Talvez você esteja cansado é de mim! É sempre a mesma coisa! Que saco!
 - Que saco você! Agora tenho que fazer tuas vontades, e justo hoje que ta tendo o jogo.
 Ela sobe as escadas da casa, vai para o quarto, chora. No escurecer que chega aos poucos, ela fica olhando para a janela, mas sem prestar atenção em nada específico, apenas pensa em porque as coisas complicam tanto pra ela, e adormece, sem se dar conta, ou, mais especificamente, se esforçando em não se dar conta, de que o medo que ela sente é o que realmente a tortura e o que a faz tomar decisões erradas, uma após outra.

 Acorda uma hora depois, sentindo seu peito apertado, pega o celular e manda uma mensagem para seu “amigo”: “Gostaria que você me entendesse. As coisas não são simples pra mim. Tanta coisa acontecendo... Você me faz muito bem. Amo muito você! Pra sempre! Espero que você ainda queira me ver. Mas se não quiser tudo bem. Eu vou entender. Bjos!
 Pouco depois seu celular dá um bip: “Você se esforça em complicar as coisas. Você deve sentir algum prazer em sofrer. E em me ver sofrer também. Mas acho que não consigo mais ficar sem você. Te espero amanha. Bj!".
 E em seu quarto, onde estudava para a prova de física do seguinte, ele sofre, porque espera força de alguém que possui muita fraqueza, e cria expectativas sobre o que não deveria, pois o esforço é apenas seu, da outra parte há apenas comodidade.

***

 O rapaz se levanta, veste a cueca e as calças.
 - Você já vai? Assim?
 - Tenho que ir. Você sabe.
 - vou sentir tanta saudade.
 - Não devia. Já te avisei que você não devia levar muito a sério essa história.
 A garota fica com um pouco de lágrima nos olhos.
 - Por que você me trata assim? Só queria ficar bem com você.
 - Eu também. E estou muito bem assim. Não vem arrumar encrenca não. Por que você não fica com aquele carinha que ta sempre atrás de você?
 - Eu não gosto dele pra isso.
 - Mas ele gosta de você. Você devia aproveitar a oportunidade de ficar com alguém que gosta de você de verdade, porque comigo não vai rolar nada além disso aqui não.
 - Às vezes parece que você só quer me magoar.
 - Não é verdade. To é pensando no que é melhor pra mim.
 Ele termina de se vestir, da um tchau, assim como quem se despede de alguém em uma entrevista de emprego, pega seu carro e vai para casa.

 Em casa, liga a televisão e senta-se no sofá. Está passando uma partida de futebol, do seu time, mas ele mal percebe isso, pensa na frustração que vive, lembra com saudade de sua ex-namorada, que o deixou porque descobriu que ele a traíra. Na verdade sua ausência em casa aumentou depois que começou a namorar novamente, agora com a garota que mora com ele. Ele tenta se convencer que isso é o melhor para eles, mas pensa com irritação na hora que ela vai chegar, e nos momentos que ela irá querer passar com ele, enquanto ele só quer ficar ali. De repente é envolto num abraço que vem por suas costas. Ele cumprimenta a namorada, ou não. Não tem muita certeza. Ela quer ir ao teatro com ele, ele só quer “paz”. Discutem e ela sobe as escadas em direção ao quarto. A porta bate.
 “Que saco! Vontade de ter ficado mais tempo fora mesmo. Eu podia ter arrumado outra cidade pra ficar mais um ou dois dias antes de voltar”
 E assim ele fica se torturando, forçando uma situação incômoda, porque por certo tempo, em certa época lutou para ficar com a mulher que tem hoje, mas na verdade era apenas pra tentar fugir de seu outro amor, que talvez pela impossibilidade de voltar a tê-lo, fica a pensar que seria a sua pílula da felicidade, no entanto não pode deixar escapar a vida “perfeita” que busca ter agora.

