sexta-feira, 20 de março de 2015

Mais (Menos) Um Dia

 Olho para cima: as nuvens estão pesadas. Estão literalmente pesadas. Eu as sinto. Sinto pesarem em meus ombros, nos meus olhos, pressionando minhas costas, forçando minhas pernas.

 Algumas vezes passa por mim um pouco de ar gelado. É estranho. Esse ar amortece levemente minhas pantorrilhas, aquece um pouco minhas costas abaixo das escápulas (não sei porquê) e alfineta suavemente meu abdômen.

 Minha visão está turva. Mal vejo as pessoas. Vejo vultos. Ouço suas vozes - não que as compreenda nitidamente mas percebo o burburinho, percebo que passam próximas a mim. Será que as pessoas me vem? Espero que não. Sinto-me uma pedra: cinza, apática, dura. Rolando com várias toneladas morro abaixo, sem nada lhe podendo apresentar resistência.

 As vozes são cansativas: dão-me sono, assim como seus rostos – que eu nem consigo focalizar, vejo apenas esses borrões que poderiam muito bem ser apenas a luz passando pela névoa. O que são? Parece que percebo tudo por filtros, que tudo o que percebo não passa diretamente por meus sentidos, que essa percepção não é imediata: parece que enxergo através de um vidro, ouço sons que passam por telas de feltro e sinto o toque não das coisas em si, mas sim de uma grossa camada de poeira, impregnada. Insonso.

 Sinto algo desligado em mim. Ou que estou ligado no automático. Ou ambos. Meus olhos atravessam as coisas, minha fala sai inconscientemente, respondo genericamente, sem processamento de informação.

 O sorriso é a pior parte. Por faltar-me a arte da dissimulação o sorriso é nitidamente plástico, frio, como se fosse uma impressora matricial a sorrir para uma cadeira alaranjada.

 Fazia tempo que isso não acontecia tão forte. Acho que os golpes vão se acumulando até que os hematomas começam a abrir e vazar pus. Preciso de alívio. Preciso sentir meu estômago aquecer, meu olhos umedecerem, meus ombros relaxarem, e deixar de enxergar ouvir e tocar qualquer coisa. Porque nada importa.

 Caminhando é diferente: é muito pior. Sinto-me preso, oprimido. Nunca tive claustrofobia mas imagino que a sensação se assemelhe a que sinto agora.

 Na primeira dose parece que minha mente começa a se adequar a realidade - descer a seu nível – e assim as coisas parecem mais reconhecíveis, verossímeis, familiares. Mas minha respiração continua um pouco ofegante. Na segunda dose a respiração começa a acalmar também.

 Atravesso uma praça durante a madrugada. Estou conversando, distraído, desligado. Nunca faço isso. Grande burrice. Dois caras me abordam. Apareceram de repente, nem percebi que se aproximavam (muita burrice!). Estão com as mãos nos bolsos de suas jaquetas, fazendo menção de estarem armados. Penso nas minhas possibilidades.

 - Passa o celular e o dinheiro.
 - Cara, tô sem celular.

 Ele segura na alça da minha mochila e a solto em sua mão. Ela estava pesada, com um livro grande e dois litros de vodka. Aproveito esse momento para correr até o outro lado da rua. Pego o celular para que vejam que estou ligando para a polícia. Na verdade não estou. Não estou conseguindo desbloquear o celular. Vou caminhando para trás olhando na direção dos assaltantes, tentando ver se sacam alguma arma.

 Alguns metros depois consigo ligar para a polícia. Falta 20 minutos para o próximo ônibus. Pegarei o ônibus até o terminal e de lá pegarei um táxi até em casa. Chegando ao terminal não há um único táxi. Ligo para a rádio-táxi. A atendente me informa que a espera é de 10 à 15 minutos. Provavelmente demorará mais de 30 minutos. Vou caminhando até em casa: 40 minutos de caminhada. Deito atravessado na cama, do jeito que cheguei e desmaio.

 Pela manhã me sinto estranho, apático. Ficarei sozinho em casa esse fim de semana. Mando uma mensagem pelo telefone celular:

 - Oi. Como está?
 - Bem e você?
 - Bem também. E aí.. não está a fim de vir aqui em casa hoje à noite
 - Não.

 É... não estão sendo meus melhores dias.

 Sinto-me sereno. Estou sem minhas garrafas de vodka. Acho que já posso morrer.

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