***

 A porta do quarto se abre, a garota está acordada há algum tempo. Seu namorado se senta ao seu lado.
 - Me desculpa. É que to cheio de problemas com o trabalho. Tá meio atrasado. E a viajem foi longa, cansativa...
 - Tudo bem. Deixe.
 - Einh... Quer sair ainda?
 - Não. Não vai dar tempo. Eu tinha que me arrumar ainda.
 - Vamo jantar em algum lugar. Esquecer essa discussão. Eu te amo e quero ficar com você.
 Ela se arruma. Eles vão a um restaurante. Lá, comem e se descontraem. O celular dela da um “bip”, ela olha: “To morrendo de saudads! Durma bem. Até amanhã.”
 - Quem é?
 - Ninguém. Propaganda só.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

"Sonhos" de uma noite de inverno

 Desço na rodoviária da cidade, o tempo não parece muito bom, um pouco de garoa e uma brisa fria. Faz tempo que não venho à praia, tudo bem que não deve ser tão divertida com esse inverno e sozinho, mas a solidão e o frio eu posso resolver fácil com a necessária quantidade de bebida. Sigo pela estrada que vai até o centro, onde mais à noite terá alguns shows. Nada muito empolgante, mas é alguma coisa. Vou para o mercadinho mais próximo e compro uma garrafa de gim barato, abro e dou um trago. As ruas ainda estão vazias, exceto pelo espaço coberto onde acontecerão os shows, que no momento está repleto de senhoras de meia idade jogando bingo, e crianças correndo até serem bruscamente paradas por agarrões firmes em seus cabelos por seus pais. Anjinhos. Vou em direção à praia, passo por lojas, lanchonetes e barzinhos fechados, uma caminhada de uns quinze minutos. A garoa pára, chego à praia, vou caminhando pela areia até chegar a uma formação rochosa com a qual o mar se choca, sento e fico bebendo enquanto vejo as ondas se quebrarem. Estou com um pouco de sono, deito sobre as pedras, o vento diminui. Algumas pessoas passam por mim, sem dar muita atenção, parece uma família de turistas aproveitando sua casa de praia, ou sem muito dinheiro pra ir pra um lugar mais quente.


 Desperto, pego meu celular para ver as horas: 17h17min. Ainda tenho dois terços da garrafa cheios, me levanto e vou para um barzinho pelo qual passei antes e estava aberto, onde a porção de batatas fritas parecia grande, barata e calórica, perfeita para me preparar para o resto da noite. No bar, como as fritas e observo o movimento aumentando na rua, viro um martelinho de cachaça e em seguida um copo de chope. Pronto! Vamos à “festa”. A música já começou a tocar, não sei como defini-la com certeza, é algo entre sertanejo, pop, e funk carioca. Agora a música esta lenta, um pouco a frente há três policiais encostados em uma viatura. Um jovem caminha na direção deles, um pouco atrás uma garota o filma com um celular. Ele está a um passo dos policiais, quando a música muda de ritmo para uma batida funk, o rapaz começa a dançar, rebolando e mexendo os braços ao ritmo da batida enquanto vai descendo até o chão. A música volta ao ritmo lento e ele se levanta, com um ar calmo dá as costas aos guardas e caminha em direção a uma pequena rua ao lado da viatura. Um dos policiais tira seu cassetete e tenta golpear o “dançarino”, este ao perceber a movimentação corre e escapa do golpe, mas em seguida o policial acerta um chute de raspão no pé do fugitivo, que cambaleia e vai correndo tentando recobrar o equilíbrio. Um dos outros policiais corre em “auxilio” do colega, quando os dois primeiros adentram a pequena rua a última coisa que vejo é o cassetete acertando as costas do rapaz, que se retorce e desaparece com os guardas a lhe seguir. A garota que filmava tudo acompanhou a ação a uma distância segura, os dois policiais voltam do beco, parecendo ter perdido sua presa, vêem a garota que ainda os filma, esta se vira e corre em direção ao espaço coberto, agora já lotado de todo tipo de pessoas. Provavelmente esse vídeo terá uma boa quantidade de acessos na internet.


 Encosto-me em um canto, longe do palco e sem tanto tumulto, não é o tipo de música que eu faço questão de ouvir, na realidade dificilmente eu estaria aqui se não estivesse acompanhado. Tomo mais um gole de minha companhia. Noto que uma garota olha bastante para mim, está sozinha, estico a garrafa em sua direção, num gesto para oferecer-lhe. Para minha surpresa ela vem até mim, pega a garrafa e da um longo gole. Amor à primeira vista! Ou mais ou menos isso. Não fiquei surpreendido pela atitude em si, mas sim pela pessoa que aceitou minha gentileza. Traços delicados, cabelo cuidado, maquiagem bem feita, mini-saia roxa com uma meia-calça grossa por baixo, ar agradável. Gostei.
- Ola. Não achei que você fosse aceitar o gole.
- Porque não? Meninas não podem beber?
- Podem. Mas não achei que você era dessas que bebem gim puro direto da garrafa rs.
- Você sempre julga as pessoas pela aparência?
- Nunca. Por isso te ofereci :).
- Você não parece o tipo de pessoa que gosta dessas músicas.
- É. Não gosto. Você quer ficar vendo as bandas?
- Não. Vamos dar uma volta.
- Qual o seu nome?
- Natalia. E o seu?
- Billy
Conversamos até chegar ao atracadouro, pouca luz, poucas pessoas passeando por ali. Eu a seguro e a beijo. Ela corresponde. Seguro sua nuca com firmeza, vou escorregando a mão por suas costas, quando minha mão chega próxima de sua bunda ela a pega e sobe um pouco, para sua cintura. Sentamos em um banco e terminamos a garrafa enquanto nos conhecemos melhor. Ela está sozinha na cidade, esperando duas amigas que chegam no dia seguinte, está hospedada na casa de uma delas. Fico olhando seus olhos, há algo muito singular em sua beleza, me aproximo e beijo novamente. Minha mão segura uma de suas coxas, vou subindo vagarosamente até passar do limite da sua saia. Ela me pára mais uma vez.
- Calma. Acho que era bom eu te contar uma coisa.
Ela levanta e caminha até uma parede próxima, eu a sigo, Ela se encosta.
- Teu namorado ta por aí.
- Não tenho namorado. Você vai embora quando?
- Amanha de manhã.
- Então é melhor eu falar agora mesmo. É que eu não sou o tipo de mulher que você ta pensando.
- Como assim? Você é uma garota de programa? Tudo bem por mim rs.
- Não. Na verdade eu não sou totalmente uma mulher.
- Tá me zoando né?!
- É sério.
Eu agarro sua coxa com força, ela está cabisbaixa e não se move, subo minha mão até sua virilha e ela continua inerte. Então sinto uma sensação nada agradável: um considerável “volume” entre suas pernas.
- Filha da puta!
Agarro seu pescoço e a forço contra a parede.
- O que que você tá pensando?! Se eu gostasse de homem eu teria procurado um!
Enquanto seguro seu pescoço com a mão esquerda, levanto a direita, pronta para acertar-lhe um soco, estou possesso e ela está ciente da cólera em meus olhos, começa a choramingar
- Eu devia te socar! Ou te dar uns tapas!... ou...
Olho pra ela, agora com mais frustração do que raiva.
... um puxão de cabelo... ou alguma coisa assim...
Empurro sua cabeça contra a parede e a largo.
- Vo sair fora. Fica longe de mim.
Viro-me, dou um passo, paro e olho para ela mais uma vez.
- Quantos centímetros o teu tem?
- Quatorze.
- Hum... Pelo menos isso... O meu é maior.
Viro-me novamente e saio, sem olhar para trás, frustrado, mas me sentido um pouco menos ridículo.